Mais ou menos chiques mas não existem famílias perfeitas

Diogo Infante encena e interpreta "O Deus da Carnificina", de Yasmina Reza, um espetáculo sobre a importância das aparências e o que acontece quando deixamos cair as máscaras.

O tom é cerimonioso. Dois casais, de classe média com pretensão a média-alta, bem vestidos, educados, encontram-se na casa de um deles para falarem sobre uma discussão que houve entre os filhos de 11 anos. Duarte chamou bufo a Bernardo, então, "armado com um pau" (ou será "munido de um pau"?), Bernardo bateu em Duarte. Na cara. E partiu-lhe dois dentes. Os pais estão preocupados. É preciso que as crianças percebam que não podem ser violentas. É preciso que Bernardo peça desculpas. É preciso que percebam as consequências dos seus atos. Todos concordam. Todos querem o melhor para os filhos. Todos querem ser os melhores pais. Mas à medida que a conversa avança, acompanhada por tarte de pera e maçã, a boa educação vai, aos poucos, dando lugar ao sarcasmo e até ao insulto. Assim como o café dá lugar ao bourbon.

Essa é a ideia que atravessa O Deus da Carnificina, o espetáculo encenado por Diogo Infante que se estreia hoje no Teatro da Trindade, em Lisboa: "A natureza humana está escamoteada por mil filtros, máscaras, sociais e de comportamento, muitas vezes tentamos projetar uma coisa que não somos", diz o encenador. "Mas, em determinados contextos, tudo isto cai por terra. E não há melhor pretexto para nos revelarmos do que quando sentimos a integridade dos nossos filhos atacada."

O projeto para fazer este espetáculo é anterior ao facto de Diogo Infante ter assumido a direção artística do Teatro da Trindade. Tudo começou, explica, por uma vontade deste grupo de atores de trabalharem juntos. Os atores são o próprio Diogo Infante, Rita Salema, Patrícia Tavares e Jorge Mourato. "Fomos à procura de textos que nos servissem enquanto intérpretes. Esta foi imediatamente uma das peças que me assaltou, sobretudo pela qualidade do texto e a sua atualidade. Os bons textos merecem ser revisitados", diz.

O texto original é de Yasmina Reza, dramaturga francesa que entre nós é conhecida pela peça Arte (encenada por António Feio em 1998). Com o título O Deus da Matança, esta peça estreou-se em 2009 no Teatro Aberto, numa encenação de João Lourenço, com os atores Joana Seixas, Paulo Pires, Sérgio Praia e Sofia de Portugal. E deu depois origem a Carnage, o excelente filme de Roman Polanski, de 2011, com Jodie Foster, Christopher Waltz, Kate Winslet e John C. Reilly.

"Achámos que este era um bom momento para revisitar este texto. Isto é sobretudo um exercício a quatro mãos, é uma belíssima oportunidade para os atores poderem brincar de uma forma séria com temas que são delicados, complexos, brutais e também divertidos porque desconcertantes", diz Diogo Infante, que assina também a tradução. A versão final foi ajustada já nos ensaios, com a colaboração dos atores. "O que fez que nos apropriássemos do texto", explica. "Era muito importante a fluidez. A Yasmina tem uma coisa que me agrada muito: os ritmos, os jogos rítmicos das frases, os crescendos, os arcos, temos de respeitar tudo isso. Ela é muito teatreira no bom sentido, escolhe muito bem as palavras, até as asneiras são intencionais, elas têm um peso naquele sítio e nós não tivemos qualquer tipo de prurido em usá-las porque elas faziam falta ali. A violência verbal também é uma forma de brutalidade."

Em palco estão dois casais lisboetas. Alberto e Benardete Cardoso Meneses (Rita Salema e Diogo Infante) são, aparentemente, mais ricos. Ele é advogado, ela trabalha em gestão de fortunas, são aquilo que o encenador chama "burgueses". Mónica e Miguel são mais "esquerda caviar". Ele tem uma loja de artigos para a casa, ela é dona de casa e escritora, interessada por África e pelas questões sociais. "Tínhamos de fazer essa distinção porque ela é comum e também implica uma sombranceria que a mim me enerva profundamente - e eu conheço alguns homens como este que interpreto", comenta Diogo Infante. "Há uma maneira de falar, um ar snob, e depois no fundo são uns brutos, são uns broncos como os demais."

O que se percebe, à medida que a conversa se desenrola, que as palavras se soltam e que aquelas pessoas vão perdendo a compostura, é que não há famílias perfeitas. "Tal como em muitos casais de meia-idade, há um cansaço, um desgaste natural das relações. E onde os miúdos são muitas vezes o motivo da discórdia. O discurso de Miguel sobre o casamento e o facto de as crianças serem o grande flagelo coincide de facto com o que muita gente pensa. É cruel, é duro, mas é verdade, há pessoas que dizem isso."

O tom inicial é cerimonioso. Mas isso muda. São muitos os tons desta peça e esse foi o maior desafio para os intérpretes. "Fiz muita questão que nós nunca descambássemos nem numa comédia fácil nem para um drama sério, aquilo que eu acho que é apetecível neste texto é navegar por estas águas agridoces, esta comédia trágica em que nós estamos sempre num limite. Para um ator é fantástico", diz Diogo Infante. "Gosto dessa imprevisibilidade e de poder ir tirando o tapete, aos intérpretes e aos espectadores. Estamos a dar piscadelas de olho ao público e quando eles pensam que se podem rir, afinal já não podem."

Informação útil:
O Deus da Carnificina
De Yasmina Reza
Teatro da Trindade, Lisboa
Até 29 de abril
Bilhetes: entre os 12 e os 18

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG