Os livros que os escritores vão levar para ler nas férias

Serão os escritores muito diferentes dos leitores nas suas escolhas literárias? Leia as respostas de quase três dezenas de autores e surpreenda-se.

Há um livro especial para ler nas férias? Não, pelo menos no inquérito feito a quase três dezenas de escritores portugueses, as coincidências são muito poucas. Apenas Elena Ferrante, Mario Vargas Llosa, Haruki Murakami e o poeta Miguel Cardoso, se repetem por um par de vezes. De resto, cada um dos autores nacionais escolhe mais de acordo com o gosto pessoal ou as necessidades de trabalhar durante estas férias do que pelas novidades. Ou seja, pode-se concluir que os escritores e os leitores são bastante mais parecidos no momento de escolher o que vão ler nas próximas semanas do que se poderia imaginar.

Afonso Cruz não vai à praia. Se for, lerá Cossery

"Nasci junto ao mar, na Figueira da Foz, no entanto, raramente vou à praia." Quem o revela é Afonso Cruz, que admite mudar de ideias: "Se for à praia, irei munido de Albert Cossery e levarei As Cores da Infâmia, que certamente não me bronzearão nem pelo contrário me protegerão dos raios solares ou dos mercados, mas serão capazes de fazer ver: "Não há nada de mais imoral do que roubar sem riscos. É o risco que nos diferencia dos banqueiros e dos seus émulos que praticam o roubo legalizado com a cobertura do governo.""

Afonso Reis Cabral ferrantiano

O Prémio Leya de 2014 é sincero: "Tal como meio mundo, também fui apanhado pela Ferrantomania. A História da Menina Perdida, o quarto volume da Amiga Genial, vai ser o primeiro livro para as férias." Afonso Reis Cabral não distingue as leituras de Verão das restantes: "Por vezes, aproveito para conhecer mais a fundo a obra de um autor. Este ano vou divagar mais: levo também As Primeiras Coisas, de Bruno Vieira Amaral, e a excelente tradução que Vasco Gato fez da Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.

Alice Vieira regressa a Eça

"Estou a meio de uma depressão complicada, com muito pouca concentração para a leitura e o conselho que me deram foi reler clássicos de que tenha gostado muito." Alice Vieira é direta, daí que siga o conselho e, quando chegar à Ericeira, tenha à mão Dom Casmurro, de Machado de Assis, Os Maias de Eça Queiroz - "que releio todos os anos, mesmo quando estou boa..." - e El-Rei Junot, de Raul Brandão.

Carla Maia de Almeida na não-ficção

"Para as minhas leituras de verão", diz a autora de Irmão Lobo, "há um livro que comprei logo que saiu: A de Açor, de Helen Macdonald. Gosto de livros de não-ficção que refletem sobre a ligação entre as pessoas e os animais, numa perspetiva autobiográfica, mas sobretudo filosófica e poética. Não me refiro àquelas histórias mais simples sobre animais domésticos, mas quando os livros conseguem juntar a exposição pessoal do autor à profundidade do seu pensamento, podem resultar livros extraordinários. Na mesma linha, li e gostei muito de O Filósofo e o Lobo, de Mark Rowlands. Os animais ajudam-nos tocar a nossa humanidade e, neste estado de emergência global, bem que precisamos de ouvir o que têm para nos dizer."

David Machado não falha o romance gráfico

Nestas férias, David Machado tem intenções de leitura muito definidas: "Quero ler Um Postal de Detroit, do João Ricardo Pedro, porque depois de ter lido o seu primeiro romance nunca poderia deixar de ler este." Mas não se fica por essa escolha: "Os Vampiros, o novo romance gráfico do Filipe Melo e do Juan Cavia, porque tudo o que fazem me parece de génio e, além disso, a banda desenhada portuguesa precisa de um empurrão." Ainda sente uma terceira obrigação: Este é o meu corpo, o único romance da Filipa Melo, publicado em 2001, o qual, lamentavelmente, nunca li, sabendo de antemão que será incrível."

