Sugestões a não perder para os presentes de Natal de última hora

Se ainda não se decidiu sobre algumas prendas especiais, 11 figuras da sociedade portuguesa ajudam-no a escolher

Afonso Cruz: Novelas gráficas e Jungle Blues
A sugestão do escritor e músico é Fábio Moon e Gabriel Bá, autores de novelas gráficas que publicaram há relativamente pouco tempo, no Brasil, o livro Dois Irmãos, baseado na obra homónima de Milton Hatoum: "Trabalharam o guião com o autor do romance e conseguiram fazer passar não só a densidade e o peso da obra original como lhe acrescentaram uma riqueza que só a linguagem gráfica poderia dar." Este trabalho, desenvolvido ao longo de três anos, resultou numa novela gráfica de exceção: "Creio que a versão portuguesa será publicada em 2018, entretanto podemos ler o maravilhoso romance que lhe serviu de base, uma das obras fundamentais da literatura brasileira."

Quanto à música, Afonso Cruz confessa: "O rádio do meu carro não funciona muito bem e por um motivo incompreensível, e talvez místico, lê apenas um CD, rejeitando todos os outros. Essa limitação faz que, quando viajo, ouça com uma assiduidade que raia a obsessão esse mesmo disco. Curiosamente, vai resistindo ao cansaço que normalmente surge depois de tanta insistência e continua a ser um álbum que ouço com grande prazer e que inevitavelmente conheço de trás para a frente. Chama-se Jungle Blues e é da autoria de C. W. Stoneking. Mistura blues com ritmos africanos, jazz tradicional, calipsos e folclore de Nova Orleães. É acompanhado por uma orquestra de metais que parece ter bebido demasiado whisky."

Alice Vieira: Ensaio de Miguel Carvalho
A escritora começa por "confessar" que leu poucas novidades neste ano: "Reli muitos clássicos - é sempre um bom conselho a dar reler Eça, Camilo e Machado de Assis." Falando de novidades editoriais, o livro que mais a entusiasmou foi Quando Portugal Ardeu, de Miguel Carvalho: "A tantos anos de distância faz bem uma leitura objetiva e lúcida sobre o Verão Quente. São extraordinárias as entrevistas de muitos desses responsáveis das redes bombistas. Para eles tudo foi natural, há sempre outros que os mandaram agir daquela maneira, e sim, voltariam a fazer tudo como fizeram.

" Quanto à música, aconselha dois discos: Carminho a cantar Tom Jobim, e Raquel Tavares a cantar Roberto Carlos: "Não são necessárias justificações, porque sou grande admiradora dos quatro."

Bárbara Coutinho: Chico Buarque e António Damásio
Caravanas, o último disco de Chico Buarque, lançado em 2017, é a sugestão de Bárbara Coutinho, diretora do MUDE - Museu do Design e da Moda, no que diz respeito à música. "É um belíssimo exemplo de uma constante criação, com as marcas da escrita que o distinguem, mas também uma sonoridade tão nova. É um dos que tenho estado a ouvir."

Nos livros, A Estranha Ordem das Coisas - A Vida, os Sentimentos e as Culturas Humanas, de António Damásio, editado em novembro, é a escolha. "Estou no início, mas o tema é absolutamente interessante. Ele escreve para um grande público, com total acessibilidade, sobre um tema tão complexo como a neurociência."

Francisco Ferreira: Lembrar Zé Pedro
O ambientalista Francisco Ferreira sugere Verdade ao Poder: Uma Sequela Inconveniente, de Al Gore, e Circo de Feras, dos Xutos & Pontapés.

"Poder-se-ia pensar que a mensagem de Al Gore sobre a crise climática é apenas difundida através das suas magníficas conferências ou de filmes documentários marcantes. A fugacidade de um documentário, como o mais recente Uma Sequela Inconveniente: Verdade ao Poder, que em Portugal não teve infelizmente direito a entrar nos circuitos comerciais, leva a que muita informação nos toque no momento e se perca para o futuro. O livro de Al Gore, com o mesmo título do filme, permite-nos a devida digestão dos números e uma reflexão mais detalhada e prolongada, para quem teve ou não a oportunidade de ver o documentário."

Quanto à música, sugere o álbum Circo de Feras, dos Xutos & Pontapés: "Claro que é a memória de Zé Pedro que me conduz a esta escolha, fazendo-me lembrar uma longa conversa que tive com ele num comboio de descoberta e debate sobre o ambiente que saiu e voltou a Lisboa depois de passar junto ao Tejo e ao Sado há alguns anos e que me deu a conhecer uma pessoa muito sensível e atenta às causas ambientais. Ainda me lembro da música e da letra de praticamente todas as canções, o que mostra a força e a energia "renovável" de uma banda tão marcante e que merece continuar a ser ouvida."

Graça Freitas: Asas e Penas, de Jorge Palma
Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, faz não duas mas quatro sugestões. Todas com um cunho muito pessoal. Quanto a livros, sugere dois: "A Vida em Surdina, do David Lodge, que é uma terna, doce e amarga reflexão sobre o envelhecimento e a morte que passa por uma descrição crua do Serviço Nacional de Saúde inglês; e Uma Casa para Mr. Biswas, do Naipaul, que é a saga de toda a vida de um homem pobre que aspira a ter uma casa ainda que seja uma barraca, está primorosamente escrito e todos somos Mr. Biswas em alguma fase da nossa vida."

