A Mostra começa com Netflix, prossegue com mais Netflix e a isso junta-se dois Leões de Ouro a gigantes: o cineasta americano Paul Schrader e Catherine Deneuve. Duas homenagens que fazem sentido nesta edição número 79 cujo cartaz faz salivar até o mais distraído dos cinéfilos. O Festival de Veneza continua a querer ser o maior festival do mundo, sobretudo num momento em que Cannes parece vacilar com palmarés nada consensuais e a perder na concorrência para agarrar filmes apontados à temporada dos prémios americanos..O certame que hoje começa parece, à partida, uma maratona com os melhores filmes da rentrée, mesmo quando perde para a concorrência, o TIFF - Festival de Toronto, os novos de Spielberg, Sam Mendes ou Rian Johnson. Está com uma competição fortíssima, pesos pesados americanos fora-de-competição e presença de grandes estrelas internacionais: de Isabelle Huppert, Harry Styles, Ana de Armas, Timothée Chalamet, Colin Farrell, Chris Pine a Cate Blanchett, Penélope Cruz, Adam Driver, passando por Brendan Fraser ou Hugh Jackman e Tilda Swinton..Dos mais esperados, muita febre em relação à adaptação de Noah Baumbach a Ruído Branco, romance de Don DeLillo, entretanto com edição descontinuada em Portugal. Cabe-lhe a honra de inaugurar a competição e tem dois habitués de Baumbach como protagonistas: a sua companheira, Greta Gerwig, e o amigo de casa Adam Driver..É dos que se fala para a tal temporada dos prémios americanos, tal como Bones and All, de Luca Guadagnino, nova incursão nos indies americanos do realizador de Chama-me Pelo Teu Nome, desta vez numa história com ressonâncias canibais na América de Reagan. Tem Timothée Chalamet como protagonista e a excelente Keri Russell, a atriz que fez parar o mundo em Ondas, o genial filme de Trey Eduard Shults..Depois, igualmente dos EUA, todos os focos vão dar a The Whale, de Darren Aronovsky, desta vez a adaptar uma peça sobre um gentil ser obeso em busca de humanidade. Na América já há um lobby forte para Brendan Fraser ter aqui um papel oscarizável, ele que parece agora ator respeitável depois de ter engordado e saído de cena..E ainda há o caso Blonde, de Andrew Dominick, aqui a aventurar-se perante um romance sobre Marilyn Monroe imaginado por Joyce Carol Oates, por norma, escritora infilmável - que o diga Laurent Cantet. A loura trágica é interpretada por uma cubana, Ana de Armas, atriz capaz de tudo..Ela e Cate Blanchett são, à partida, candidatas óbvias à Taça Volpi, o prémio de interpretação. Blanchett está, por sua vez, transformada em maestrina em Tár, a história da primeira mulher a dirigir uma orquestra na Alemanha. Diz-se que é todo feito em função do talento da australiana, mas não deixa de ser um filme de Todd Field, cineasta preciosista, herdeiro de uma certo espírito de Kubrick..Da Europa, mas a pensar em audiências globais, a competição tem também The Son, de Florian Zeller. O homem que fez O Pai volta a sentar-se na cadeira de realizador para adaptar outra sua peça, parte de uma trilogia que começou precisamente com O Pai. Desta vez não há Anthony Hopkins, mas sim Hugh Jackman. Pode ser a confirmação de um cineasta improvável, figura maior de um certo teatro burguês francês..Por seu lado, Martin McDonagh, cineasta de Em Brugges e do oscarizado Três Cartazes à Beira da Estrada, também tenta o ouro no Lido com o irlandês The Banshes of Ineshirin, com Brendan Gleeson e Colin Farrell, conto irlandês com humor supostamente a retratar o fim de uma amizade num lugarejo remoto. Sabe-se que Farrell, fresco do insípido 13 Lives não vai querer falar com a imprensa portuguesa....Grande, imensa expectativa para o novo de Joanna Hogg, ela que esta semana estará em alta com The Souvenir - Part II, em estreia em Portugal no circuito Home Video. O filme chama-se The Eternal Daughter e tem novamente a "colaboradora" Tilda Swinton como protagonista. Mais uma vez, Hogg a filmar traumas artísticos e focar-se no lugar da mãe. Tresanda a filme "surpresa"..Na corrida ao Leão de Ouro, Jafar Panahi, por todas as razões - entre estar detido no Irão e ser, de facto, um cineasta de mão-cheia, faz figura de favorito com No Bears, uma história de amor ao quadrado num Irão cheio de obstáculos de poder. Mas num ano onde Julianne Moore comanda o júri oficial é possível um palmarés fora da caixa e, aí, o cinema documental tem consagrados a poder aspirar à glória, como é o caso do veterano Frederick Wiseman, que em A Couple encena um flirt com valores de ficção..Nan Goldin, a fotógrafa cheia de alma e sofrimento, é a estrela do novo documentário de