Djaimilia Pereira de Almeida a terminar leituras

Este verão, Djaimilia Pereira de Almeida gostaria de terminar três livros que deixou a meio ao longo do ano: O Império da Visão, uma antologia de ensaios sobre fotografia do período colonial organizada por Filipa Lowndes Vicente; Voyage of the Sable Venus: and other poems, de Robin Coste Lewis, e os escritos fotográficos de Lewis Baltz: "Os três debruçam-se sobre imagens e, no caso do de Coste Lewis, sobre as legendas que as acompanham, interesses que me seguiram ao longo deste ano."

Filipa Leal, também poesia nas férias

Para início de conversa, uma declaração: "Se as férias são o merecido prémio de quem ainda tem trabalho, os prémios são, por vezes, a merecida chamada de atenção para o trabalho do escritor. Eu não tinha lido Raduan Nassar antes da notícia do Prémio Camões 2016. Mas depois da leitura do conto Ventre Seco (que fiz, com Pedro Lamares, fiquei com vontade de ler tudo o que escreveu: Hei-de levar comigo para Sul e Um Copo de Cólera, que aguardam na minha estante desde 2009. Também tenho uma paixão recente por novelas gráficas, uma espécie de bom vírus que apanhei com o meu irmão. Vou levar ainda Elefantes en el cuarto, da Colombiana Sindy Elefante, e também Carol, de Patricia Highsmith, na tradução de Ana Luísa Amaral. Falta um poeta, é claro: Escolhido pelas Estrelas, de Zbigniew Herbert. Como sou ansiosa e tenho medo que o mundo acabe longe de casa, é natural que leve mais dois ou três livros, just in case.

Filipa Melo: praia = policial

Para a escritora e crítica literária Filipa Melo não há nada melhor para ler na praia do que um excelente policial: "Por isso é tão providencial este ano a recente reedição, na coleção Vampiro, de O Imenso Adeus, de Raymond Chandler, e O Falcão de Malta, de Dashiell Hammett, hardboiled no seu melhor, em formato altamente transportável." Quanto a livros mais pesados, diz, "mais densos, de leitura lenta e exigente, logo, a pedir tardes remansosas na rede, à sombra e dormitando a espaços, segue na bagagem Luz em Agosto, uma viagem até ao condado de Yonapatawpha, onde Faulkner compôs o seu teatrinho trágico - tão humano quanto estilizado. Para as noites quentes, reserva Histórias Curtas, de Rubem Fonseca: "de quem espero a surpresa de sempre, certeira, com o humor brutalista de que mais gosto, como um duche frio num dia tórrido."

Frederico Lourenço: judeus

Há um título que Frederico Lourenço destaca imediatamente: A História dos Judeus, de Simon Schama: "de quem li há vários anos um livro magnífico sobre Rembrandt (Rembrandt"s Eyes), que me fascinou pela escrita que faz brotar páginas deslumbrantes a partir de pequenos detalhes. Mas há outra razão para escolher Schama: "Ler no verão não implica, para mim, rituais diferentes da leitura quotidiana ao longo do ano, pois estou sempre a ler. Raramente o faço para me divertir ou para me distrair e, por isso, mesmo em férias as leituras costumam ser "pesadas" e fruto de alguma necessidade resultante do projeto que, no momento, tiver em mãos. Como a minha vida vai estar dominada, nos próximos anos, por uma nova tradução comentada da Bíblia que, a partir de setembro de 2016, sairá em seis volumes na Quetzal, todas as minhas leituras estão centradas nesse objetivo, pelo que o meu verão estará muito sob o signo dos estudos críticos sobre a Bíblia."

