"Afonso de Albuquerque só não atacou Meca por faltar vento e cavalos"

Entrevista ao historiador José Manuel Garcia, que acaba de publicar O Terrível - A Grande Biografia de Afonso de Albuquerque (A Esfera dos Livros)

Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães... a lista de grandes navegadores portugueses é vasta, mas conquistadores, como os espanhóis Hernán Cortés e Francisco Pizarro, só tivemos Afonso de Albuquerque. O historiador José Manuel Garcia, que publicou agora a biografia daquele a quem Camões chamou O Terrível, conta como até a sagrada Meca esteve nos planos do genial militar português, que, afinal, também era mestre na arte de navegar

Afonso de Albuquerque era sobretudo um conquistador ou era também um navegador?

Ele caracteriza-se como conquistador. Fundamentalmente foi o que ele foi, o maior conquistador português de todos os tempos. Foi também um descobridor e um grande navegador. Em 1506, é ele que pilota a sua própria nau quando vai pela segunda vez de Lisboa para a Índia. Afonso de Albuquerque considerava-se um grande especialista na navegação e foi o primeiro a fazer a exploração do mar Vermelho para os portugueses. Ficou para a história não tanto como esse grande navegador mas sim como o homem que conquistou para Portugal Ormuz, Goa e Malaca.

Antes da aventura na Índia, teve a formação clássica de ir para Marrocos combater os mouros. É aí que ele ganha a pujança de soldado, não é?

Sem dúvida. A primeira parte da sua formação é em Arzila. Vai duas vezes para lá, combate os mouros de Marrocos em Arzila e é aí que ganha a experiência de combate e de luta contra os muçulmanos. Depois há de continuar para o Oriente, ele que era um homem profundamente católico, cruzado, que quer combater os muçulmanos onde eles estiverem.

No Oriente, dá-se essa luta sistemática até contra grandes potências muçulmanas, como os mamelucos do Cairo e depois o Império Otomano. E há o episódio do quase ataque a Meca...

Afonso de Albuquerque quando vai em 1513 para o mar Vermelho, e quer dominar o ponto estratégico que é a passagem do Índico para o Mediterrâneo, é obrigado a ficar na ilha de Camarão porque não pode avançar para Jidá, que era o porto de onde se tinha acesso a Meca. Depois das ameaças mamelucas de destruir as relíquias cristãs em Jerusalém, o grande objetivo dele era destruir Meca, porque achava que estava lá o túmulo do profeta Maomé e queria acabar com o domínio islâmico na península da Arábia. Mas por um lado não teve o vento e por outro talvez não tivesse ainda os cavalos que necessitava para a incursão que tinha planeado com 500 cavaleiros. Ele ia estudar a forma de dominar Jidá e numa segunda fase avançar para Meca.

Goa, Malaca e Ormuz são as conquistas que dão o domínio aos portugueses do Índico e consolidam o Estado da Índia, que dura um século como grande potência. É possível comparar o império marítimo de Albuquerque com o poder naval que a América hoje têm?

Penso que Portugal chegou a dominar mais o Índico, os americanos farão um domínio mais indireto. Na altura, Albuquerque conseguiu um domínio efetivo, a chamada talassocracia. Era isso que ele pretendia, e conseguiu porque o poder marítimo português era grande e a construção de fortalezas eficiente.

Albuquerque era mesmo implacável?

Sim, ele ficou conhecido como O Terrível, como o livro se chama, em honra da referência de que Camões fala. Ele era de facto implacável e foi terrível porque atemorizava para assim conseguir a paz. Ele tinha poucos meios, poucas pessoas e pouco dinheiro, então tinha de rentabilizar as ações através de incutir o medo para que não fosse atacado e conseguir que os seus inimigos fossem derrotados. Graças à superioridade da artilharia e dos navios portugueses e à sua grande capacidade de força e vontade, juntamente com uma tecnologia e uma técnica de combate das mais modernas tendências europeias, conseguiu impor um poderio sobre inimigos muito mais numerosos mas tecnicamente não tão eficientes.

Tinha inimigos também na Corte, mas D. Manuel percebe que este homem lhe traz não só prestígio como fortuna?

O rei D. Manuel sonhava ser um imperador do mundo e teve em Afonso de Albuquerque o principal executante dessa política. Mas na Corte havia quem defendesse mais uma teoria mercantilista e não de domínio político e imperial. Além disso, havia na Índia indivíduos que tinham interesses próprios e que Afonso de Albuquerque, em nome do rei, numa política estatal, contrariava. Não gostavam dele, eram inimigos e conspiravam contra ele na Corte, e os amigos que ele tinha lá como Duarte Galvão, o próprio rei e a rainha, que era uma grande apoiante, não conseguiram no fim da vida de Afonso de Albuquerque travar a sua substituição.

Se tivéssemos de dizer o grande triunvirato português da Índia seria Vasco da Gama, D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque?

Sim, com Vasco da Gama como iniciador de um processo, que é o descobrimento do caminho marítimo para a Índia e que inicia toda a mudança de relação entre o Ocidente e o Oriente.

Albuquerque nunca se casou, tem um filho em Alhandra com uma mulher que nunca viveu com ele. Também descobriu no seu livro que haveria uma filha nascida no Oriente...

Sim, é um aspeto curioso. Penso que ele era muito obstinado no serviço do rei, queria fazer grandes feitos e nunca decidiu casar-se, embora como cavaleiro da Ordem de Santiago estivesse autorizado a casar-se. A verdade é que teve um filho bastardo de uma senhora de que não há referências, mas antes de partir para a Índia em 1506 esse filho foi legitimado e depois houve o testamento em que lhe dava todos os seus bens. Na Índia, penso eu, também teve uma filha bastarda de uma escrava chamada Leonor, e essa filha, ou como ele dizia, afilhada, chamava-se Ximena. Ele protegeu muito essa menina, que foi enviada no fim da vida dele para Lisboa, para depois ser casada em Portugal com grande dote e joias e toda a proteção da duquesa de Bragança.

Afonso de Albuquerque promoveu muito o casamento entre portugueses e indianas, mas quando fala da escrava, seria uma africana?

Não, era mesmo indiana. Era uma escrava de Cannanor, no sul da Índia. Não sei se seria mais ou menos escura, pois os portugueses preferiam mulheres brancas, mas também havia casos de se casarem com mulheres mais escuras. Havia essa ideia em Albuquerque de defender os casamentos, mas com mulheres que fossem mais brancas.

Nesta biografia que agora publica considera resolvido o problema da data de nascimento. Não do local?

O local não conseguimos saber. Poderá ser Vila Verde dos Francos, perto de Alenquer. Alhandra não porque há documentos que mostram que até 1497 essa quinta de Alhandra que ele depois veio a comprar era de outras famílias. Lá teria nascido em 1500 o seu filho Brás de Albuquerque. Quanto à data, que foi outro dos pontos que se discutiram bastante, tendia-se a acreditar que ele teria nascido em 1462, mas na realidade foi em 1452, portanto terá morrido com 63 anos, de acordo com o que já João de Barros dizia, e há documentos que referem a possibilidade de ele ter 60 anos em 1512. Ele considerava-se velho já no fim da vida e velho, nessa altura, era só a partir dos 60 anos.

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