"Os portugueses têm uma forma de ver o azulejo que o torna único"

Brunch com o diretor do Museu Nacional do Azulejo, Alexandre Pais.
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Estamos sentados numa mesa no Jardim de Inverno do Museu Nacional do Azulejo e Alexandre Pais, o diretor, conta-me que nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, em 1966. A sorrir - por saber que me vai surpreender - diz que o pai era jornalista, trabalhava no Notícias, importante diário no tempo colonial que continuou a ser publicado depois da independência moçambicana em 1975. A mãe, por seu lado, trabalhava em seguros e o casal conheceu-se em Moçambique, ambos vindos de Portugal. "O meu pai, um pouco aventureiro, passou pela Guiné-Bissau, trabalhou numa fazenda no então Congo Belga e só depois foi para Moçambique".

"Lembro-me de um dia, era muito pequeno, ir com o meu pai e encontrarmos na rua o Guilherme de Melo, que foi mais tarde jornalista no Diário de Notícias", diz Alexandre, calculando que conheci o Guilherme e, sim, tem razão. Ainda me recordo de conversar com ele na redação, onde era um veterano respeitado, mas com as suas famosas gargalhadas. Também - comento com Alexandre - recordo como se tratava de um homem corajoso, que assumiu a homossexualidade numa época onde tal era raro, e chegava a ir à televisão quase como porta-voz da comunidade LGBT.

Estou a beber um sumo de laranja e o meu anfitrião come um pudim. Há uma cafetaria no Museu que beneficia muito da popularidade dos azulejos portugueses, sobretudo entre os turistas estrangeiros. "Somos o Museu mais visitado da Direção Geral do Património Cultural", alerta-me Alexandre, mas já lá iremos. Agora interessa-me saber como é que o miúdo que tinha oito anos quando Moçambique declarou a independência veio para Lisboa. "Bem, de início não foi logo Lisboa. Os meus pais perceberam que as coisas não iam dar certo lá, a partir da Revolução que ocorreu em Portugal, quando tudo se complicou em Moçambique. Aproveitaram umas férias já marcadas, vêm a Portugal e tomaram a decisão de não voltar. Isto ainda em 1974. E perdemos tudo. Vivemos cá em 11 sítios diferentes no espaço de dois anos. Há uma primeira tentativa de nos fixarmos no norte, onde havia família, mas acabámos por vir para a Grande Lisboa, onde morámos em vários sítios", explica.

Filho único, Alexandre perde o pai muito jovem, conta-me. E isso obriga-o a trabalhar para ajudar em casa. Está já a trabalhar numa companhia de seguros - por influência materna - quando entra na Universidade de Lisboa para estudar História da Arte, mas de repente surge uma oportunidade que não só o liberta dos Seguros - que não o entusiasmavam - como acaba por determinar a carreira: "o momento de sorte foi que eu me tinha inscrito no Instituto de Emprego e Formação Profissional na Ocupação de Tempos Jovens para arranjar emprego. Aí, surgiu uma vaga no Palácio da Pena para essa atividade de ocupação de tempo jovem no ano de 1986. Aceitei, obviamente. Telefonaram para casa, disseram à minha mãe que precisavam de falar comigo com urgência e que tinha de me inscrever até ao final do dia. A minha mãe ligou para a universidade e conseguiu, não sei como, que uma contínua fosse à minha procura e interrompesse a aula, dizendo-me para ir ao telefone, mas para não me assustar. Isso foi muito interessante. Porque o primeiro pensamento é logo que aconteceu alguma coisa... São nove meses nesse emprego e depois dão-me a possibilidade de continuar a recibos verdes. Fiquei lá sete anos. E sempre a recibos verdes".

Isto dos recibos verdes, sublinha Alexandre, "é muito importante, pois mostra como muitas vezes é tudo muito precário em Portugal, e sobretudo nesta área da cultura. Foram ao todo 12 anos a recibos verdes, porque depois mudei do Palácio da Pena para aqui, para o Museu do Azulejo, e a esse nível continuou tudo igual. Só estabilizei em 1999 com a integração na Função Pública, com o decreto do engenheiro António Guterres, que era o primeiro-ministro, para absorver as pessoas que já trabalhavam para o Estado".

