Para o alívio dos filmes com Pais Natais, espírito da época e mensagem de concórdia, quem quiser encontrar filmes de forma legal não tem de desesperar. Os filmes sem enfeites continuam por aí e há até quem os programe a pensar naqueles que se recusam a ficar presos à regra. Nestas páginas estão sugestões para desenjoar do chamado "filme de Natal", alternativas para quem procura, literalmente, desanuviar.. Violência à vigilante desenfreado Mas um "filme de Natal" tem que se lhe diga. Há quem tenha apenas pegado no pretexto para fazer precisamente o inverso: o "filme do contra", como é a aposta de John Woo para a quadra, Silent Night - Vingança Silenciosa, estreado nesta altura para servir de contraste. A história é do pai de um menino de 5 anos que o vê morrer na Califórnia após um tiroteio entre gangues de narcotraficantes. Tudo se passa na quadra natalícia e o pai chocado em questão é também alvejado na garganta e fica sem poder falar. Tal como o título indica, o resto do filme é a vingança sem voz que culminará na noite da consoada do ano seguinte. Um John Woo com violência abundante e sem as habituais pombas - apenas um pássaro premonitório para deixar marca de autor. Em vez de musiquinhas de Natal há sons eletrónicos pesados a servir de fundo para uma matança vigilante à moda dos Anos 1980 (será uma veneração ao espírito Death Wish com Charles Bronson?) de um cidadão revoltado. Em suma, menu natalício da "pesada" e sem paninhos quentes.. Uma proposta do contra, é certo, mas com um detalhe desagradável: tem resultados cinematográficos nulos. Os habituais slow-motions do realizador de Face/Off - A Outra Face parecem copy/paste daquilo que a pior série B faz e não há uma única ideia de cinema. Dos filmes em cartaz, é a verdadeira fava do Bolo Rei. Um Pai Natal bêbado e politicamente incorreto Ao longo dos anos, Hollywood costuma ter esta veleidade de querer fazer provocações no período das festas. Das melhores assinale-se, em 2003, o gesto de humor ácido de Terry Zwygoff em Bad Santa - O Anti-Pai Natal, com um Billy Bob Thornton vigarista a fazer-se de Pai Natal em armazéns para depois os roubar. Ganhou capa de novo clássico nos EUA (por cá gerou pouquíssimo culto) e até teve sequela em 2016, Um Pai Natal para Esquecer, de Mark Waters, já sem a verdadeira e única transgressão do original. Se quisermos, a velha máxima do conto de Scrooge pode ter mil e uma variações, mas nem sempre a piada e a mensagem passam. Em Portugal esta é das semanas que os cinemas de centro comercial mais faturam. Não deixa é de ser curioso que nos cinemas de bairro (os poucos que ainda existem nos grandes centros urbanos) estejam em exibição alguns dos melhores filmes de 2023. Esses sim os filmes que são alternativa válida a quem quer ver cinema para além das animações e dos blockbusters para a pequenada. É bom lembrar, ou reforçar, que estão disponíveis obras supremas como O Pub Old Oak, de Ken Loach , Maestro, de Bradley Cooper, e Dias Perfeitos, a redenção absoluta de Wim Wenders, esse sim um exercício de reflexão que pode ser o antídoto ao espírito do consumismo que o Natal convoca..GREMLINS - O PEQUENO MONSTRO (1984), de Joe Dante Onde ver: HBO Max e Prime Video.Estava há dias a pensar com os meus botões que, aos poucos, mas demasiado depressa, o cinema juvenil/familiar tem vindo a tornar-se uma zona higiénica para as consciências. Os rapazes e raparigas deste tempo estão "condenados" a crescer com as ideias todas no sítio, as mensagens bem assimiladas, talvez sem a noção de que um filme pode ser só um filme e não um veículo de recados moralizantes ou - no lado oposto - um conjunto de piadas sem curva de imaginação. É por isto que, em épocas festivas, os filmes que ponho os meus sobrinhos a ver são quase sempre a coisa mais sarapintada de vida dos Anos 80, desde um Carpenter esquecido (Big Trouble in Little China) a Regresso ao Futuro. Vem isto a propósito do Natal e da magia louca que pode ser (re)descobrir Gremlins, essa maravilha caótica de Joe Dante em que uma versão felpuda do E.T., um mogwai de nome Gizmo, quando alimentado depois da meia-noite, gera outras criaturas monstrengas que se divertem a estragar a paz natalícia num daqueles subúrbios americanos à Spielberg. Há poucas farras de subversão como esta - ninguém esquece os Gremlins a cantarem as janeiras ou ajuntados numa sala de cinema, de óculos 3D, a fumar e a comer pipocas, antes de partir a casa toda. INL.CAVALEIROS DA JUSTIÇA (2020), de Anders Thomas Jensen Onde ver: Filmin.Apesar da barba grisalha que ostenta neste filme, Mads