Marcelo dos Santos desapareceu na madrugada de 13 de dezembro de 2013. Fugiu, disseram as autoridades. Três meses depois encontraram o corpo da irmã, Carla dos Santos, na sua casa em Monte Abraão (Amadora), assassinada pelo ex--marido. Acreditaram, então, tratar-se de um homicídio e cometido pela mesma pessoa, Moisés, que cumpre 20 anos de prisão pela morte de Carla. Ele confessou este crime mas não o de Marcelo e só aceitou falar informalmente, sem assinar confissão. Assim o processo foi arquivado. Será este o crime perfeito?.Advogados e polícias dizem que não. Acreditam em circunstâncias, em falhas, em coincidências, não em crimes perfeitos. E que é essa a razão pela qual existem casos que não foram desvendados, culpados nunca julgados e inocentes condenados. Em relação à morte de Marcelo, dizem que o processo pode ser aberto a qualquer momento, desde que surja um novo indício.."Não é que seja um crime perfeito. Se foi ele [Moisés Fonseca], e tudo indica que sim porque acabou por o confessar em conversa informal revelando uma série de pormenores, é complicado obter a prova porque não há corpo, não há vestígios. É um crime cuja investigação é inconclusiva", diz António Teixeira, ex-inspetor da Polícia Judiciária (PJ)..Moisés diz que não guardará este segredo para sempre, até para que os sobrinhos (de 10 e 13 anos) possam homenagear o pai, mas só revelará o local onde terá enterrado Marcelo após a "prescrição do procedimento criminal", lê-se no processo. Este foi arquivado sem chegar à barra do tribunal porque, justifica o Ministério Público (MP) de Sintra, só se deduz acusação se no "inquérito tiverem sido recolhidos indícios suficientes de se ter verificado crime e de quem foi o seu agente", levando à condenação, o que não será o caso. "Não existem indícios suficientes, pelo menos com a suficiência exigida pelo art.º 283, n.º 2, do Código do Processo Penal, para se sustentar acusação contra o arguido.".Arquivamento que a advogada dos pais dos irmãos, Paula Andrade, já contestou, pedindo a reabertura de instrução, o que lhe foi negado. Elabora um novo pedido. "Não acredito em crimes perfeitos, aliás, as cadeias estão cheias de pessoas inteligentes, todas elas a afirmarem-se inocentes", justifica. Promete lutar para que este não se transforme num crime sem autor..Amélia Santos e o marido, os pais de Carla e Marcelo e com quem vive o filho de ambos, não regateiam esforços para que o caso vá a julgamento. É a batalha de Amélia. "Não houve uma investigação atempada por parte da PJ. Só admitiram que fosse crime depois da morte da minha filha, apesar de uma testemunha dizer que Moisés ameaçara de morte toda a família.".Eram emigrantes no Brasil, São Paulo, e o casal quis que os filhos fizessem os cursos em Portugal para "fugir da violência", diz Amélia. Os jovens vieram em 1991 e os pais em 1998. Esta é, também, uma das razões pela qual os dois crimes são tantas vezes lembrados na PJ. Marcelo formou-se em Engenharia Informática e Carla em Comunicação Social. "Para ser sincera, diz a mãe, já não acredito na justiça portuguesa, mas quero acreditar que haverá julgamento. Este crime não pode ficar impune, seria um erro grosseiro da justiça portuguesa e a PJ tem de assumir o que não fez bem."."Um processo nunca encerra"."Parece que o Moisés andou a gozar com a polícia", começa por dizer António Colaço, especialista em direito penal. Isto porque o suspeito aceitou contar à PJ o que se terá passado a 13 de dezembro de 2013 desde que a conversa fosse informal. Esse facto revela, na opinião do advogado, os traços de personalidade de Moisés, sugerindo que possa estar envolvida uma terceira pessoa. "Acho que tem um desequilíbrio psicológico, é alguém que gosta de se vangloriar e estão a deixar que o faça. É preciso ter calma e esperar por todos os resultados, por novos factos. Veja-se o caso de Camarate [a queda do avião onde seguia o primeiro-ministro Sá Carneiro foi em 1980, o crime prescreveu em 2006 e foi reaberto nesse ano por surgirem novos indícios]. Era importante traçar o perfil dele. E, pelo que conheço da PJ, um processo nunca está encerrado.".Uma perícia psiquiátrica/psicológica ao arguido efetuada em julho de 2014, no âmbito do homicídio de Carla, caracteriza-o "como sociopata, com uma inteligência acima da média". A família das vítimas descreve-o "como muito inteligente". Com capacidades várias, estudou Direito, embora não tenha concluído a licenciatura..António Colaço defende que não há crimes perfeitos. "Há sempre qualquer coisa que falha, quanto mais não seja o sentimento de culpa. Mais tarde ou mais cedo serão descobertas outras provas. É impossível colocar um corpo numa bagageira sem deixar vestígios. Houve uma luta entre duas pessoas e ninguém deu por isso? O arquivamento do processo não interessa se surgirem novos indícios, mas o MP não pode levar o caso para tribunal sem ter provas. A advogada de acusação pode pedir a audição de novas testemunhas.".António Teixeira, ex-inspetor da PJ, lembra-se bem deste caso e admite que começou mal. "Começa por ser um desaparecimento e, como não há suspeita de crime, tem um