"Eu falo muito e não tenho vergonha de nada, mas o não estar presencialmente talvez tenha contribuído para me sentir mais à vontade. Por exemplo, havia um tema que era chave na minha vida e eu queria abordar, mas ainda não me sentia muito confortável para o fazer e acho que se as consultas fossem presenciais talvez tivesse demorado um bocadinho mais a falar sobre ele. Ter o ecrã pelo meio talvez tenha ajudado a dar-me coragem para falar disso mais cedo", diz Alexandra, 32 anos, que começou a fazer psicoterapia há seis meses, com a psicóloga Ana Moniz. Ainda não se conheceram pessoalmente, embora a Alexandra pareça que se conhecem há anos..A lidar desde sempre com problemas de ansiedade, já tinha tentado fazer psicoterapia, mas à terceira sessão desistiu porque não estava a correr bem. "Não me senti à vontade. Não tive empatia com a pessoa que estava à minha frente", explica..A pandemia e o confinamento foram um desafio para a ansiedade de Alexandra, mas foram também a oportunidade de voltar a tentar aquilo que queria ter começado há muito tempo.."Foi uma sorte muito grande porque foi a maneira de eu conseguir ter consulta. Neste regime online é muito mais fácil conciliar horários e agendas. Foi a oportunidade ideal para começar. No início senti que era um bocadinho estranho, porque não conhecia a terapeuta, mas ela fez-me sentir imediatamente à vontade", diz..O facto de estar em casa, no seu espaço, também lhe trouxe um conforto acrescido que considera que tem contribuído para o sucesso do processo terapêutico.."A minha casa é o sítio onde lido com os meus problemas, é na minha sala que penso nas coisas que me atormentam, e tendo a consulta ali, acho que consigo expressar-me melhor, os problemas estão mais presentes do que se estivesse num espaço que me é estranho e me distrai", diz, revelando que tem sentido avanços enormes.."Psicoterapia era uma coisa que queria muito fazer, há pessoas que não querem porque têm medo ou acham que não precisam, mas eu queria mesmo, e fez-me muito bem, logo desde a primeira sessão. Ajudou-me muito e agora apetece-me inventar mais coisas, para ter mais tempo (estou a brincar). Mas, agora a sério, quando, no fim da consulta, a Ana diz que terminámos, tenho sempre medo de que esteja a dar-me 'alta', porque anseio por aquele momento da semana, sinto-me mesmo bem", diz Alexandra, num sorriso que se adivinha do outro lado do telefone..A psicóloga clínica e psicoterapeuta Ana Moniz está, desde março, quase exclusivamente em regime de consultas online, um método que não lhe era estranho, já que há três anos o utiliza para fazer psicoterapia a pacientes que vivem fora do país.."Eu até era cética, já havia investigação a dizer que funcionava bem e eu continuava a resistir, mas tinha pacientes que foram viver para fora e acabei por me render. Comecei a ter também pacientes que não conhecia, mas que queriam um terapeuta português na língua nativa e com cultura semelhante. Lembro-me do caso de um paciente que vivia na Noruega e que dizia ser muito difícil explicar ao terapeuta norueguês como era a nossa ligação à família de origem, como os laços na vida adulta permanecem. É interessante. Mas, portanto, já seguia pessoas à distância e quando entrámos em confinamento, por causa da pandemia, passei exclusivamente para este registo. Muita gente que nunca tinha imaginado fazer terapia online aderiu logo bem - aí talvez possamos dizer que sobretudo pessoas que já têm à vontade com as tecnologias - outros decidiram parar, mas, e isto aconteceu comigo e com muitos colegas meus, no início começámos para aí com um terço das pessoas e depois não só apareceram pessoas novas como muitas começaram a voltar, mesmo online.".Ana Moniz não tem dúvidas de que em circunstâncias normais, não há nada que substitua as consultas presenciais, mas entre o online e o presencial com máscara, prefere claramente o