"Os artistas têm de ser mais implicados, não podem ser 'só' artistas"

O ator assumiu a direção artística do Teatro da Trindade, em Lisboa, em novembro do ano passado, depois de Inês de Medeiros, que tinha estado um ano nessa função, ter ganho a presidência da Câmara de Almada.

Ainda em fase de transição, apresenta em junho a primeira temporada com a sua assinatura, mas estreia já a 1 de março o espetáculo O Deus da Carnificina.

Como é que chegou este convite para o da Teatro da Trindade? Estava à espera?

À espera não estava porque para ser franco ninguém pensou que a Inês [de Medeiros] iria ganhar Almada. Quando isso se concretizou, ela, pelo amor que entretanto tinha desenvolvido pelo teatro, quis garantir que a direção seria assegurada por alguém não só em quem ela confiasse mas cuja visão desse de alguma forma continuidade ao projeto que tinha sonhado para o Trindade. E sondou-me para saber se eu estaria disponível. Por esta altura já me tinha ocorrido que voltar a dirigir artisticamente um teatro não era um cenário que eu pusesse de parte, desde que estivessem reunidas as condições mínimas para o fazer. E foi isso que aconteceu.

Depois das experiências do Maria Matos e do D. Maria II, percebeu que gosta de programar?

Eu gosto de projetar, de ter ideias. Não foi por acaso que comecei muito cedo a encenar. Senti que controlar os processos criativos era uma forma de conquistar um espaço de intervenção e afirmar uma voz, uma identidade, fosse ela qual fosse - ainda hoje continuo à procura. Quando surgiu o primeiro desafio, do Maria Matos, fiquei muito surpreendido porque era algo completamente novo, mas era quase natural. Gosto de pensar nas coisas para além de mim, de criar plataformas para que o talento se manifeste. E essa possibilidade de efetivamente dar um contributo era algo muito atrativo. Acho que na classe artística, e teatral em particular, temos muitas opiniões, mas depois na hora de nos chegarmos à frente as pessoas cortam-se. Lembro-me de na altura pensar: o que tenho a perder? Depois no Nacional, já tinha, apesar de tudo, três anos de experiência de direção e foi só uma questão de escala.

Quando surgiu o primeiro desafio, do Maria Matos, fiquei muito surpreendido porque era algo completamente novo, mas era quase natural

E agora o Trindade. É uma grande mudança?

O Trindade surge como uma oportunidade de utilizar toda essa experiência que fui acumulando, todo esse crescimento pessoal e profissional, e a verdade é que me sinto estranhamente em casa, apesar de não ter representado muitas vezes aqui. A equipa é fantástica e é de uma dimensão que é possível saber os nomes das pessoas.

Qual é a marca deste teatro?

Quando o olho de fora, o Trindade é um teatro popular, eclético. Nos últimos anos, pautou-se por ser sobretudo uma casa de acolhimento, muito por falta de um orçamento que lhe permitisse fazer produção. É evidente que o teatro pertence ao Inatel, que faz muito uso deste espaço. O desafio, com a minha entrada, passa por subverter tudo isso. Aquilo a que me propus foi: vamos criar uma identidade. Já que sou eu que estou aqui e sou uma pessoa com uma carga (boa ou má, é a minha), vamos personalizar o projeto. E isso passa, por um lado, por manter esta linha popular no bom sentido (porque às vezes tem uma conotação pejorativa) e por ter grandes correntes de público; mas, ao contrário do que tem sido a dinâmica, em vez de termos muita variedade, quero ter menos coisas mas durante mais tempo em cena.

Essa questão das carreiras curtas e longas tem sido muito debatida. É essencial para si?

