Carrilho da Graça vai recuperar pavilhão que vai acolher coleção de Julião Sarmento

O novo centro artístico de Lisboa, no Pavilhão Azul, deverá abrir no final de 2018.

O arquiteto Carrilho da Graça vai ser o responsável pela recuperação do Pavilhão Azul, em Lisboa, que acolherá a coleção privada de arte de Julião Sarmento cedida à Câmara de Lisboa, no âmbito de um protocolo assinado hoje.

A coleção privada de Julião Sarmento, iniciada pelo artista plástico em 1967 quando andava na faculdade sem que tenha parado de colecionar desde aí, reúne obras em pintura, objetos, instalações, vídeos e esculturas de artista portugueses e estrangeiros que Julião Sarmento conheceu, com quem fez amizade ou conviveu nalgum momento da vida. Só 5% das obras da coleção privada do artista plástico foram compradas, tendo trocado outras por obras de sua autoria, ou recebido por oferta.

A ideia de doar a coleção à Câmara de Lisboa surgiu depois de o artista plástico ter exposto, em 2015, a sua coleção - Coleção Sild - na mostra "Afinidades eletivas", no Museu da Eletricidade e na Fundação Carmona Costa. Na altura, um amigo do artista, o colecionador António Cachola, que tem a sua coleção própria exposta em Elvas, disse-lhe que era uma pena que Julião Sarmento tivesse a coleção fechada e não pudesse ser vista por toda a gente, contou hoje o artista à imprensa.

"Fiquei a pensar que era um pouco egoísta da minha parte manter aqueles objetos todos fechados em casa ou em armazéns e surgiu a ideia de propor cedê-la à Câmara de Lisboa de forma a poder dar àquela coleção uma visibilidade constante", disse Julião Sarmento.

Sopre o local que vai acolher a coleção - o Pavilhão Azul, na avenida da Índia, em Lisboa -, o artista considerou-o "o sítio perfeito" já que tem "tamanho humano", é um "edifício bonito e está super bem situado naquele eixo museológico que se adivinha no local".

Julião Sarmento disse ainda que em comum acordo com a autarquia tinham chegado à conclusão que a pessoa indicada para as obras de recuperação do pavilhão era o arquiteto Carrilho da Graça, seu amigo pessoal, tendo como curador Sérgio Mah. Julião Sarmento não tem dúvidas de que o Pavilhão Azul, "que está em ruínas e é uma espécie de ninho de pombos, vai tornar-se um espaço absolutamente inacreditável", como explicou hoje à imprensa.

Já Carrilho da Graça disse estar já a estudar o local no sentido de que depois de recuperado este fique com a iluminação que se exige para locais que acolhem arte e com o mínimo de distrações possíveis. Porque o fundamental é que quem o visite possa desfrutar da arte o mais possível, referiu o arquiteto.

Sérgio Mah, que será o curador da coleção Sild, considerou-se um privilegiado por ter sido a pessoa escolhida, acrescentando que a coleção do artista plástico "é muito especial e permite ter um olhar atento e retrospetivo sobre muita da arte contemporânea produzida nas últimas décadas".

Sobre a data de abertura do novo espaço, Sérgio Mah disse que é apontado o final de 2018 ou início de 2019.

Carrilho da Graça acrescentou que a intenção era que o novo espaço abrisse ao público por ocasião do 70.º aniversário de Julião Sarmento [a 04 de novembro de 2018], considerando difícil que tal aconteça.

Já o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, sublinhou que a cedência da coleção de Julião Sarmento à autarquia vem na altura ideal, por permitir a recuperação de um local que já esteve para ser várias coisas sem que se tenha concretizado qualquer projeto.

"É um edifício que está num sítio particular, tem o Centro Cultural de Belém ao pé e ganhou uma centralidade única e vai ganhar cada vez desde a abertura do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT) na proximidade", referiu.

"O que nós temos hoje em Belém não é um distrito cultural afirmado no património histórico do país, o que hoje estamos a construir em Belém é o polo mais dinâmico da modernidade e da arte contemporânea que temos na cidade de Lisboa", sublinhou Fernando Medina.

A coleção de Julião Sarmento inclui obras de Joaquim Rodrigo, de quem Sarmento foi assistente, um retrato do artista feito pelo espanhol Miquel Barceló, que possui também um próprio retrato criado pelo autor português.

Outros portugueses cruzaram a vida de Sarmento: De Álvaro Lapa a sua coleção inclui "Que horas são que horas (Os deuses antigos)", de 1974, de Eduardo Batarda, "Thumbnails e Modelos", de 2013, de Jorge Molder, "Mão tem de me dizer seja o que for", de 2011, de Rui Chafes, "Vertigem V", de 1988-1989, de Rui Sanches, "Julisa", de 1996, de Fernando Calhau, seis peças em placas de aço quinado, de 1991.

Trabalhos de artistas estrangeiros também estão incluídos na coleção privada de Sarmento, como "Committee" (2000), de Andy Warhol, uma peça "sem título" de Cindy Sherman (1990-1991), "Jimmy Paulette on David's bike" (1991), de Nan Goldin, "Monocromo Japonês" (2000), da brasileira Adriana Varejão, ou "Dragon Head 6" (1989), de Marina Abramovic.

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