Jack White. A paixão nem sempre salva a música

Ex-vocalista dos White Stripes dispara em várias direções no terceiro álbum em nome próprio, na procura de um som que seja seu. O resultado final é muito desequilibrado

Ao terceiro álbum em nome próprio, Jack White dispara em várias direções, procura um som que seja seu, e deixa o ouvinte à procura do que significa este Boarding House Reach. "Hear me out, it ain't easy but I'll try to explain", canta-nos ele em Ice Station Zebra. "Como artista, o teu trabalho não é seguir o caminho mais fácil", defende-se o americano. Já percebemos.

Este texto também se podia escrever com as palavras que acompanham as 13 canções do álbum, já nas lojas. Jack deixa nestes 44 minutos pistas sobre o processo de criação e sobre a sua aprendizagem. "When I was young/ I went to an abandoned house/ In one of the rooms/ I found an old piano/ I didn't know how to play piano/ So I just fumbled across the keys/ Pressed the pedals down/ I sat there for hours/ Trying to understand how to/ Construct a melody", conta-nos ele em Get In The Mind Shaft. Na versão vinil, este poema altera-se para um passeio à beira-rio, em que "I've been walking down by the river/ For hours/ Past sailors, that house/ Less tattoos than the average teenager".

É um jogo que nos leva a recuperar outra das suas declarações ao jornal britânico The Guardian, em março, no qual confessa que se estivéssemos em 1999 e lhe perguntassem o que pensava da música digital, teria de dizer: "É o que todos os outros estão a fazer? Então eu não gosto. Se o mundo evoluísse para o analógico, então eu adoraria o digital." É do contra, e é aqui que se defende. "Como artista, o teu trabalho não é seguir o caminho mais fácil. Eu quero manter-me ligado quando ouço um artista a falar: eu quero mostrar-lhes algo que mais ninguém está a fazer."

Entre o rock que nos leva aos seus White Stripes, um inesperado rap em Ice Station Zebra, toques de country a assomarem em What"s done is done, aqui e ali sons que nos transportam para a banda sonora de um filme blaxploitation, talvez realizado por Tarantino, Jack White não nos está a mostrar algo que ninguém está a fazer, mas que ele próprio ainda não tinha feito.

Basta ouvir o registo também declamado de Abulia and Akrasia, objeto estranho em que um homem em negação pede gentilmente mais uma chávena de chá. "But I do it so gently/ That you cannot resent me/ For this humble request of my company/ So with time left permitting/ And while we're still sitting/ May I please have another cup of tea?". E tudo isto antes de se atirar ao roubo de um banco em Hypermisophoniac, onde "Every sound I hear/ Is louder than the last/ Sounds like a dynamite blast/ When you flick your teeth/ I need a relief".

Editado pela Third Man, a editora de White, Boarding House Reach dispara sobre um mundo onde gente como Trump não usa o seu próprio dinheiro, usa o dos outros. "Ele é uma piada constante", atirou o músico ao Guardian. "Se ele tiver perdas ou abrir bancarrota, nada o vai afetar."

Jack queixa-se ainda em Ice Station Zebra deste mundo onde tudo "gets labeled and named/ A box, a rough definition, unavoidable/ Who picked the label doesn't want to be responsible/ Truth, you're the warden, here's the keys to the prison/ You create your own box, you don't have to listen/ To any of the label makers, printing your obituary".

White recusa ser classificado de forma fácil. O que está feito, está feito, avisa-nos, mas o remate entre a ironia e a magia de Humoresque, não esconde o desequilíbrio do novo álbum de Jack. "Over the air, you gently float/ Into my soul, you strike a note/ Of passion with your melody." Nem sempre a paixão salva a música.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.