O choro de Rafael Nadal no Melbourne Park, após perder com Mackenzie McDonald (6-4, 6-4 e 7-5) e sofrer mais uma lesão (na anca) - que o fará parar entre seis e oito semanas -, emocionou o Mundo e causou apreensão. O tenista, n.º 2 do ranking ATP, tem 36 anos e uma carreira marcada por troféus... e lesões..Desde que entrou na elite, segundo um levantamento feito pelo DN, com ajuda do Tennis World, o tenista tem tido pelo menos uma lesão por ano, com exceção de 2015, ano em que, segundo o próprio, teve uma "lesão mental", por ser incapaz de controlar as emoções nos momentos chave. Agora, diz estar "mentalmente destruído"..O calvário físico de Nadal começou bem cedo. Em 2003, quando tinha apenas 17 anos, sofreu uma lesão no cotovelo durante um treino em Manacor, que o obrigou a desistir daquele que seria o seu primeiro Grand Slam e onde hoje é rei com 14 títulos - Roland Garros. Um ano depois, uma fratura de esforço no pé esquerdo, no Estoril Open, obrigou-o a parar dois meses e mais uma vez falhar a estreia em Roland Garros e ainda Wimbledon e os Jogos Olímpicos de Atenas..Em 2005 o pé esquerdo voltou a penalizá-lo: três meses fora da competição. Depois de regressar venceu o Masters de Madrid e voltou a ressentir-se do problema no pé (o mesmo que o retirou do Open da Austrália em janeiro de 2006). Nesse ano, depois de conquistar Roland Garros viu uma lesão nas costas obrigá-lo a desistir do The Queen"s Club, mas recuperou a tempo de chegar à primeira final em Wimbledon e jogar as ATP Finals pela primeira vez..Chegado 2007 as cãibras no braço esquerdo aliaram-se à lesão no joelho num ano infernal, que teve continuidade em 2008 com uma lesão no tendão do joelho a fechar uma temporada fatigante com 111 partidas e a chegada a Número 1 do Mundo pela primeira vez na carreira. A lesão agravou-se em 2009 e fê-lo cair cedo na terra batida parisiense, falhando ainda a defesa do título em Wimbledon. Mais tarde, durante durante o US Open foram os problemas abdominais a atormentá-lo. Meses depois o joelho voltou a castigar Nadal na Austrália, ficando pelos quartos-de-final, mas recuperando depois para uma das melhores épocas da carreira, com o regresso ao topo do ranking ATP..Depois da glória mais uma lesão: um problema no adutor obrigou a sair do court australiano em lágrimas..O pior estava para vir: em 2012 sofreu uma das maiores lesões da carreira. Depois de ganhar em Roland Garros (mais uma vez), o joelho esquerdo voltou a dar sinal durante Wimbledon (derrota com Lukas Rosol) e obrigou-o a terminar a temporada em julho. Só voltou cinco meses depois, já em 2013, ano em que as costas o atormentaram na Austrália. Um ano depois foi o pulso (uma novidade) a tirar o espanhol dos torneios de Toronto, Cincinnati e US Open. Voltou em 2015, um ano imaculado, sem lesões físicas, mas o pulso voltaria a incomodá-lo em 2016, abortando idas a Paris e Londres..Nadal terminou a temporada de 2017 com 68 vitórias e novamente como líder do ranking. Em novembro desse ano, dias depois do treinador e tio, Toni Nadal, lembrar que "há muitos anos que o Rafa não passava uma época inteira sem lesões", o tenista sentiu dores no joelho direito e falhou o Masters londrino. Em janeiro do ano seguinte foi à Austrália, mas desistiu nos quartos com dores na coxa direita. Em 2018 fez apenas nove jogos e também desistiu do US Open: "É sempre o joelho, mas desta vez foi mais agressivo.".De tão fustigado pelas lesões estar, o espanhol encurtou a época em 2019 para evitar recaídas ou lesões, mas as dores musculares na coxa direita levaram-no a desistir do Masters de Paris e o joelho impediu-o de dar luta a Federer em Indian Wells. Em 2020 a pandemia reduziu o calendário a meia dúzia de torneios e Nadal ganhou Roland Garros na vitória mil da carreira..Em setembro de 2021 apareceu de muletas depois de ser operado ao pé esquerdo (síndrome de Müller-Weiss, uma doença rara regenerativa que afeta um dos ossos do pé). Voltou a falhar Wimbledon e os Jogos Olímpicos e quando se preparava para voltar ficou infetado com covid-19, recuperando a tempo de jogar em Melbourne, onde, no ano passado, aos 35 anos, ergueu o 22.º Grand Slam, tornando-se recordista de troféus e superando Roger Federer e Novak Djokovic..Resta a pergunta: quão maior seria Rafael Nadal sem lesões?.isaura.almeida@dn.pt