tratamento administrativo. Entretanto, perde-se o tempo útil para pesquisar vestígios, o que torna a investigação complicada.".As autoridades disseram à família que, quando um adulto (Marcelo tinha então 42 anos) deixa de dar notícias, o provável é que queira desaparecer sem deixar rasto, talvez por problemas financeiros, talvez por uma mulher. Isto apesar de a companheira, Natália de Souza, argumentar que Marcelo telefonara nessa noite a pedir para o esperar para verem uma série. O carro foi encontrado nas traseiras da empresa da família que ele geria e a 200 metros da casa do ex-cunhado. Não havia registos de movimentos ou chamadas depois do dia 13..A 3 de março, é encontrado o corpo de Carla dos Santos, tinha 41 anos. Só então a investigação é direcionada para a recolha de "prova de que a autoria do desaparecimento e eventual morte de Marcelo é da responsabilidade de Moisés". Inspecionaram os carros, analisaram os contactos telefónicos (Moisés ativou o telemóvel que usava a 23 de dezembro, depois do desaparecimento de Marcelo). Encontraram na viatura de Moisés mantas, uma enxada, dois machados novos, recolheram cabelo/pelos "para comparação com material biológico do desaparecido ou dos seus familiares diretos"..Os exames periciais aos vestígios recolhidos no veículo da vítima e do suspeito têm "resultados inconcludentes". E não encontram "identidade" entre a amostra de cabelo encontrada no carro de Moisés e a zaragatoa bucal que lhe fizeram. Não é dele, de quem é? Sabe-se, apenas, que é homem. Como se lê na notificação do arquivamento do processo, que não explica se compararam o ADN das zaragatoas feitas aos pais das vítimas com o dos cabelos do carro de Moisés..O facto de se indicar essa comparação não quer dizer que não tenha sido feita, o que acontece é que foram inconclusivas, explica o diretor do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária, Carlos Farinha. "As perícias feitas foram as solicitadas e consideradas necessárias para a investigação. Os vestígios foram comparados e periciados de acordo com o solicitado. E nada obsta a que possa haver novas perícias. Apesar do processo ter sido arquivado, em matéria de ciência forense não foi arquivado", explica. Quanto mais não seja porque as bases de perfis de ADN estão em constante evolução como estão os instrumentos de análise..Contar sem confessar.Em "seis conversas informais", Moisés contou como Marcelo terá morrido. Apesar de só falar informalmente, quem dirigia a investigação optou por fazer as conversas. O diretor nacional adjunto da PJ, Paulo do Carmo, explica que as "conversa informais"são sempre "uma possibilidade". Revelam factos relacionados com o crime que podem ser importantes, mas quem tem de "os valorar é o tribunal, não a PJ"..Segundo Moisés, passeava o cão e cruzou-se com Marcelo. O ex-cunhado começou a discutir, a lutar e deu-lhe uma facada. Ele lutou para se defender e golpeou Marcelo no pescoço, matando-o. Decidiu logo ali "desfazer-se" do corpo, mas primeiro foi a casa levar o cão e estancar a sua hemorragia. Depois envolveu o cadáver em toalhas, lençóis e cobertores e levou-o no carro até determinado local. Conta, ainda, que dias depois foi ao hospital Amadora-Sintra por perder muito sangue e estar com anemia, o que é confirmado pela unidade..Os inspetores propuseram-lhe a confissão alegando legítima defesa e que, por isso, era importante aceder ao corpo, mas nada o demoveu. Prometeu revelar "onde enterrou Marcelo, após a data de prescrição do procedimento criminal". Lembra que "foi exclusivamente devido à confissão da morte de Carla que a PJ reuniu prova contra ele", já "que havia apenas uma boa presunção". E que a confissão não teve efeitos na pena..Para declarar-se culpado deste segundo crime impôs condições. A primeira seria confessar em frente ao filho (tem 7 anos) como fez com o crime de Carla, mas os avós maternos não querem sujeitar a criança ao mesmo. Outra possibilidade seria perante três requisitos: ser ouvido pelas comissões e tribunais de menores relativamente ao futuro do filho; que a guarda do menino seja confiada à irmã de Marcelo, que vive na Marinha Grande e tem dois filhos da mesma idade; ter a visita do filho. Está a decorrer a regulação do poder paternal, tendo-se iniciado as visitas dos familiares paternos sob a supervisão de uma psicóloga da Segurança Social..A advogada Paula Andrade está a fazer um novo requerimento para reabrir o processo. Defende que a "conversa informal" fez-se para para a recolha de indícios da prática do crime de homicídio e que Moisés ainda não era arguido. Estas conversas realizaram-se a 14 de agosto de 2014 e a 25 de junho de 2015, tendo Moisés sido constituído arguido a 26 de outubro de 2015. Sublinha ao DN: "A morte de Marcelo vai resolver-se e o autor deste crime vai ser julgado e condenado. E mais cedo do que pensamos.".Certo é que há exemplos de condenações em casos em que não surgiram os corpos, como o de Francisco Leitão (rei Ghob, cumpre 25 anos por três mortes), Leonor Cipriano e o irmão (16 anos pela morte de Joana) e o padre Frederico (13 anos de prisão pela morte de Luís Miguel).