Retirada russa de Kiev expõe rasto de morte e destruição. Papa critica Putin

Irpin e Bucha, nos arredores da capital, são um símbolo de resistência e do horror da guerra. As autoridades declaram o controlo total da região de Kiev, cuja cidade Francisco pondera visitar. A ex-procuradora Carla Del Ponte quer um mandado de captura para Putin.
Publicado a
Atualizado a

A vice-ministra da Defesa da Ucrânia anunciou na noite de sábado que foi retomado o controlo de "toda a região de Kiev" após a retirada das forças invasoras russas que se retiraram de algumas cidades-chave perto da capital ucraniana. "Irpin, Bucha, Gostomel e toda a região de Kiev foram libertados do invasor", disse Hanna Maliar, referindo-se a cidades que foram fortemente destruídas pelos combates. Irpin e Bucha sofreram uma vasta destruição e registaram um grande número de mortos civis. A retirada russa desocultou os horrores da guerra. O autarca de Bucha disse que há 280 corpos em valas comuns e que a cidade está cheia de cadáveres.

Enquanto a Rússia está a retirar-se das áreas do norte e parece estar a concentrar-se no leste e sul da Ucrânia, as autoridades de Kiev dizem que o objetivo de Moscovo agora é cercar as forças ucranianas no leste e ocupar a totalidade das regiões de Kherson, Donetsk e Lugansk. Duas vozes levantaram-se contra Vladimir Putin: o Papa Francisco e a antiga procuradora Carla Del Ponte, o primeiro a criticar as suas "anacrónicas pretensões", a segunda a apelar para o Tribunal Penal Internacional emitir um mandado de captura em nome do líder russo.

A "libertação" de Irpin e de Bucha deu-se à custa da destruição e da morte de quem ficou nas localidades suburbanas, tendo sido palco de alguns dos combates mais ferozes desde que a Rússia lançou a sua ofensiva contra a Ucrânia em 24 de fevereiro. As autoridades ucranianas afirmaram que pelo menos 200 pessoas foram mortas em Irpin, um subúrbio de Kiev, desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em finais de fevereiro. Gostomel, perto da capital, foi o cenário de combates para tomar o controlo de um aeródromo. E agora em Bucha soube-se, segundo indicou o presidente da Câmara, Anatoly Fedoruk, que 280 pessoas tiveram de ser enterradas em valas comuns porque era impossível fazê-lo em cemitérios, porque a população estava exposta aos bombardeamentos russos.

Ao entrarem na cidade, os militares e jornalistas observaram os corpos de pelo menos 20 pessoas em trajes civis espalhados ao longo de centenas de metros numa rua de Bucha, cheia de escombros e cabos de energia no chão. Um carro prateado estava crivado de balas e vários corpos foram encontrados perto de uma carrinha carbonizada. Segundo um jornalista da AFP, que descreve o cenário de Bucha como "apocalíptico", um dos cadáveres estava com as mãos amarradas nas costas. "Aquelas pessoas estavam apenas a andar e dispararam sem qualquer razão. Bang", disse um residente de Bucha à Associated Press, apontando o dedo aos soldados russos.

As autoridades ucranianas disseram desconhecer a identidade das vítimas ou como morreram. "Este território não estava sob controlo ucraniano", disse à AFP um funcionário da região. "Podem ser civis mortos num bombardeamento ou podem ter sido mortos por soldados russos. As forças de segurança vão descobrir", acrescentou.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky advertiu horas antes que as tropas russas em retirada estavam a criar uma situação "catastrófica" para os civis, ao plantarem minas à volta de casas, de equipamento abandonado e "até mesmo dos corpos dos que foram mortos".