Helena Sacadura Cabral com trio

A economista e autora de grandes sucessos, Helena Sacadura Cabral, aponta três livros de "autores que têm sido meus companheiros de uma vida. Assim, não perco nenhum deles e nunca me desencantaram. Aqui vão: Cinco Esquinas, de Mario Vargas Llosa, Jesusalém, de Mia Couto, e Ouve a Canção do Vento e Fliper, 1973, os inéditos ocidentais de Haruki Murakami."

Inês Pedrosa: prazer e não só

A escritora Inês Pedrosa divide as leituras entre o prazer e a obrigação, mesmo que neste caso o faça com gosto: "Vou levar O Que Os Cegos Estão Sonhando, de Noemi Jaffe, uma estimulante reflexão escrita a partir do diário da sua mãe, sobrevivente dos campos de concentração nazis, como leitura complementar da minha tese de doutoramento em curso, que parte do totalitarismo. Vou também levar a autobiografia de David Lodge, Quite a Good Time To Be Born - A Memoir:1935-1975, porque conduzirei uma conversa com este escritor, que muito admiro, no Festival Internacional de Cultura de Cascais. Aproveitarei também as férias para reler intensivamente os seus livros de ensaio literário e os seus romances - em particular o hilariante O Mundo é Pequeno, análise corrosiva do universo académico."

Irene Flunser Pimentel fixada em história

Começa por esclarecer que as suas férias são "intermitentes". Depois, Irene Flunser Pimentel revela o que vai ler: "Um livro sobre um tema ligado aos meus atuais objetos de estudo, por isso não propriamente considerados literatura de lazer. Trata-se de The Holocaust as History and Warning, de Timothy Snyder, a propósito da singularidade do Holocausto perpetrado pela Alemanha nazi, que, devido ao facto de ter sido único e sem precedentes, nem sempre ter servido a retirar lições para o presente e o futuro. Inicialmente editado em 2015, saiu agora em livro de bolso na Vintage." Outro título é o de um ensaísta alemão de que gosta muito, Hans Magnus Enzensberger: "Lerei a edição espanhola de Tumulto, onde o autor recorda enquanto farsa os anos 60, vividas por ele como tragédia." Para acabar: "Um historiador português, Álvaro Garrido, Uma História da Economia Social, uma construção europeia reformista e utópica, analisada no processo histórico português na era liberal (1934-1910) e durante a Ditadura (1926-1974), num Estado social ausente."

Jaime Rocha e os livros de bolso

Como tem sido hábito, avisa Jaime Rocha, "levo para férias três géneros literários distintos: narrativa, diários/biografias e poesia." Assim, aproveitando a saída recente de Todos os Contos, de Clarice Lispector, diz, "vou dedicar parte do tempo a um dos meus escritores de culto, à autora desse fabuloso Perto do Coração Selvagem, sem desprezar a ajuda do seu biógrafo Benjamin Moser, que fornece a introdução e notas. Prosseguirei com um incompreensivelmente adiado, por culpa talvez dos prioritários Musil, Proust e Broch, e irromperei a valer pela Mitteleuropa e entrarei no Danúbio, do triestino Claudio Magris. A prosa leva sempre à poesia e vou dedicar-me a releituras com Todos os Poemas, de um dos meus poetas, Ruy Belo. Secretamente, escondido na mochila, um livro de bolso. Adoro livros de bolso. Levarei Billy Budd, publicação póstuma e bastante acidentada de um manuscrito de Herman Melville. Embarcarei num navio de guerra inglês, mais de 50 anos antes de o baleeiro Pequod levar Ahab atrás de Moby Dick.

João Luís Barreto Guimarães: muitos livros

O poeta João Luís Barreto Guimarães leva habitualmente para férias dois livros por dia: "Para simular uma pequena biblioteca que responda à disposição do dia: poesia, ensaio, viagens e um pouco de história, filosofia e ficção. Destaco a antologia de poesia grega contemporânea que mandei vir pela Amazon; o último Julian Barnes (gostei muito de O sentido do fim); e o último do Daniel Jonas que é um ótimo poeta, versátil, classicamente contemporâneo."

