Francis Halzen é professor na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.
Francis Halzen é professor na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.

Prémio Nobel para trabalho sobre “mensageiros fantasmagóricos” 

Trabalho de Francis Halzen sobre neutrinos e o desenvolvimento de um observatório que fica a 1,5 quilómetros de profundidade no Polo Sul abriu “caminho para um novo tipo de astronomia”.
Publicado a: 
Atualizado a: 

O trabalho efetuado para rastrear um tipo de partículas conhecidas como neutrinos de alta energia e o desenvolvimento do Observatório de Neutrinos IceCube, no Polo Sul, com o qual foi possível fazer essa deteção, foi o mote para a atribuição do Prémio Nobel da Física a Francis Halzen, atualmente professor na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.

A secretária-geral da academia, Ellen Moons, anunciou que o prémio anunciado esta terça-feira (6 de outubro) é sobre “mensageiros fantasmagóricos do espaço”.

“Na física chamamos aos neutrinos partículas fantasmas porque são extremamente difíceis de detetar, pois não interagem com quase nada. E o Nobel premiou o trabalho desenvolvido para fazer um detetor que identifique um tipo de partículas que se chamam neutrinos”, explicou ao DN o professor da NOVA FCT e físico Mauro Moreira Guerra.

“Este prémio, sendo sempre para um trabalho de equipa, coube a uma das pessoas que conceptualizou um detetor capaz de detetar estas partículas, o IceCube. É um quilómetro cúbico de gelo que funciona como detetor. Portanto, por vezes, um neutrino vai interagir com uma partícula desse quilómetro cúbico de gelo. Os cientistas fizeram furos no gelo, que está a cerca de 1,5 km de profundidade, e puseram uns cabos com uns detetores que se chamam fotomultiplicadores – basicamente são detetores de luz. Quando o neutrino interage com o gelo, ou seja, quando bate nalguma molécula de água, cria uma cascata de partículas que, essas sim, vão interagir com o gelo ali à volta e vão emitir luz. Portanto, nós observamos o neutrino através da luz”, acrescenta.

O Observatório de Neutrinos IceCube, no Polo Sul.
O Observatório de Neutrinos IceCube, no Polo Sul.FOTO: Ilya Bodo, IceCube/NSF

Tal como frisa o comunicado da Academia Nobel, os neutrinos “estão em toda a parte”, mas são extremamente difíceis de detetar, porque não interagem com quase nada. “Ou seja, temos triliões de neutrinos a atravessar o nosso corpo a cada segundo e eles nunca interagem com nada. O nosso corpo do ponto de vista do neutrino é um espaço vazio”, explica Mauro Moreira Guerra.

“O que é interessante para mim, do ponto de vista da física, é que uma partícula destas que é tão fantasmagórica, que não deixa rasto, pode ser utilizada, como não sofre interações, para olharmos o início do Universo, se quisermos”, conclui.

"Um novo tipo de astronomia"

No comunicado após o anúncio, o presidente do comité Nobel da Física, Mark Pearce, explicou que “Francis Halzen liderou uma equipa internacional de investigadores e engenheiros que nos forneceram um instrumento fantástico. A sua tenacidade e visão científica abriram caminho para um novo tipo de astronomia”.

Nascido na Bélgica, o cientista de 82 anos, que vai receber um prémio de cerca de um milhão de euros, disse ser “uma grande surpresa e obviamente não estava à espera”, acrescentando: “Mas é um grande prazer saber desta distinção”.

“É uma sensação estranha”, frisou na chamada telefónica que recebeu após ganhar o Nobel. Nessas declarações também fez questão de recordar “as pessoas corajosas que se juntaram no início do projeto”.

Francis Halzen apresentou pela primeira vez a sua ideia para capturar neutrinos no Polo Sul em 1988 e assim contribuiu para a criação do Observatório de Neutrinos IceCube, no qual colaboram cerca de 450 pessoas, incluindo físicos, cientistas de computação e engenheiros, representando 58 instituições e 14 países.

Após a primeira deteção de neutrinos de alta energia em 2013, cientistas que trabalham no IceCube identificaram a primeira fonte cósmica de neutrinos, situada a 3,7 bilhões de anos-luz de distância.

Francis Halzen é professor na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.
“Honra a ciência portuguesa”. Seguro enaltece escolha de biólogo português para Comité do Nobel da Medicina
Francis Halzen é professor na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.
Nobel da Medicina partilhado por Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel
Diário de Notícias
www.dn.pt