Laura Poitras - All The Beauty and the Bloodshed - para estar em competição tem de ser qualquer coisa. Mas igualmente é impossível não colocar no rol dos favoritos Alejandro Iñarritu com Bardo, regresso ao México do cineasta de 21 Gramas, um pouco como tinha sucedido com o conterrâneo Alfonso Cuarón com Roma. Nem de propósito um filme Netflix....Na sempre apetecível Secção Fora-de-Competição, todos os olhares num regresso improvável: Walter Hill, Dead for a Dollar, prova de vida de um dos cineastas que marcou o imaginário do cinema americano de entretenimento nos anos 80..Mas há ainda Ty West, finalmente a ter direito a ser visto como autor. Será em Pearl, cinema de terror de época, neste caso um spin-of de X, que ainda há pouco tinha chegado a Portugal para uma lamentável distração da nossa crítica..Pode ser o abanão do festival, mas são muitos também os que estão otimistas com Não Te Preocupes, Querida, de Olivia Wilde, esperança substancial da Warner para a temporada dos prémios. Corre o rumor que merece ser visto para além do frisson das cenas eróticas entre Harry Styles e Florence Pugh..Mas a ala dura de Veneza reza a todos os santinhos que Master Gardener, de Paul Schrader, esteja ao nível de The Card Counter - O Jogador e não do anterior Dark, um dos filmes de despedida do jovem Anton Yelchin... Veneza apostou num Leão de Ouro de carreira oportuno, mas era bom que este Master Gardner não chegasse ao Lido apenas para encher número....De Portugal, a seleção oficial tem ainda uma coprodução, o novo de Lav Diaz, When the Waves are Gone, supostamente um thriller moral sobre a corrupção nas Filipinas. Joaquim Sapinho é um dos muitos produtores internacionais desta obra filipina de um dos cineastas mais amados no art house mundial. Vai ser visto Fora-de-Competição..Porém, é na Secção Horizontes que A Noiva, de Sérgio Tréfaut é exibido. O cineasta nascido no Brasil foi até ao Iraque filmar uma história sobre uma jovem europeia que se converte ao Daesh e, mais tarde, se vê grávida e presa num campo prisional. O produtor Paulo Branco está responsável pelas vendas internacionais de um filme que pode causar verdadeira sensação global..Entretanto, o DN já viu Lobo e Cão, de Cláudia Varejão, a outra obra cem por cento portuguesa no Lido, neste caso integrada na secção paralela Dias dos Autores e bem que se pode pensar que poderia ter tido honras de secção mais prestigiante. Trata-se de primeira ficção em forma de longa da cineasta de Ama-san, aqui a filmar uma comunidade real de Cabouco, nos Açores, a partir de uma residência feita com jovens em Rabo de Peixe. Objeto do real que encontra ficção nas histórias de afirmação de um conjunto de jovens que tenta lutar contra o preconceito de uma ilha em que a tradição pode ser um empecilho para uma afirmação sexual e identitária..Um filme belíssimo que revela rostos de não-atores fortíssimos e encena uma celebração contida e pungente do amor queer. Trata-se de uma cineasta a filmar com um prazer sofisticado e uma elegância que se refina..Para Cláudia, esta questão de estar num festival de Lista A não deixa de ser um jogo, mas o momento é deveras de orgulho: "Orgulha-me enormemente que o filme seja visto numa montra com um público atento ao cinema do mundo. Sobretudo porque tenho trabalhado nos últimos anos - e este filme não foge à regra - com atores que não são profissionais e o desejo de os elevar e valorizar é reforçado. Em Lobo e Cão acrescem as próprias questões de identidade e queer em que o filme se constrói e que, apesar do enorme trabalho que tem sido feito nos últimos anos no cinema, ainda precisam de ser discutidas"..Sobre a residência artística, começada em 2016, faz questão de explicar o que dela nasceu: "Os jovens da ilha são um exemplo (quase) intocável de que cada pessoa é, em si, uma ilha preciosa. São pessoas de uma fibra rara que os tem ajudado a sobreviver às maiores adversidades. Guardo muitas imagens de dor também, de violação de Direitos Humanos. E de uma dignidade brutal que impulsiona as pessoas para cima e para a frente. Guardo também a doçura quase infantil com que os habitantes da ilha se fascinam com o fazer, com a construção de algo, com o prazer nas festas, o prazer na sua história, no contar histórias, os mitos, os fantasmas, e a integração de tudo isto naquela exuberância de paisagem. E ficam também os banhos no mar com a equipa do filme e a comoção quando o que filmamos transcende o que imaginámos"..Sim, Lobo e Cão, que chega ainda este ano às salas comerciais, vai pelas estribeiras da transcendência..dnot@dn.pt