Entretanto, os estudos prosseguiam, e depois da licenciatura na Clássica, seguiu-se o mestrado na Nova e o doutoramento na Católica. Curiosamente, explica Alexandre, tudo foi de certa forma pensado desde muito cedo. "Eu ainda estava no 9º ano de escolaridade quando fui ao Ministério da Educação ver os currículos dos cursos que me interessavam, que eram História da Arte ou Arqueologia. Decidi então que iria fazer História da Arte na Universidade Clássica; se fizesse um dia mestrado seria na Universidade Nova porque o currículo era mais interessante; e tinha pensado fazer o doutoramento no estrangeiro. Como não tinha capacidade económica para isso, acabei por ficar aqui e fazê-lo na Universidade Católica". Pergunto qual o título da tese. "É uma frase - "Fabricado no Reino Lusitano o que antes nos vendeu tão caro a China": a produção de faiança em Lisboa, entre os reinados de Filipe I e D. João V".

Tive a ideia deste brunch - desta vez um lanche - ao encontrar Alexandre uns dias antes no Dia Nacional da Croácia, organizado pela embaixadora Anita Trsic, que teve um momento musical na belíssima igreja da Madre de Deus, que faz parte do Museu, um antigo convento. Aliás, é comum os diplomatas ficarem fascinados com o local quando são convidados e depois acabam por querer também organizar algo. Por vezes, acontece mesmo uma cooperação cultural mais estreita entre Alexandre e certas embaixadas. A Roménia decidiu mesmo - e não foi o próprio que me contou - que a embaixadora Ioana Bivolaru iria condecorar o diretor do Museu Nacional do Azulejo.

Alexandre assumiu a direção vai fazer em agosto dois anos. Explica que "foi um concurso internacional a que podiam concorrer pessoas de todo o mundo. Até quatro meses antes do concurso eu dizia que não ia concorrer porque não me interessava ser diretor. Eu gosto do trabalho de investigação, do trabalho técnico, mas sempre coordenei equipas e posso garantir ser apaixonante lidar com os desafios daquele que é já o Museu mais visitado em Portugal. Somos também o quinto equipamento do Ministério da Cultura mais visitado. Só somos ultrapassados pelos Jerónimos, Torre de Belém, Convento de Cristo e Mosteiro da Batalha".

Abril, sublinha Alexandre com óbvia satisfação, foi o mês recorde em termos de receita, ou seja, em número de receita de visitantes e em número de receita de loja. Pergunto o que é que torna este museu especial, e tão popular, apesar de ficar na zona do Beato, bairro lisboeta onde ainda há poucos anos era difícil ver um turista. "Foi feito um inquérito aos museus há uns anos, antes da pandemia, que consistiu em questionários diários para se tentar identificar as características dos museus. O Museu Nacional do Azulejo surgiu logo com duas ou três características que o diferenciam. Uma delas é o número de estrangeiros. Que são muitos mais do que os portugueses. Querem saber mais dos azulejos portugueses, mas a exposição não começa por azulejos portugueses, mas sim espanhóis do séc. XVI. Nos primeiros 60 anos do azulejo, o português não existia, só o espanhol que é o que vem para Portugal. O que acontece é que os portugueses têm uma forma de ver o azulejo que o torna único em relação a todos os outros países. Não somos os mais antigos, não somos os primeiros produtores, mas tivemos um entendimento do azulejo que nos diferenciou sempre. Se pensarmos, por exemplo, no norte de África, eles produzem há mais tempo que nós e continuam a produzir, só que há momentos de apogeu e depois uma repetição de modelos, o que é verdade para outros países também. Os azulejos em Portugal têm uma particularidade que é nós termos sempre produção e esta vai-se modificando ao longo do tempo apostando em novos conceitos, novos gostos, novas estéticas e novas preocupações. Ao longo dos séculos vemos que cada um tem a sua própria identidade. De forma grosseira podemos dizer que cada século tem uma identidade própria, característica, que o diferencia dos outros séculos e o azulejo tem essa aplicação muito específica. Nós conseguimos dizer que, especificamente, no séc. XVI estamos a experimentar; no séc. XVII são os padrões que predominam; no séc. XVIII é o azulejo narrativo; no séc. XIX é o azulejo que vem para o exterior das cidades, para as fachadas; no séc. XX é o azulejo de arte pública, em que os autores começam a produzir exprimindo a sua própria linguagem e estética. No séc. XXI já estamos a perceber que o azulejo está com novos conceitos. Se no séc. XX é a arte pública, no séc. XXI é a arte urbana que parece determinar o rumo, ou seja, já temos grafiteiros a fazer azulejo, o que é muito interessante, pois a produção do grafiti é o efémero e o azulejo a permanência. Hoje pode pintar-se sobre uma superfície de azulejo, sim, ou podemos usar outras metodologias, porque a mudança agora não é só temática, não é só estética, não é só de posicionamento político, embora seja, em alguns casos, muito mais politizada, pois podemos encontrar o azulejo muito mais comprometido do que era no séc. XX. Agora há também aspetos técnicos, por exemplo, nós temos neste momento uma exposição em que alguns setores mais puristas dirão que o que estamos a expor não é azulejo. Porquê? Porque o artista fez fotografia e imprimiu-a na azulejaria. Ele não pinta, é foto impressão".

