Foi o príncipe Otto von Bismarck (1815-98), estadista e chanceler alemão, quem enfrentou problemáticas várias, incluindo as relações com Roma, a cultura, a saúde, a realpolitik e o Estado social, apoiadas pelo livro do arcebispo William Temple (1881-1944). Era guiado pela prudência, procurando escrupulosamente avaliar a realidade e por isso deixando um aviso no sentido de que uma leviandade pode conduzir a um inesperado desastre: foi o assassínio, em Sarajevo, na Bósnia, em 24 de junho de 1914, do arquiduque François-Ferdinand, herdeiro do imperador Francisco José..A análise consente concluir que nenhum Estado desejava uma guerra, mas a guerra de 1914-1918 teve ali a primeira causa, levando a quatro anos de conflito arrasador, incluindo centenas de milhares de mortos. É visível que o presidente Trump não usa o conselho com ponderação, confia na sua inspiração, e quando decidiu executar o general Soleimani, que não era uma figura de referência pela defesa dos direitos humanos, foi talvez para conseguir redefinir o processo a caminho do Senado, fazendo reaparecer o respeito por um presidente empenhado num conflito militar..O número de movimentos contra uma nova intervenção militar americana teve imediata expressão em mais de um país diferente do Irão, no qual o general tinha um prestígio oficial conhecido, também não produziu apoio à intervenção, e multiplicou por várias latitudes, não apenas ocidentais, a exigência de prudência e contenção, incluindo a intervenção do Papa Francisco. Mas uma das consequências não previstas da leviandade do presidente em crise foi o erro do Irão ao destruir o avião ucraniano em Shahedshahr, no dia 8 de janeiro, causando a morte de 176 inocentes..Depois de tentada e conseguida investigação, foi surpreendente o reconhecimento pelo Irão, no dia 11 de janeiro, da sua responsabilidade, ficando dramática a intervenção na televisão de um general que se declarou penalizado, e mais desejava estar morto do que sofrendo a culpa pelo desastre do avião..A revolta da população civil, exigindo a mudança de regime iraniano e a paz geral, foi severamente punida e logo acrescentada a intervenção inquiridora, porque o Irão entende dever indemnizar as famílias das vítimas e assegurar o castigo dos erros pelo desastre, do qual o governo se isenta. As reações dos governos das vítimas inocentes são implacáveis nas reclamações, a que a tentativa possível de atribuir causa é imprudência causada pela intervenção americana que não faltará..No Iraque a multidão manifestou-se com o grito contra a América e contra o Irão, havendo queixas contra a falta de defesa da soberania, receando um novo conflito entre os EUA e o Irão, o qual não evitaria atingir de novo o inquieto povo iraquiano. Estas notícias, mais do que poderem provocar uma intervenção de ataque entre governos que assumem interesses contraditórios, quando clamam o "não à América e o não ao Irão" o que exigem é o abandono da leviandade..É possível que nos próprios EUA o presidente não consiga no Senado o tradicional respeito pela intervenção militar, porque cresce o número de cidades que se manifestam pela paz, tal como os Estados europeus, e designadamente aceitando criticamente a nova compostura, mal recebida, com que o presidente se refere ao papel da NATO na hipótese de estar em causa uma agressão aos EUA..Os lamentáveis efeitos da leviandade, que não é única, exigem pensar nas palavras que não são acompanhadas de poder do secretário-geral da ONU, as quais poderão finalmente acordar o Conselho de Segurança para avaliar com rigor e independência estes erros e feitos que resultam em desastres humanos condenados..É certo que o presidente dos EUA se mostrou feliz com o acordo do Tribunal Penal Internacional, que declarou extinto para investigar crimes contra a humanidade porque está recusada a cooperação dos Estados. O Conselho de Segurança não vai avaliar vagas notícias, vai averiguar o respeito pela lei internacional, o agravamento da arena mundial que cresce com as leviandades, a boa orientação relembrada do julgamento de Nuremberga, e o futuro, não só da terra, mas dos seres vivos que não conseguem impor um comportamento que respeite o que podemos chamar "justiça natural"..Já é excessivo o número de "eucratas" que violam os imperativos, que dizem respeito à "terra casa comum dos homens", e devem ter quem a dispense dessa ofensa. Mas nada dispensa da "justiça natural" que, violada, implica o fim da esperança em todas as latitudes, etnias, crenças, e esperanças. Sobretudo o futuro das crianças que do Cairo ao norte dão prova da inocência perdida.