Quero que a atividade teatral seja a espinha dorsal, o eixo principal do teatro, com três ou quatro produções por temporada, produções ambiciosas, porque gostava que estivessem mais tempo em cena. E como é evidente, para o fazer eu preciso de contar essencialmente com duas coisas: grandes textos e grandes artistas (atores, encenadores e outros) que me deem garantia de qualidade e que possam produzir no público uma curiosidade natural para virem aqui. Isto tudo é também, do ponto de vista da gestão, a forma que encontrei para maximizar os recursos que tenho disponíveis, quer os técnicos quer os humanos, mas sobretudo os financeiros, que são parcos. Este é claramente o projeto em que estou envolvido com menos dinheiro.

O orçamento é de 350 mil euros, como tinha Inês de Medeiros?

O orçamento basicamente mantém-se o mesmo e é preciso fazer uma gestão minuciosa. Ambiciono angariar mais investimento privado - já lancei o desafio a algumas empresas e aguardo respostas. Aqui também tenho a possibilidade de fazer uma coisa que não podia fazer no Nacional: usar a bilheteira como fonte de rendimento para a coprodução. Isso obriga as pessoas a responsabilizarem-se. A ideia não é virem aqui fazer uma palhaçada para vir mais gente, não é isso. Quero é que as pessoas se envolvam na comunicação, nos resultados, em todas as vertentes que dão visibilidade e dignidade a um espetáculo. Os artistas têm de ser mais implicados. Não podem ser "só" artistas, não pode ser só "vou criar e pensar no meu canto, para o meu umbigo". Isto também é uma empresa e também estamos a gerir dinheiros públicos. Temos de ser responsáveis.

Aquilo a que me propus [no Trindade] foi: vamos criar uma identidade

E isso quer dizer que vamos ter que tipo de programação?

O tipo de teatro que gostaria de fazer aqui, que no fundo é o teatro que gosto de ver, é um teatro que, curiosamente, não há muito: de histórias, de narrativas, de grande público mas de qualidade, entenda-se. Eu, inevitavelmente, vou aos textos e é lá que vou sustentar muitas das opções que vou fazer para a próxima temporada. Isto não significa que não haverá outro tipo de produções, sobretudo mais concentradas no período do verão e também na sala estúdio.

E começamos já com O Deus da Carnificina, com Diogo Infante diretor, encenador e ator.

É um bocadinho o paradigma do que gostaria de vir a fazer, é verdade. O que é curioso é que este espetáculo já estava previsto. Mas acaba por ser uma forma de eu me usar como ator num projeto que estou a tentar desenvolver. Está a sair-me do pelo, porque estou muito cansado, mas faço-o com muito amor.

Usa muito a sua imagem para promover os projetos em que está a trabalhar.

É inevitável. Ao princípio sentia algum pudor. Mas depois pensei: eu não posso excluir-me disto. É também por isso que me escolhem. Portanto, seria estranho assumir exclusivamente o papel de alguém que está atrás da secretária quando eu sou um artista e é essa mais-valia que posso trazer. Eu como programador penso: preciso deste ator.

E seria capaz de deixar de representar e ficar só atrás da secretária?

Acho que não. Tenho muitos subtítulos - sou Diogo Infante, ator, encenador, programador, agora realizador -, mas aquilo que sou mesmo é ator, é o que me define. Depois sou um ator que gosta de fazer muitas outras coisas. Circunstancialmente, posso estar um período sem representar, já aconteceu. Mas ficaria muito triste se estivesse muito tempo sem representar, acho que começava a murchar.

Carmen é um projeto de muito amor e respeito, porque acho que a Carmen [Dolores] merece

Nesta programação até julho já há coisas suas?

Claro. Aquela que de alguma forma representa uma marca é o Carmen. Surgiu porque li de um fôlego o último livro da Carmen Dolores, Vozes Dentro de Mim, que é biográfico, e achei que se podia fazer dali um espetáculo. Ela aceitou, apresentei-lhe uma proposta e depois corrigimos o texto em conjunto. E foi ela que escolheu a Natália Luiza para a interpretar. Este é um projeto de muito amor e respeito, porque acho que a Carmen merece.

Já tem, portanto, a programação mais ou menos alinhavada...