João Tordo em modo knausgaard

Antes de mais, João Tordo não revela para onde vai de férias. Quanto a livros, não há problemas: Dancing in the Dark, de Karl Ove Knausgaard. "Tenho lido os outros livros dele e identifico-me bastante com a maneira de contar, colocando-se como personagem principal das histórias que nos quer fazer crer verdadeiras. Este quarto volume é um livro sobre a juventude, ideal para ler numa ilha. Eu gosto de ilhas." Seguem-se Mario Benedetti, A Trégua: "Comprei-o na Feira do Livro e estou curiosíssimo, até porque o vou levar comigo numa viagem ao Uruguai - nada melhor do que ler um título de um dos "grandes" desse país."

José Eduardo Agualusa não faz férias mas lê

O escritor José Eduardo Agualusa informa que não faz férias: "Nunca fiz, nem é ideia que me atraia essa de ficar um mês sem escrever. Passarei julho e agosto em Lisboa com os meus filhos - são os melhores meses para estar na capital. Depois, vão-se embora para Brighton e Luanda e eu vou para Moçambique, escrever e namorar. Prometi a mim mesmo que não passaria mais nenhum inverno na Europa." Entre o que quer ler está o novo do Yann Martel, As Altas Montanhas de Portugal e o novo do Vargas Llosa, Cinco Esquinas, "que é um autor desigual". Quanto a Martel: "Estou curioso porque a ação do livro decorre em Portugal. Como se sabe, A Vida de Pi, partia de um conto do Moacyr Scliar. Martel parece ter uma costela lusófona."

José Tolentino de Mendonça: A a z de houellebecq

Diz o poeta José Tolentino Mendonça: "A literatura, precisamente por ter em relação à realidade uma maior distância do que aquela que a escrita jornalística apresenta, consegue auscultá-la na sua trepidação e segredo. O nó do problema é assim melhor iluminado. Por isso, passarei este verão europeu, tão terrivelmente opaco, a ler, de A a Z, os livros de Michel Houellebecq. Interessa-me o que ele vê, mesmo quando me deixa em completo desconforto. Guardo os verões para aproximar-me do universo de um autor, lendo tudo quanto possa. É uma forma de viajar, aprender uma língua, atravessar um território."

Lídia Jorge: Lowry, grass e Horta

A situação da leitura em Lídia Jorge é caótica: "Acumulam-se altas pilhas de livros para ler no Verão. Por onde começar? Sobre a pilha da direita, os mais urgentes, estão três volumes: Rumo ao Mar Branco, de Malcolm Lowry, porque se existe uma versão resgatada do fogo de um livro que era extenso, escrito pelo autor de Debaixo do Vulcão,. Quero ver como sobreviveu esse destroço do acaso, e se os pedaços daquilo que ficou trazem a marca inconfundível desse escritor de experiências extremas. Ter esse livro ficado desaparecido durante setenta anos não deixa de ser intrigante. Comovente, também." Segue-se a Finitude, de Günter Grass: "Tenho curiosidade em saber como o grande escritor se despede do mundo e se prepara para cortar o fio que o ata ao corpo. Quero saber como um grande provocador na Literatura e na vida desafia a morte." Por último, Anunciações, de Maria Teresa Horta: "Porque tenho a certeza de que vou encontrar uma obra imensa, original pelo tema, densa pela forma, iluminadora ao subverter relações e sentimentos."

Manuel Alegre, história e poesia

Para o poeta Manuel Alegre há um trio de livros indispensáveis: "A Conspiração Cellamare, de Nuno Júdice, autor culto, inteligente e com grande sentido de humor. Também quer ler Os Últimos Dias do Rei, de Nuno Galopim, um romance à descoberta de D. Manuel II, cuja vida sempre me impressionou. Foi um exilado, grande bibliófilo, que através dos livros que escolhia mostra o amor a Portugal. Por último, Montaigne, de Stefan Zweig. E mais alguns livros de poesia, que me são inseparáveis."