Falámos já dos azulejos. Falemos agora do edifício que lhes serve de casa. Diz o diretor do Museu: "Isto era um convento de Clarissas, o Convento da Madre de Deus, muito importante, era de proteção régia. Foi fundado por aquela que considero a nossa rainha mais fascinante e a mais importante, a Rainha D. Leonor, mulher de D. João II. Funda a Misericórdia, que é uma coisa extraordinária. Em termos europeus não existe nenhuma estrutura de apoio social que subsista quinhentos e tal anos. Estamos a sair da Idade Média e esta preocupação social é impressionante... Funda também o Hospital das Caldas da Rainha. Mais uma vez a preocupação com a saúde. Protege Gil Vicente, portanto o primeiro teatro português é feito com o seu patrocínio, é ela que o financia. As primeiras obras impressas em Portugal são financiadas por ela, além de outras coisas. É, de facto, uma figura extraordinária. Está aqui enterrada".

Sobre a igreja da Madre de Deus, onde há aqueles concertos espetaculares, como o do grupo croata de vozes a cappella Klapa Sagena, pergunto se é só a beleza que ajuda ou é também a acústica? "Não só a igreja, mas várias áreas do convento foram pensadas para a voz. Nós percebemos pela documentação que havia características específicas para ser freira aqui. O número era muito limitado, só podiam estar dentro do convento 33 mulheres, inicialmente não eram tantas, só depois, mais tarde. Elas não tinham criados, viviam sozinhas aqui dentro e tinham de ter duas características: ou eram da mais alta nobreza ou eram mulheres que, não sendo da nobreza, eram cultas, tinham de saber ler, escrever... A cultura era fundamental, e isto também nos diz muito sobre a rainha, elas podiam ser das melhores famílias, mas se não soubessem ler nem escrever não entravam. Por isso é que ela foi buscar outras mulheres que não eram da nobreza, mas que, por serem cultas e se distinguirem pela sua inteligência, pelo seu espírito, podiam professar nesta casa. Essa era a característica fundamental. A terceira, que não é tão evidente, mas que nós percebemos pela documentação, é a voz. Elas cantavam a cappella e portanto, todo o convento é quase uma caixa de ressonância. A voz era fundamental neste convento. Normalmente, as freiras cantam no coro e quando terminam saem, mas neste não. Por exemplo, no coro alto, que era onde elas cantavam a cappella, elas não eram observadas porque aquilo era fechado, saíam do coro a cantar. Há várias descrições do efeito cénico e as pessoas que ouviam as vozes a desvanecer diziam que elas eram de tal maneira santas que no final de cada missa iam para o céu. A questão da voz, a questão do som, é fundamental no convento e a acústica também", explica quem se percebe que conhece todos os recantos da casa, até os históricos.

Confesso a Alexandre - e a conversa está mesmo a terminar - que fico sempre muito fascinado quando vejo aqueles azulejos na Estação de São Bento, no Porto, que contam episódios da História de Portugal. "É uma peça muito inteligente, que depois será repetida no metropolitano. Quando o comboio entra em Portugal, as pessoas têm medo de o apanhar. Portanto, alguém pensa em transformar a estação numa espécie de palácio, para que a população, tendo azulejos, se sinta mais em casa, entre no espaço e vá apanhar o comboio. Tem uma função social e também educativa e pedagógica. Nós temos aí a história dos transportes públicos a mostrar que o comboio é o último grande transporte, que começa no cavalo, no burro e daí até ao comboio. Portanto, temos a história dos transportes, temos os pontos principais da História de Portugal relacionados com a proximidade geográfica da estação, as estações do ano, etc. Assim, aquilo tem essa função, como vai o metropolitano ter depois. A utilização do azulejo no metropolitano é exatamente a mesma coisa. Era muito difícil as pessoas descerem para debaixo de terra para apanhar o comboio se não existisse qualquer coisa que as fizesse sentir um pouco mais confortáveis e, para nós portugueses, o azulejo é confortável. O que não deixa de ser interessante porque os portugueses não vêm ao Museu. Nós não conseguimos ter a percentagem, mas calculamos que 7 em cada 10 nunca vieram ao Museu. Quando as pessoas cá vêm e nós fazemos a visita, fazemos sempre este exercício: Quem é que nunca veio ao Museu? As pessoas depois justificam-se dizendo que vão a todos os sítios, mas que este está fora de mão ou não dá jeito, etc. mas, de facto, o azulejo é uma coisa que está tão próxima de nós que pensamos porque é que havemos de ir ao museu...".

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