Na música, uma sugestão nacional e outra estrangeira: "Asas e Penas, do Jorge Palma, porque é o disco que tem a Estrela do Mar, a mais bela canção de sempre. E o álbum Red, dos King Crimson, que tem o tema Starless, uma melodia extraordinária e uma letra igualmente bela: "Sundown dazzling day/ Gold through my eyes/ But my eyes turned within/ Only see"

Joana Carneiro: Ler o Nobel da Literatura
A maestrina Joana Carneiro escolhe o mais recente Nobel da Literatura: "Ishiguro e o seu livro Gigante Enterrado é um nome incontornável do momento. Recuperou imagens do seu passado que nos ajudam a compreender a sua forma de escrita e a ideia simples e pertinente de que esta distinção pretende promover a harmonia e a paz. O escritor fá-lo não só através da escrita, mas também da música, como compositor."

Quanto a música, Carneiro sugere o CD de John Adams Scheherazade 2, de Leila Josefowicz, com a St. Louis Symphony e o maestro David Robertson: "No ano em que se comemoram 70 anos do compositor, John Adams continua a ser uma das referências mais importantes da composição musical dos nossos tempos. Aqui apresenta a peça baseada no conto com o mesmo nome, nas mãos sublimes de Leila Josefowicz."

José Avillez: Damásio e Hermann Hesse
Ochef José Avillez, que nesta época natalícia não tem mãos a medir entre os seus vários negócios na área da gastronomia, encontrou mesmo assim uns minutos para fazer duas sugestões literárias: "Siddhartha, de Hermann Hesse, porque é um dos livros da minha vida", e o mais recente livro de António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas, porque "tenho grande interesse pelo interessante trabalho que tem vindo desenvolver no estudo do cérebro e das emoções humanas".

José Manuel Pureza Ouvir J. Mário Branco
Mudam-se os Tempos, Mudam--se as Vontades, de José Mário Branco, é a escolha musical de José Manuel Pureza. "Abertura (Gare d"Austerlitz), Cantiga para Pedir Dois Tostões, Cantiga do Fogo e da Guerra, O Charlatão, Queixa das Almas Jovens Censuradas, Nevoeiro, Mariazinha, Casa Comigo, Marta, Perfilados de Medo, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades - ou como em 1971 se rasgou o tempo morno e abafado", conclui o deputado do Bloco de Esquerda após enumerar os temas do álbum.

Quanto a uma sugestão literária, elege Os Últimos Dias da Humanidade, de Karl Kraus, na edição de 2016 da Húmus: "O apocalipse de todos os dias feito horror risonho. O mal absoluto da guerra feito cultura de violência a operar na aparente normalidade do quotidiano. É sobre 1914 ou sobre 2017? A qualidade da tradução de António Sousa Ribeiro mereceu o Grande Prémio de Tradução Literária atribuído pela Associação Portuguesa de Tradutores e pela Sociedade Portuguesa de Autores", justifica o também vice-presidente da Assembleia da República.

Nuno Carinhas: Apelo à leitura de teatro
A primeira sugestão de Nuno Carinhas, diretor artístico do Teatro Nacional São João, no Porto, está intrinsecamente ligada aos palcos: Macbeth, em português, na tradução de Daniel Jonas: "É uma tradução inspirada e muito rigorosa, e porque ler Shakespeare é entender os homens nas suas grandezas e misérias, na honra e vileza, no amor e na ambição." Para além disso, faz outra sugestão: "Também um apelo à leitura de teatro, porque é fácil ler teatro quando é feito com as personagens que falam em discurso direto e dialogam."

Na música, o encenador opta por I Tell a Fly, de Benjamin Clementine: "É um poeta esplendoroso que canta com a voz de um xamã, de encantador de mundos pop, uma produção sonora cheia de surpresas e sempre exaltante. É um CD para nos acordar para o dia que aí vem."

Richie Campbell: Slow J. e Peterson
O cantor e compositor Richie Campbell ofereceria o disco de estreia do Slow J, The Art of Slowing Down: "Foi um álbum descoberto tardiamente, confesso, mas pelo qual me apaixonei de imediato, por ser feito por um tipo de artista raro em Portugal, tanto em termos criativos como de capacidade de trabalho. Acima de tudo, trata-se de uma pessoa muito inspiradora, para quem o rap acaba por funcionar mais como ponto de partida para uma viagem musical bastante diversa, feita a partir das mais variadas influências."

Quanto a livros, sugere 12 Rules for Life: An Antidote to Chaos, de Gordon B. Peterson: "É o presente perfeito nos dias que correm. O autor é um psicólogo clínico, também professor de psicologia na Universidade de Toronto, que nesta obra, à qual costumo chamar de falso livro de autoajuda, nos dá pistas baseadas em factos científicos, sobre o modo como nos devemos organizar, para otimizar a vida."

Rogério Alves: Doors e Andersen
O advogado Rogério Alves escolhe o livro: "Os Contos, de Hans Christian Andersen, para se perceber, na simplicidade das coisas, o seu verdadeiro sentido e poupar tempo em raciocínios demasiado elaborados."

Quanto a música, a escolha é o primeiro álbum dos The Doors, recentemente remasterizado por Bruce Botnick: "Para se ter acesso a uma voz firme e carismática, que se tornou bem rara nos tempo modernos."

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