Entre o Cubo Mágico e o xadrez, duas formas de aprender a pensar
Lakos Mate

Entre o Cubo Mágico e o xadrez, duas formas de aprender a pensar

Ernő Rubik, inventor do Cubo Mágico, e Judit Polgar, uma das maiores figuras da história do xadrez, cruzaram experiências na Universidade de Aveiro, numa conversa sobre o futuro da inteligência.
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Um puzzle que parece simples, mas esconde inúmeras combinações. Um tabuleiro onde cada jogada altera as possibilidades seguintes. O Cubo Mágico de Ernő Rubik e o xadrez de Judit Polgár são desafios diferentes, mas partilham uma exigência: observar, experimentar e pensar no que pode acontecer a seguir. Foi a partir desse território comum que os dois se encontraram na Universidade de Aveiro para conversar sobre inteligência e aprendizagem num mundo marcado pela inteligência artificial.

A sessão "Vamos brincar com a ideia?" integrou a conferência "The Future of Intelligence". O jogo esteve no centro da conversa como forma de desenvolver o pensamento crítico, a criatividade e a capacidade de decisão.

A história do Cubo Mágico começou antes de este se tornar um fenómeno mundial. Arquiteto e professor de Arquitetura, Rubik concebeu o objeto em 1974 para explorar formas e relações no espaço. Queria perceber como as peças de um objeto tridimensional se podiam movimentar e reorganizar. O objetivo inicial não era criar um brinquedo ou uma competição, mas investigar as possibilidades geométricas do objeto.

Essa simplicidade aparente, com um problema complexo no interior, continua a fascinar o inventor. "Gosto de coisas simples com um conteúdo rico", afirmou Rubik. A curiosidade, acrescentou, é uma característica essencial do ser humano: leva-nos a experimentar, observar o resultado e tentar perceber o que acontece quando fazemos algo de maneira diferente.

O sucesso do cubo também trouxe usos que não faziam parte da ideia original. Hoje, há competições dedicadas a resolvê-lo o mais depressa possível. Rubik reconheceu que "o cubo não foi criado para isso", mas observou que os objetos podem ser usados de formas diferentes daquelas para que foram pensados. O percurso do puzzle, da exploração geométrica às competições de velocidade, ilustra essa capacidade de uma ideia ganhar vida própria.

Universidade de Aveiro

Judit Polgár levou à conversa a experiência de uma carreira que mudou a história do xadrez. Tornou-se grande mestre aos 15 anos e quatro meses, em 1991, quebrando o recorde de juventude que pertencia a Bobby Fischer. Chegou ao oitavo lugar do ranking mundial absoluto, a melhor classificação alcançada por uma mulher, e enfrentou alguns dos principais jogadores do mundo. Retirou-se da competição em 2014, mas continuou ligada ao xadrez e à sua utilização na educação.

Para Polgár, o tabuleiro é também um lugar de aprendizagem. O xadrez obriga a pensar com antecedência, a raciocinar logicamente, a resolver problemas e a tomar decisões. Cada escolha pode alterar a partida: "cada movimento tem consequências", explicou. A antiga campeã defendeu que o jogo oferece às crianças uma combinação de regras, desafio e liberdade de pensamento, permitindo-lhes compreender ideias como estratégia, escolha e sacrifício em função de um objetivo.

A intuição, observou Polgár, não surge espontaneamente: desenvolve-se com a experiência e a prática. O xadrez pode também ajudar a reconhecer as próprias capacidades e limitações. Questionada sobre o peso do talento e do trabalho no seu percurso, a jogadora atribuiu as conquistas sobretudo à dedicação, afirmando que alcançou os resultados "graças ao trabalho". Estimou que 90% do seu sucesso se deveu ao esforço.

As experiências dos dois convidados deram uma dimensão concreta à pergunta que atravessou a conferência: que capacidades humanas queremos desenvolver numa época em que a inteligência artificial consegue executar tarefas cada vez mais complexas? A conversa passou pelo pensamento, pela criatividade e pela aprendizagem, sem reduzir a inteligência a uma única competência.

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