Enquanto as forças a norte e oeste de Kiev se retiravam, a Rússia continuou a atacar outros alvos com o poder de fogo aéreo, atingindo infraestruturas como um depósito de combustível e uma pista de aeródromo em Poltava, linha férrea em Dnipropetrovsk, ou um hospital na região de Karkhiv. As forças russas também reprimiram uma manifestação pacífica na cidade ocupada de Enerhodar - onde se situa a maior uma central nuclear da Europa - com granadas atordoantes e disparos, havendo relatos de vários feridos. A população já tinha realizado uma manifestação contra o rapto do presidente da Câmara.

Em defesa da população e das tropas, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos anunciou que vai atribuir 300 milhões de dólares adicionais em "assistência de segurança". O novo pacote inclui sistemas de rockets guiados por laser, drones, munições, dispositivos de visão noturna, sistemas de comunicações, material médico e veículos blindados. Segundo o New York Times, na sequência de um pedido de Zelensky, os EUA decidiram também facilitar a transferência de tanques de fabrico soviético dos aliados para a Ucrânia.

Durante o voo de Roma para Malta, o Papa Francisco disse aos jornalistas que a ideia de viajar para Kiev "está em cima da mesa". A notícia surge horas depois da maltesa Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, ter visitado a capital da Ucrânia, tendo falado na assembleia e mantido reuniões com as mais altas figuras do Estado, Zelensky incluído (que considerou a deslocação da dirigente "heroica"). Caso o pontífice argentino confirme a viagem aceitará o convite que o presidente ucraniano lhe dirigiu há duas semanas, quando Zelensky disse que o Papa é "o convidado mais esperado da Ucrânia". O chefe de Estado ucraniano também pediu à Santa Sé para exercer um "papel mediador" no conflito.

Em La Valleta, Francisco abordou o tema no seu primeiro discurso, referindo-se às "correntes geladas de guerra" vindas do leste. Apesar de não o nomear, pela primeira vez Francisco criticou o presidente russo. "Algumas pessoas poderosas, tristemente fechadas nas pretensões anacrónicas dos interesses nacionalistas, provocam e fomentam conflitos", disse.

Quem também se insurgiu contra o autocrata russo foi a antiga procuradora de crimes de guerra Carla Del Ponte, que lançou um apelo ao Tribunal Penal Internacional para emitir um mandado de captura ao presidente russo. "Putin é um criminoso de guerra", disse Del Ponte numa entrevista ao diário suíço Le Temps.

A suíça, que tem no currículo a investigação de crimes de guerra no Ruanda e na ex-Jugoslávia, defendeu a emissão de mandados de captura internacionais para Putin bem como para outros altos funcionários russos para estes serem responsabilizados pelos crimes de guerra cometidos desde que Moscovo lançou a invasão da Ucrânia, a 24 de Fevereiro. Del Ponte, de 75 anos, disse que o mandado é "o único instrumento existente que torna possível prender o autor de um crime de guerra e trazê-lo perante o TPI", embora reconheça que tal não significa necessariamente que Putin fosse detido. "Se ele permanecer na Rússia, esse nunca seria o caso. Mas seria impossível deixar o seu país, e seria um sinal forte de que tem muitos estados contra ele."

O procurador-geral do TPI, sediado em Haia, abriu uma investigação sobre possíveis crimes de guerra na Ucrânia no dia 3 de março, após ter obtido o apoio de mais de 40 estados.

O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano Luigi Di Maio disse que o seu país está pronto a agir como um dos "estados garantes" da neutralidade num acordo pós-guerra na Ucrânia, tal como solicitado por Kiev. Em entrevista ao Bild, Di Maio disse ter confirmado à homóloga alemã Annalena Baerbock que a Itália está disposta a contribuir "no papel de garante em possíveis soluções de neutralidade". Tanto a Ucrânia como a Rússia solicitaram que Roma fosse um dos "garantes" da aplicação de um eventual acordo de paz entre Kiev e Moscovo, disse o primeiro-ministro Mario Draghi. A Ucrânia quer nesse papel os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha, o Canadá, a Turquia e a Itália.

cesar.avo@dn.pt

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt