Urban Sketchers. As férias em desenhos com voz, cheiro e humor

Há quem opte por desenhar as férias para mais tarde recordar todas as memórias. Os Urban Sketchers não saem de casa sem caderno, lápis e canetas

"Quero contar histórias com os meus desenhos" diz Rita Sabler. Não é por isso de estranhar a profusão de detalhes de cada retângulo desenhado por esta designer gráfica e ilustradora. Tudo depende, claro, do sítio, de quem está, do seu olhar naquele dia. São registos únicos que guarda em cadernos que preenche, um após o outro - não sai de casa sem eles.

Tal como esta meia russa meio americana de traço falador, são muitos os que preferem o desenho às fotografias das férias. Os Urban Sketchers, uma comunidade de 80 mil em todo mundo, cerca de 500 em Portugal, são aquelas mulheres e homens que se demoram em qualquer lado a desenhar, tirando da mala canetas, lápis ou aguarelas com que vão dando vida a folhas em branco. Fazem-no em qualquer altura, mas as férias são uma época especial e até há quem escolha o destino só para desenhar.

Rita Sabler tenta em qualquer altura do ano "fazer tempo" para desenhar. Mas quando se trata de férias, "viajar e sair da rotina é tão estimulante visualmente que é uma pena perdê-lo." Por isso em viagens que faz especificamente para desenhar, pesquisa muito antes da partida: "para ter uma boa ideia do que faz este lugar especial, o que o caracteriza. Que histórias poderão ser contadas em desenhos?"

Muitas, a avaliar pelos desenhos que se alinham no seu blogue, como coelhos a sair da cartola. Escolheu enviar ao DN uma série do Grand Canale, em Veneza, outra da celebração do deus hindu Garuda no templo Sri Krishnam, em Singapura.

"Como tenho desenhado mais nos últimos oito anos, as minhas fotografias diminuíram em proporção. Noto que quando vemos algo bonito, fora do vulgar, interessante, há um reflexo natural de pegar na máquina fotográfica apesar das fotografias muitas vezes falharem a captura dessa experiência e da emoção vivida naquele momento. Também reparei que quase nunca vejo as minhas fotos antigas mas adoro revisitar os meus cadernos de desenhos antigos e eles trazem-me sempre o momento que é capturado." Rita está atualmente a preparar um livro sobre desenhos de viagem,The Art and Habit of Travel Sketching.

Espreitemos agora os cadernos da australiana Liz Steel. Bem, uma ínfima parte dos 50 diários gráficos de viagem que juntou nos últimos dez anos (tem 150 cadernos desenhados no total, diz). As férias é quando se "desenvolve mais como artista" - ela que dá workshops de diário gráfico e é autora e coautora de vários livros. É nestas alturas que tem tempo e é capaz de estar um dia inteiro a desenhar, non-stop. Anda sempre com o material de desenho mas em tempo de lazer, leva um caderno maior - Moleskine A4 com papel de aguarela em formato paisagem. Não escolhe os destinos para desenhar. "Viajo pelas pessoas que quero visitar. Isto significa que tenho uma enorme variedade de coisas para desenhar. Se ficasse por minha conta, escolhia sempre sítios com muitos edifícios barrocos e /ou culturas adeptas de chá". Liz, que já correu mundo, não deixa de ser turista na sua cidade, Sidney. Já desenhou vezes sem conta a ponte e a Ópera. "E não tenho de viajar para os desenhar!", diz.

Aqui e agora

Para Arnaud de Meyer o mais importante nas férias é "passar tempo suficiente em cada local onde vamos para realmente o compreender". Este arquiteto belga a viver no Luxemburgo continua a fotografar, até porque é incapaz de fazer registos rápidos no desenho. Além disso gosta de guardar fotos de texturas, padrões, cores que o possam inspirar no futuro.

"Não faço desenhos furtivos. Só desenho quando tenho a certeza de ter pelo menos 15 a 30 minutos para estar num local e capturar todo o ambiente." Tal como Rita, Arnaud quer regressar aos cadernos e sentir aquilo que viveu na altura - "os cheiros, o que ouvi, as conversas que tivemos, etc". É que, explica, "quando desenhas tens de estar muito mais atento às coisas. Há quem faça yoga, desporto ou meditação, eu desenho. Num mundo cada vez mais ligado e virtual, é a minha forma de estar aqui e agora." Arquiteto, habituado a "desenhar coisas que ainda não existem", dinamiza no Luxemburgo o grupo dos Urban Sketchers que faz duas vezes por mês encontros em "condições de férias", com tempo para desenhar.

Mais novata nestas andanças (começou há cerca de um ano), Bindi Nasasira, do Uganda, também se demora nos desenhos. Muitos pormenores, que muitas vezes a impedem de concluir os desenhos no local. Por isso fotografa, para os acabar depois.

Tiago Cruz gosta especialmente de desenhar a praia em Ofir, onde mora, e as pessoas que por lá passam. Quando viaja, o diário gráfico e o material de desenho não ficam para trás("desde que isso esteja lá, está tudo bem"). Não escolhe destinos para desenhar e considera que "há coisas que são para ser fotografadas" - como nuances de cor e texturas. Mandou ao DN desenhos de viagens à Turquia, Galiza e Veneza. Nem sempre termina os desenhos no local, pode dar-lhes cor mais tarde. "Percebo que as pessoas vejam o "in situ" do desenho [desenhar no local] como algo que lhe acrescenta valor... acontece o mesmo com o "em directo" das notícias, por exemplo", refere.

Do outro lado do mundo, Murray Dewhurst desenha os sítios e fotografa a família. Tal como Tiago, a praia - no caso dele, Pataua, a norte de Auckland, na Nova Zelândia - é um local de eleição. "Vamos todos os verões e há sempre algo novo para desenhar". Gostava de voltar a Évora, onde esteve há muitos anos. Mas não faz questão de ir longe para preencher os cadernos A6 Moleskine que lhe cabem nos bolsos. "Pode parecer um pouco estranho mas tento pensar nos meus desenhos sempre da mesma forma. Mesmo quando faço um intervalo de meia hora no trabalho em frente ao computador para desenhar, considero-o umas pequenas férias de uma forma estranha. Dá-me a sensação de ter guardado um momento do dia para mim."

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