A missão Artemis II completou esta terça-feira, 7 de abril, um dos seus marcos mais críticos e visualmente impressionantes: a passagem pelo lado oculto da Lua, captando imagens e realizando medições científicas.Após atingir a distância recorde da Terra, a cápsula Orion utilizou a gravidade lunar para iniciar a sua trajetória de regresso. Nas comunicações estabelecidas com o centro de controlo em Houston, a tripulação partilhou observações técnicas que revelam uma face da Lua muito mais dinâmica do que as imagens de satélite sugeriam. Ao contrário da face visível, marcada pelos suaves e escuros "mares" basálticos, o lado oculto foi descrito pela tripulação como um terreno "brutal" e densamente saturado de crateras. Durante a passagem sobre a Bacia do Polo Sul-Aitken — uma das maiores crateras de impacto do Sistema Solar —, os astronautas Reid Wiseman e Victor Glover destacaram o enorme contraste de relevo e a quase total ausência de planícies.Também a especialista de missão, Christina Koch, refletiu este sentimento. "É uma paisagem de uma violência geológica que as fotografias não conseguem transmitir", afirmou, durante o downlink de vídeo. "São crateras sobre crateras, sem fim. Não há as grandes áreas planas a que estamos habituados do lado visível. É um terreno implacável."Além da geografia, a tripulação reportou um fenómeno raro de observar a olho nu: vários flashes de luz na superfície lunar, durante a passagem pela zona de sombra. Estes disparos luminosos – a imprensa internacional fala em pelo menos seis, mas há ainda que confirmar a telemetria exata – correspondem a impactos de meteoroides a ocorrer em tempo real. O piloto Victor Glover descreveu a experiência: "Vimos o que pareciam pequenas faíscas brancas num mar de escuridão total. É um lembrete constante de que a Lua ainda está a ser moldada por impactos, mesmo enquanto a sobrevoamos."Segundo o especialista de missão Jeremy Hansen, esta observação ajuda a validar a frequência de bombardeamento cósmico na face oculta, um dado essencial para a segurança de futuras infraestruturas na superfície.Radiação: dados do sensor HERA dão confiançaUm dos pontos fulcrais divulgados neste dia diz respeito à viabilidade da exploração humana a longo prazo. Os dados do sistema HERA (Hybrid Electronic Radiation Assessor) indicam que, mesmo durante a travessia das Cinturas de Van Allen e a exposição direta ao vento solar fora da magnetosfera terrestre, os níveis de radiação ter-se-ão mantido dentro dos limites previstos."Sentimo-nos seguros aqui dentro. A nave está a comportar-se exatamente como o escudo que foi desenhada para ser", sublinhou o comandante Reid Wiseman. A exposição acumulada foi descrita como uma fração mínima do limite anual para astronautas, o que validará a eficácia da blindagem da Orion e dará garantia de que a tecnologia atual será capaz de proteger a saúde dos astronautas em missões de longa duração no espaço profundo.Naturalmente, serão ainda necessários testes mais aprofundados para validar estas conclusões, incluindo análises médicas aos próprios astronautas, já em Terra, bem como análises detalhadas aos dados da HERA.A Orion encontra-se agora a acelerar em direção à Terra. Após a manobra de assistência gravitacional, a velocidade da nave começou a aumentar para a reentrada atmosférica prevista para o final da semana.Sobre a localização da cratera Carroll, batizada pela tripulação em memória da falecida esposa de Wiseman, a NASA confirmou que esta se situa numa zona de transição geológica, perto da cratera Glushko. O nome necessita de aprovação da International Astronomical Union (IAU) para ser fixado oficialmente."Dedicamos este marco à resiliência e ao apoio das nossas famílias, que tornam isto possível", disse Wiseman num momento de reflexão antes do início da viagem de volta.. Como observar a Carroll a partir de Portugal?Para os entusiastas que queiram localizar o novo marco lunar batizado pela tripulação, a tarefa exige alguma técnica e paciência astronómica. A cratera Carroll encontra-se no "limbo" ocidental da Lua e pode ser vista apenas em circunstâncias especiais.– O fenómeno da libração: para que esta zona seja visível da Terra, é necessário que ocorra uma libração favorável. Trata-se do ligeiro balanço orbital da Lua que expõe cerca de 9% da sua face oculta.– A referência visual: deve procurar-se a cratera Glushko (um ponto muito brilhante e jovem no rebordo oeste). A Carroll situa-se imediatamente a noroeste desta.– Equipamento e tempo: a observação a partir de Portugal requer um telescópio com boa resolução. Durante a fase de Quarto Minguante (a próxima está prevista para 10 de abril), o ângulo da luz solar irá realçar o relevo desta região fronteiriça, facilitando a identificação deste novo tributo lunar.