Mikkelsen não é o pai Natal, e a época só ganha algum protagonismo quando menos se espera. Brilhante produção dinamarquesa, Cavaleiros da Justiça começa com notas dramáticas, mas o seu coração está do lado da comédia absurda e de uma violência que se corresponde com a ternura. Voilá! É a história de um grupo de personagens psicologicamente quebradas que se ligam através de uma tragédia e agem sobre ela como se estivessem perdidas numa zona da mente dos irmãos Coen. I.N.L..VIVER - IKIRU (1952), de Akira Kurosawa Onde ver: Filmin.Uma das mais belas imagens de Ikiru é aquela em que o protagonista, sentado num baloiço à noite, se deixa cobrir pelos flocos de neve enquanto canta uma velha cantiga. O que quer que se entenda por Natal passa por essa imagem, num filme que combate a desumanidade da burocracia através de um velho funcionário japonês que descobre ter os dias contados... e decide viver. Há um recente remake inglês, com argumento adaptado de Kazuo Ishiguro, mas não se compara à força do original, uma obra-prima intimista de Kurosawa. I.N.L..O ESTRANHO MUNDO DE JACK (1993), de Henry Selick Onde ver: Disney+.Concebido e produzido por Tim Burton, eis o clássico sobre "os espíritos das épocas". Quando Jack Skellington descobre uma portinha que dá para uma cidade chamada Natal, o seu fascínio com a novidade levará a uma confusão identitária que envolve toda a cidade... do Halloween. Haverá melhor fábula em torno do que define uma quadra ou o que nos torna próprios de cada universo? No ano em que completa três décadas, The Nightmare Before Christmas foi acrescentado à coleção National Film Registry, que seleciona filmes para preservação. I.N.L..NÃO HÁ COMO A NOSSA CASA (1944) de Vincente Minnelli Onde ver: Disney+.Se este maravilhoso Meet Me in St. Louis persiste como uma referência emblemática desta (e para esta) quadra, não é porque seja um filme "sobre" o Natal. As referências natalícias estão lá, mas o que mais importa é a colagem de situações melodramáticas, sempre recheadas de humor, protagonizadas por uma família da cidade de St. Louis, no estado do Missouri, do verão de 1903 até ao final do ano seguinte, assim acompanhando a célebre Exposição Universal de 1904 (na origem chamada Louisina Purchase Exposition). Estamos, afinal, perante um dos momentos mais emblemáticos da carreira de Judy Garland (1922-1969), sem esquecer, claro, que em 1939 ela se impusera como uma estrela juvenil em O Feiticeiro de Oz. Impecavelmente dirigida por Vincente Minnelli (viriam a casar-se no ano seguinte, tendo a sua filha Liza Minnelli nascido em 1946), Garland interpreta algumas das canções mais famosas da sua carreira, incluindo The Trolley Song. Da produção de Hollywood na década de 1940, é um dos exemplos mais admiráveis de "fusão" entre melodrama e musical. JL.TUDO BONS RAPAZES (1990) de Martin Scorsese Onde ver: Netflix.A obra-prima de Scorsese sobre o mundo dos gangsters consegue ser tanto mais trágica e perturbante quanto nos convoca para um intimidade realmente familiar, feita de perversas fidelidades e traições. Na cena de Natal, James Conway (Robert De Niro) está irritado porque alguns dos seus homens desataram a gastar dinheiro com coisas caríssimas, correndo o risco de atrair a polícia... Na banda sonora, escutamos o clássico Christmas (Baby Please Come Home), na voz de Darlene Love, produzido por Phil Spector. J.L..EDUARDO MÃOS DE TESOURA (1990) de Tim Burton Onde ver: Disney +.Para muitos, as mãos de tesoura de Edward (Johnny Depp), com as suas lâminas afiadas, são uma ameaça que importa anular, mas Kim (Winona Ryder) nelas descobre os instrumentos de uma poesia encantada e encantatória. Assim, pelo Natal, Edward faz um anjo em gelo, de tal modo que as lascas da sua escultura se espalham pelo ar, como flocos de neve... É, por certo, um dos filmes mais belos e comoventes de Tim Burton, num registo de fábula que celebra o cinema como máquina de uma magia estranhamente humana, demasiado humana. J.L..OS ANOS SUPER 8 (2022) de David Ernaux-Briot Onde ver: DVD Midas Filmes.Ao longo da década de 1970, e até 1981, a família de Annie Ernaux, Nobel da Literatura em 2022, usou regularmente uma máquina de filmar de formato amador (Super 8). Das férias na praia até às festas de Natal, passando pelo labor na cozinha, assim nasceu uma colecção privada de filmezinhos agora recuperados por David Ernaux-Briot, filho da escritora. O resultado é uma narrativa intimista que, ao mesmo tempo, reflecte de modo subtil a evolução dos usos e costumes, e também das sensibilidades políticas. J.L..dnot@dn.pt