primeiro. ."A máscara a mim incomoda-me muito e em terapia é péssimo. A terapia pressupõe conforto e a máscara é muito desconfortável. Chorar de máscara é horrível", diz a psicoterapeuta, que nestes meses tem constatado algumas virtualidades nas consultas por videoconferência.."Comecei a perceber agora, e também já existe investigação sobre isso, a intimidade que se consegue numa sessão online porque a pessoa está no seu espaço e nós entramos casa adentro. Percebi isso claramente com uma paciente que no consultório era muito rígida e na primeira sessão online estava completamente descontraída. Falámos sobre isso e ela dizia que era muito mais fácil assim, no seu espaço. Portanto, há pessoas para quem isto trouxe até algumas vantagens", diz..Outra das vantagens que reúnem unanimidade é a da flexibilidade e da poupança de tempo e dinheiro em deslocações, o que facilita o acesso de mais gente à terapia. "Eu agora começo sessões às oito da manhã, que era uma coisa que nunca acontecia, e isso permitiu que pessoas que antes não tinham disponibilidade de horários passassem a ter", diz Ana Moniz..O psicólogo clínico e psicoterapeuta Vítor Rodrigues, que em maio fez um vídeo a falar sobre a sua experiência com as consultas online e tem um vlogue em que aborda diversas questões ligadas à saúde mental, tem vindo também a render-se à psicoterapia à distância como solução para os tempos que vivemos, que não só podem intensificar problemas de saúde mental já existentes como criá-los..A distância física e a mediação de um ecrã de computador ou smartphone não têm constituído uma barreira, na sua opinião, antes pelo contrário.."Creio que no geral os pacientes estão tão ou mais abertos a falar de si e dos seus problemas - desde que se sintam com privacidade plena em casa ou num escritório, o que nem sempre é fácil. Estando no seu ambiente mais conhecido e confortável, isso pode ajudar a que se sintam descontraídos e seguros. Portanto, o impacto [desta mudança do presencial para o online] é bem menor do que eu esperaria. De modo geral, é viável estabelecer um bom relacionamento e existe até, por vezes, o entendimento de que, de parte a parte, estamos a fazer o melhor que podemos, com boa vontade. Em algumas situações, os resultados até são surpreendentemente bons. Já tive a grata impressão de poderem ser mesmo melhores do que ao vivo, num ou outro caso", diz Vítor Rodrigues..Reconhecendo que se perde "a possibilidade de ver tão completamente a linguagem postural das pessoas, a sua movimentação respiratória ou as variações de tensão corporal", diz que o facto de atualmente as consultas online terem "a vantagem de podermos ver a face das pessoas, na sua riquíssima expressão, o que não acontece quando temos de fazer consultas ao vivo mas com máscara" compensa.."Por outro lado, o perigo de contágio desaparece nas consultas online, não existe o desconforto respiratório das máscaras e isso até ajuda a algum relaxamento, permite exercícios (nomeadamente respiratórios) que seriam difíceis em presença e com máscara", diz o psicoterapeuta, que entretanto já voltou às consultas presenciais..Entre os seus pacientes, tem os que preferiram "regressar" a este regime e os que não. "Tomámos precauções para nos protegermos e aos clientes - desinfeção de cadeiras e mesas entre consultas, máscaras, desinfeção das mãos, até medição de temperatura -, mas alguns optaram por manter-se em videoconferência, por reduzirem o risco de contágio ao usarem transportes, irem a lugares com mais pessoas, etc. Isso ainda se aplica mais a pessoas relativamente idosas ou com outros fatores de risco, como diabetes, doença oncológica, obesidade. Além disso, as consultas online tendem a poupar o tempo e o dinheiro das deslocações, entre outros fatores.".A maior desvantagem online, tanto para Vítor Rodrigues como para Ana Moniz, é, em caso de necessidade, não ser possível tocar nas pessoas ou aproximar-se delas.."Há pacientes com quem não se deve trabalhar assim", diz mesmo Ana Moniz. "Se o paciente estiver em crise ou em risco de suicídio, temos de ter a garantia de que está alguém em casa porque não temos qualquer possibilidade de fazer contenção física. É muito mais difícil ajudar à distância se a pessoa estiver em crise. Este tipo de pacientes foram exceções desde o início. Muitos terapeutas continuaram a atendê-los presencialmente porque o risco era maior", diz.."Depois, há todo um trabalho de ativação emocional profundo, estrutural, aquele em que as pessoas se ativam muito, choram muito, em que temos de ativar emoções difíceis, que eu não faço tão profundamente na consulta online e acho importante que não se faça, mais uma vez porque não temos a possibilidade de conter do início ao fim. Essa é uma limitação clara na terapia online. O que estou a fazer com pacientes que têm perturbação de personalidade e precisam deste trabalho mais profundo é fazer a gestão do dia-a-dia, que é uma parte da terapia, online, e o trabalho mais profundo faço presencial. É um equilíbrio necessário", explica Ana Moniz..O cansaço de estar a tentar ler os sinais não verbais através de um ecrã, para quem chegou a fazer oito sessões diárias, é outra das desvantagens apontadas pelos psicoterapeutas, que chamam a atenção para a falta de condições de privacidade em casa, absolutamente essencial à psicoterapia, que muitas vezes se verifica e é mais uma das limitações desta solução.."Cheguei a ter pacientes a fazer as sessões no carro, na rua ou até a andar, o que é terrível, sobretudo para quem está deste lado. Mas tivemos de improvisar, para dar resposta sobretudo às pessoas a quem esta situação de crise fez disparar os problemas. Tivemos de ser criativos e aceitar condições mais difíceis. Por outro lado, isto da pandemia e do confinamento e das medidas de distanciamento social e tudo o que se relaciona com esta crise é uma coisa que estamos a viver todos juntos, é uma realidade que todos partilhamos, ninguém está mais à frente, e isso cria uma proximidade maior, que traz mais verdade e mais intimidade à relação terapêutica", diz Ana Moniz..Catarina, 38 anos, não é paciente de Ana Moniz, mas concorda com a psicoterapeuta. Apesar de ser uma indefetível das consultas presenciais, porque a proximidade física é, na sua opinião, fundamental para uma maior clareza do processo terapêutico, nunca pôs a hipótese de interromper a psicoterapia, que faz há quatro anos.."Sempre fiz presencial, inicialmente uma vez por semana, depois quinzenalmente, e prefiro, mas a passagem para o online correu muito bem, porque suspender ou adiar para mim não era uma hipótese. Fazemos pelo computador, que tem um ecrã maior, e portanto não notei grande impacto. Tanto que ainda não voltei ao presencial, porque está a funcionar muito bem tanto para mim como para a minha psicoterapeuta", diz Catarina, que aponta como grande vantagem da solução online o tempo que se poupa em deslocações, "na vida corrida que temos", e a flexibilidade de horários..O mesmo pensa José Manuel, 35 anos, que faz psicoterapia com Ana Moniz há três. Prefere presencial, a maior vantagem que encontra no online é poder escapar ao trânsito das deslocações, mas nestes últimos meses foi fundamental manter as consultas..Começou a fazer psicoterapia, a conselho da psiquiatra, na sequência de uma "crise depressiva", que resultou de um acumular de problemas a nível pessoal e profissional, e já passou por várias periodicidades de sessões, que agora são mensais: "é o que eu chamo fazer a revisão e falar um bocadinho"..Em teletrabalho desde março, o período de confinamento foi particularmente pesado para José Manuel, que depois de semanas sozinho em casa, por alturas da Páscoa, sentiu que estava a ir-se "um bocadinho abaixo". Falar com a psicoterapeuta sobre isso