De Marte para a Terra, em julho de 1965 o Planeta Vermelho extinguiu-se de vida

A 15 de julho de 1965 o mundo conhecia a primeira imagem real da superfície de Marte, uma pintura efetuada pelos engenheiros da NASA, produzida a partir de códigos de cores debitados numa máquina de telétipo. Horas depois, quando as primeiras fotografias do Planeta Vermelho foram reveladas, instalou-se a desilusão: Marte não era o planeta repleto de vida há muito anunciado.
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Um raio de luz tinha sido visto projetando-se de Marte com a duração de 70 minutos (...) o observador é um homem confiável e cuidadoso e não há nenhuma razão para duvidar de que a luz existisse. O que quer que a luz fosse, não há meios de saber. Se tinha inteligência ou não, ninguém pode dizer". A 1 de janeiro de 1901, o jornal The New York Times, dava voz a Edward Charles Pickering, astrónomo, diretor do Harvard College Observatory, nos Estados Unidos. Pickering citava o conteúdo de um telegrama que recebera dias antes do matemático e astrónomo, Percival Lowell. No dealbar do século XX e nas décadas seguintes, a Terra viveu a euforia de Marte e a possibilidade de o planeta albergar formas de vida inteligentes. A partir de 1894 e por 15 anos, Percival Lowell deixou a sua Boston natal para se instalar no deserto do Arizona onde fundou um observatório astronómico. Lowell e a sua equipa apontavam o telescópio a um ponto 216 milhões de quilómetros afastado da Terra, na expectativa de preencherem de vida os supostos canais marcianos. Em 1877, o italiano Giovanni Virginio Schiaparelli, sustentou a teoria de canais no Planeta Vermelho, detalhando-os no primeiro mapa de Marte e em obras como a de 1893, Vida em Marte.

A distância a que se encontra o quarto planeta a partir do Sol, a pouca fiabilidade dos telescópios de finais do século XIX, início do século XX, a ausência de fotografia astronómica, à qual se somou uma generosa dose de criatividade em obras de ficção como A Guerra dos Mundos (1898), de H. G. Wells; Uma Princesa de Marte (1912), de Edgar Rice Burroughs ou, mais tarde, as Crónicas Marcianas (1950) de Ray Bradbury, acalentaram a esperança de os terráqueos não serem ato único de inteligência superior no Sistema Solar.

A exploração espacial das décadas de 1950 e 1960 mudaria a relação da Terra com Marte. Após os desaires das três primeiras missões norte-americanas Mariner rumo ao Planeta Vermelho, a 28 de novembro de 1964, o quarto momento da missão apontou rumo a Marte a partir da base de lançamento da Estação da Força Aérea do Cabo Canaveral, na Flórida.

Findos os 228 dias de viagem interplanetária, a sonda Mariner 4 tornou-se o primeiro objeto construído pela humanidade a sobrevoar com sucesso Marte. A 15 de julho de 1965, o engenho aproximou-se a cerca de 9000 quilómetros da superfície do planeta.

Instalados na Secção de Telecomunicações, uma multidão de engenheiros do Jet Propulsion Laboratory aguardava o momento em que a Mariner 4 endereçasse à Terra a primeira fotografia de alta resolução do solo marciano, o que significaria a primeira visão de outro planeta captada a partir de um ponto de vista espacial.

A bordo, a Mariner 4 carregava uma câmara de televisão associada a um gravador de fita. A mais de duas centenas de milhões de quilómetros de distância do nosso planeta, a sonda afadigava-se na captura de imagens, 22 no total, a cobrir 1% da superfície do planeta.

As fotografias tardavam, contudo, a chegar à Terra, momento em que os computadores as processariam em imagens reais. Tempos de espera que não se compadeciam com a ansiedade da equipa liderada pelo engenheiro Jack Norval James, prestes a ter nas mãos a primeira fotografia da paisagem marciana.

À máquina de telétipo instalada no Jet Propulsion Laboratory chegavam a cada segundo centenas de dados numéricos em bruto. Números impressos em papel, a representar a intensidade da luz nos píxeis, que inspiraram o engenheiro Richard Grumm, a avançar com uma ideia: agregar os dados numéricos debitados pelo telétipo em padrões de números, correspondendo-lhe uma chave de cores, progredindo das mais claras para as mais escuras.

O resultado seria uma imagem pintada à mão da superfície do planeta. Nas horas seguintes, um grupo de engenheiros coloriu, com recurso a lápis a pastel, tiras de papel alinhadas lado a lado num painel, preenchendo de cor uma imagem povoada com 40 mil números.

Nesse 15 de Julho, perante as câmaras da televisão norte-americana, o mundo acolhia a primeira imagem aproximada da superfície marciana, um cenário tingido de laranjas, ocres e castanhos.

A obra pintada e assinada por Richard Grumm superou em cor e interesse a evidência que trouxe a primeira coleção de fotos impressas captadas pela Mariner 4. De súbito, o planeta que se cria rico em vestígios de vida, apresentava-se árido, pejado de crateras de impacto, de feição semelhante à da Lua. Esmorecia o interesse público.

O planeta que animara romances como Mr. Stranger"s Sealed Packet (1889), do matemático escocês Hugh MacColl, não era um mundo fervilhante de vida, tão pouco lar de marcianos. Nos meses seguintes a Mariner 4 mergulharia na solidão do espaço. A 21 de dezembro de 1967 emitiria o último sinal rumo à terra, a mais de 300 milhões de quilómetros de distância de casa.

A pintura por números de Richard Grumm permaneceria por vários anos como o exemplo visual mais entusiasmante do Planeta Vermelho. Eis que em novembro de 1971, a missão Mariner 9 recupera para os olhos da Terra o interesse por Marte.

Em órbita ao planeta, a Mariner 9 captou em mais de 7000 fotografias um lugar rico nas paisagens, com calotas polares, vestígios de antigos leitos de rios e acidentes geográficos como o Monte Olimpo, o maior vulcão do sistema solar, com 21,9 Km de altura acima do nível médio da superfície marciana e uma base de 625 Km de diâmetro. A Mariner 9 forneceu, ainda, imagens de detalhe dos dois satélites naturais de Marte, Deimos e Fobos e permitiu elaborar o primeiro mapa global do planeta.

Cinco anos volvidos sobre o sucesso da missão Mariner 9, 11 anos sobre a execução da pintura por números de Richard Grumm, a humanidade recebia da sonda Vicking 1 a primeira imagem captada na superfície marciana. A 20 de julho de 1976, a sonda aterrou no solo suave da planície de Chryse, um momento que o astrofísico norte-americano Carl Sagan recordaria no seu livro de 1981, Cosmos: "Aquele mundo não era estranho, pensei. Conhecia lugares assim no Colorado, no Arizona e em Nevada. Havia pedras e dunas e uma elevação distante, tão natural e espontânea como qualquer paisagem na Terra. Marte era um sítio".

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