Margarida Rebelo Pinto e os clássicos

A escritora Margarida Rebelo Pinto não hesita: Terra dos Milagres, de João Felgar: "Depois da surpresa que foi ler O Síndroma de Antuérpia, é o primeiro romance deste autor o que está no topo da minha lista de férias. Há escritores que fazem tudo bem: constroem personagens fascinantes, usam a língua com saber, sabor e mestria, e sabem viajar dentro do tempo ao contar uma historia. A sua escrita prende e encanta, não apetece acabar de ler." De lá de fora, há Ouve a Canção do Vento e Flipper, 1973, o mais recente de Murakami publicado em Portugal. "Pelas mesmas razões que levo João Felgar. Também lerei O Filho do Lobo, de Jack London: não há amor nem escritores como os primeiros. Sempre tive um fraco por americanos clássicos e London foi a primeira paixão, antes de Steinbeck. Quero voltar ao seu universo selvagem e sensível no verão pacato da Comporta", diz.

Maria Filomena Mónica: paixão e amizade

A socióloga e escritora Maria Filomena Mónica avisa: "Não terei férias por questões de saúde. Quero estar sempre perto do meu hospital." Quanto a leituras, são várias: Anita Loos e o seu Gentlemen Prefer Blondes, um clássico do humor; Cartas Amorosas de uma Religiosa Portuguesa, um livro que explica tudo o que há a dizer sobre a paixão. E o 2º volume da tetralogia de Elena Ferrante, cujo título é História do Novo Nome, porque a amizade entre duas miúdas, depois mulheres, me conquistou."

Miguel Manso sem férias mas a ler

O poeta Miguel Manso não conta ter férias, a "tal semana ou duas de litoral ou a viagem a um lugar estrangeiro, pela razão recorrente de não ter aquilo com que se compra... livros." Mas não espera compadecimento: "Não me submeti o ano inteiro a um emprego-emprego, vivo a dois passos de ribeiras e habito uma casa que tem jardim e onde jaz uma rede de descanso. No baloiço dela, à tardinha, terei certamente a companhia de Máscara, Mato e Morte: textos para uma etnografia de São Tomé, de Paulo Valverde (do qual pretendo partir para a criação de um espetáculo de teatro); Pela Índia: aspetos e impressões, de Adriano de Sá (um texto de viagem do final do séc. XIX, editado em 1927, que gostaria de ver reeditado); também Víveres, o recente livro do poeta Miguel Cardoso.

Miguel Real e a leitura na grécia

O ensaísta, romancista e investigador Miguel Real levará consigo para a Grécia três livros: "O romance Ouro Negro, de Sérgio Luís de Carvalho, porventura o melhor romance histórico publicado este ano e a mais perfeita representação literária de Lisboa do século XVIII desde a publicação de Memorial do Convento". Segue-se o ensaio Marginalidade e Alternativa. Vinte e Seis Filósofas para o Século XXI, coordenação de Maria Luísa Ribeiro Ferreira e Fernanda Henriques: "Espantosa descoberta de "uma filosofia no feminino". Só lamento que se insira um capítulo sobre Maria de Lourdes Pintasilgo (um pouco forçado) e não conste o pensamento de Maria Filomena Molder"; Não faltará "a "obra Incompleta" do poeta Vergílio Alberto Vieira, Todo o Trabalho Toda a Pena, compilação da quase totalidade da sua poesia publicada desde 1980."