Quando aqui cheguei estávamos na semana em que terminavam as candidaturas aos apoios [da DG-Artes], por isso tivemos de ser rápidos a lançar e a aceitar reptos. Mas isso permitiu-me ter a programação da sala grande já comprometida até ao final de 2019. Agora estou a trabalhar na programação da sala estúdio, na captação de investimento e em algumas pequenas coisas que queremos reformular - por exemplo, vamos baixar o horário para as 21.00. Mas não vou fazer grandes mudanças.

Conhece bem o Teatro Maria Matos. O que pensa da decisão da vereadora da Cultura de privatizar a sua gestão?

Penso que a câmara tem toda a legitimidade para o fazer. É preciso reconhecer que o projeto que ocupou o Maria Matos por quase dez anos, de Mark Deputter, era muitíssimo interessante, mas era desadequado àquele espaço. E isto era uma coisa que se sabia no meio mas sobre a qual havia uma espécie de um silêncio. Transferir aquele projeto para um espaço polivalente, a uma escala e a uma dimensão adequadas, parece-me inteligente. Mas é evidente que a câmara não se pode demitir das suas responsabilidades, aquele é um equipamento demasiadamente importante, foi feito ali um enorme investimento. Tem de se ter muita cautela com o que vai acontecer no Maria Matos. Se assim for, esta pode vir a ser uma boa solução.

É preciso reconhecer que o projeto que ocupou o Maria Matos por quase dez anos,de Mark Deputter, era muitíssimo interessante, mas era desadequado àquele espaço

Acabou de realizar um filme. Como é que isso aconteceu?

Era um sonho antigo. Comecei a desenvolver o argumento para uma longa-metragem, com o guionista João Matos, e apresentei o projeto ao Tino Navarro. Entretanto ele propôs-me fazer uma curta. E foi assim que surgiu esta Olga Drummond. Tenho um enorme respeito e carinho pelas pessoas mais velhas, em particular os atores. Aprendo muito com eles e adoro ouvir as histórias que têm para contar. Apeteceu-me escrever uma história sobre eles.

É uma ficção?

Sim, passa-se num retiro de atores, num palacete lindíssimo no meio do campo. Um dia anunciam que vai chegar ali a maior atriz portuguesa de todos os tempos, o que provoca uma enorme comoção, nos funcionários e nas outras atrizes que lá estão, e através delas vamos tendo o retrato do que terá sido a vida e a carreira desta Olga Drummond.

Filmou com Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho, Manuela Maria, Lurdes Norberto...

Foram três dias fantásticos. Foi tão intenso. Foi das coisas mais bonitas que fiz na vida. A comunhão que sentimos na Casa da Ínsua foi incrível. Uma coisa que às vezes me entristece no cinema português é que parece que os realizadores não gostam dos atores, os atores ficam nublados. Não quis isso.

E gostou de realizar?

Adorei. Encenar também é realizar. Adoro contar histórias. Há tantas maneiras de contar uma história e tenho de escolher um ponto de vista, é o mais importante. E como é evidente quero mais.

Portanto, a seguir fará a longa-metragem?

Sim, sim, estou só à espera que os concursos abram. Posso candidatar-me ao apoio às primeiras obras.

E continua a fazer televisão.

Tinha este compromisso com a TVI. Tenho um plano semanal de gravações e tudo o resto é feito à volta disso. Vai ser um período duro até maio, mas depois poderei respirar e desfrutar mais do Trindade. O truque é o prazer que saco das coisas. Às vezes tenho pouco tempo e ando a correr de um lado para o outro. Mas quando saio de um sítio para ir para outro vou entusiasmado com o que vai acontecer, acho que é isso que me caracteriza, desde que comecei há 30 anos.

E daqui para a frente?

Quero fazer mais, quero fazer diferente. Não sou de me instalar. Quando uma coisa está feita eu quero fazer outra. Com a idade, passamos a ter oportunidade de fazer outro tipo de papéis, a experiência e a técnica abrem-nos novos horizontes. Estou muito curioso sobre o que aí vem.

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