ajudou. E, embora na sua opinião nada substitua o contacto humano, o facto de estas conversas serem tidas à distância, mediadas por um ecrã de computador, não afetou a relação terapêutica.."Resultou muito bem porque já nos conhecemos e temos a nossa linguagem. Não notei qualquer tipo de disrupção, antes pelo contrário, é uma consulta perfeitamente alinhada com aquilo que tínhamos", diz José Manuel, que acaba por reconhecer nesta solução o melhor de dois mundos.."Neste contexto de pandemia, dá-nos a segurança de que a outra pessoa está do lado de lá e nós estamos num ambiente calmo e tranquilo, que é o nosso espaço. É mais difícil decifrar os silêncios e a linguagem não verbal - às vezes a Ana interpela-me e eu tenho de fazer a minha introspeção durante 10 ou 15 segundos e pode haver um traçar de perna, um olhar, um suspiro que lhe escape -, mas o distanciamento também pode ajudar a que nos soltemos mais e tenhamos menos filtro do que se estivéssemos frente a frente", diz..Tudo diferente é quando falamos de crianças e adolescentes, a maioria dos pacientes da psicóloga clínica e psicoterapeuta Rute Agulhas, que não tem dúvidas de que, com os mais novos, é difícil trabalhar à distância.."Apesar de estarem familiarizadas com as novas tecnologias e as videochamadas, as crianças falam connosco e viram a câmara para o chão ou para o teto. Por vezes olham por cima do ombro, receando que os pais a estejam a ouvir (e muitas vezes estão mesmo...). Com alguma criatividade conseguimos fazer desenhos e brincar desta forma, mas diria que se perde muito daquilo que é a riqueza de uma interação presencial", diz a psicoterapeuta..Com os adolescentes, pelo contrário, é muito mais fácil e muitos deles preferem mesmo esta modalidade online. "Estão na sua zona de conforto. Alguns deles preferem até sem a câmara ligada, apenas áudio. Acaba por ser uma forma de se sentirem mais protegidos e, dessa forma, conseguem partilhar muito mais. Para nós, terapeutas, é um enorme desafio! Tentamos captar as mensagens não verbais quando apenas temos acesso a uma parte do corpo do cliente. No entanto, as crianças e jovens sabem também transformar estas dificuldades em oportunidades. Vi pela primeira vez o quarto das crianças que acompanho, guiada pela câmara do telemóvel. Tive acesso a alguns detalhes da sua privacidade que se revelaram muito importantes no processo terapêutico.".Rute Agulhas recorda particularmente uma criança de 9 anos que colocou o telefone virado para o teto e tocou piano para ela. "Não queria que eu a visse, por sentir-se ainda insegura, mas foi maravilhoso e pudemos trabalhar a questão da insegurança e da vergonha social a partir desta situação concreta.".Outra experiência interessante que estes tempos lhe trouxeram foi que, por ter passado a estar à distância de um clique, frequentemente recebia chamadas de crianças (especialmente as mais novas) apenas para dizerem olá ou para mostrarem um desenho ou uma brincadeira que tinham feito..Apesar de considerar que a passagem para o online não teve um impacto negativo nas relações terapêuticas que já existiam, a psicoterapeuta reconhece que se perde muita comunicação não verbal, "os movimentos das pernas, a postura corporal, as mãos... com sorte, conseguimos ver toda a face, o olhar, e temos sempre o tom de voz"..Desde junho, quando voltou às consultas presenciais, com o cumprimento das regras da Direção-Geral de Saúde, as crianças foram as primeiras a regressar ao consultório.."Tenho os jovens que agora (podendo ser presencial) me dizem que preferem online ou então 'misto'. Dá-lhes maior sensação de liberdade e controlo, mas as crianças preferem claramente o regime presencial. Dizem 'tinha saudades de brincar contigo' e é muito difícil controlar os abraços. Assumo a minha dificuldade. Custa-me imenso. E sinto-me muito mal quando tenho de impedir uma criança de se aproximar fisicamente."