Miguel Sousa Tavares em russo

O escritor e comentador político Miguel Sousa Tavares já está de férias e na bagagem levou vários livros. Não com o propósito especial de ser a leitura de férias mas porque era os que estava a ler. Nas releituras que decidiu fazer, o principal título é Anna Karénina, de Tolstói, que está quase a terminar: "A seguir, vou ficar com o bichinho dos russos e irei para Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov." Em seguida, chega a hora de um romance que anda para começar há uns tempos, mas para o qual só agora chega a vez: "É o Pai Nosso, de Clara Ferreira Alves."As suas leituras não têm uma ordem específica, avisa: "Não existe uma razão. Acabo um e começo outros. Depois de ler o Bulgakov, vai apetecer-me o Chekov, porque quando entro nos russos já não saio de lá facilmente." Os livros que levou não são especiais para as férias: "Era o que estava a ler quando vim. Não há um livro especial, pois não divido leitura de férias com a de inverno." Não nega que leia mais rápido em férias: "Aqui, leio Anna Karénina mais depressa porque tenho mais tempo livre para lhe dedicar."

Patrícia Reis, ler por obrigação

A escritora Patrícia Reis vai passar o verão dedicada a Arturo Pérez-Reverte, que considera um dos mais aclamados escritores espanhóis: "Vou entrevistá-lo no FIC, por isso serão releituras a servir de preparação para o Festival e, ao mesmo tempo, momentos de prazer, porque é um escritor que sigo há muitos anos. Recomendo vivamente A Tábua de Flandres e Pintor de Batalhas. Entretanto, a meio deste "trabalho de casa", lerei o policial Fechada para o Inverno, de Jorn Lier Horst."

Richard Zimler de mochila

"Vou levar comigo só dois livros para férias porque terei apenas uma mochila. Nunca ponho nada no porão do avião, daí que vá comprar mais livros nos EUA com toda a certeza", é o que diz Richard Zimler. Os livros escolhidos para férias são: Mentored By a Madman, de A.J. Lees, e East End Chronicles, de Ed Glinert. Quanto às razões para escolher cada livro, explica: Mentored porque é uma prenda de uma grande amiga minha, a escritora inglesa Judith Ravenscroft. Ela tem doença de Parkinson e o livro é escrito por uma investigador que foi à Amazónia em busca de uma cura para a doença; o East End Chronicles, porque o essa parte de Londres fascina-me. Era a zona mais pobre, cheia de imigrantes, incluindo milhares de judeus da Europa de Leste no século XIX. Interessa-me muito a vida quotidiana em diferentes épocas."

Rui Zink prefere em português

Para Rui Zink, o verão é sempre bom para espreguiçar e voltar aos mestres da língua: "De Agustina conto reler Crónica do Cruzado Osb, que não estou seguro de ter entendido bem há 30 anos. Vou voltar uma vez mais a Alexandra Alpha, o último grande projeto de Cardoso Pires. A mim pareceu-me catedral incompleta, mas a Inês Pedrosa insiste que acertei ao lado, e suspeito que terá razão. Estou também curioso de ver se, em Eu sou a Árvore, o jovem Possidónio Cachapa consegue reencontrar o brilho das primeiras 50 páginas do já clássico Materna Doçura."

Valério Romão opta pela poesia

"Vou levar o mais recente livro do Miguel Cardoso, o Víveres. O Miguel é um dos nossos mais talentosos poetas e neste livro arrisca a falar de um tema provavelmente mais reivindicado pela prosa e pelo ensaio: a crise e o seus múltiplos efeitos na nossa vida. É um tema particularmente difícil de ser tratado pela poesia - pode-se facilmente ser sério demais, não ter seriedade suficiente, pode-se facilmente falhar com espalhafato -, pelo que tenho imensa curiosidade de ver como o Miguel o desformalizou em verso." É esta a justificação para uma primeira escolha. Segue-se outra: "Vou igualmente levar o Auto-retratos, do Paulo José Miranda. É um poeta de uma sensibilidade e de uma - aparente - simplicidade extraordinárias. É uma espécie de declinação dos Exercícios de Humano, em cujo tratamento da realidade é mais pragmático e rente ao chão. É desse chão que Paulo faz zoom out para revelar os traços do humano que somos."

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Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.