É descrita como a maior crise em Hong Kong desde os motins de 1967, quando os confrontos entre Guardas Vermelhos e autoridades coloniais britânicas resultaram em 51 mortos e centenas de feridos. Para já, ainda não houve mortos, mas há quem tema que isso possa vir a acontecer se não for colocado um travão à escalada de tensão entre a fação jovem mais radical dos manifestantes, a polícia e agora os novos atores que entraram em cena no passado domingo: alegados membros de tríades que atacaram indiscriminadamente passageiros na estação de metro da zona rural de Yuen Long, entre eles vários manifestantes que regressavam a casa após mais um dia e uma noite de protestos que desembocaram em confrontos violentos com a polícia. Um mês e meio após o início das manifestações contra a polémica lei da extradição, a situação evoluiu de tal forma que o motivo original dos protestos deixou de ser central..Para além da lei da extradição.Após centenas de milhares de pessoas nas ruas em junho - um a dois milhões segundo os organizadores das manifestações -, a chefe do executivo de Hong Kong, Carrie Lam, acabou por anunciar a suspensão do diploma da discórdia. Mas isso não foi, de modo algum, suficiente para que a rua ficasse satisfeita. Centenas de milhares continuaram a desfilar - na grande maioria de forma pacífica - exigindo a retirada da lei e não apenas a suspensão e a demissão de Carrie Lam pela gestão política do processo. Entre as exigências dos manifestantes está também a abertura de um inquérito independente à ação da polícia - acusada de utilização excessiva da força..Radicalização do movimento.A ala mais radical do movimento, que se tem envolvido repetidamente em manifestações não autorizadas que terminam em confrontos com a polícia, passou entretanto a ter como alvo símbolos do poder não apenas da Região Administrativa Especial de Hong Kong mas também da própria República Popular da China. Foi, desde logo, o caso da invasão e da vandalização do Parlamento (Conselho Legislativo) no dia 12 de junho, e mais recentemente, a 21 de julho, os atos de vandalismo e desfiguração do emblema nacional da China, na representação oficial do governo de Pequim em Hong Kong. Essa noite de domingo acabaria por terminar com um inesperado ataque por parte de dezenas de homens vestidos de branco, alegadamente ligados a uma tríade na zona rural de Yuen Long, no norte de Hong Kong, perto da fronteira com a China continental. Estes atacaram passageiros - entre eles manifestantes e outros cidadãos - ferindo mais de quatro dezenas, num incidente que chocou Hong Kong e que motivou suspeitas, por parte da oposição pró-democracia, de conluio entre a polícia e os atacantes, alegações rejeitadas pelas autoridades. Em causa esteve o facto de a polícia ter chegado cerca de meia hora após ter sido chamada ao local, tempo suficiente para que o ataque tivesse tido lugar..Crise de legitimidade.Sonny Lo, cientista político e professor na Universidade de Hong Kong, não tem dúvidas de que Hong Kong enfrenta uma "crise de legitimidade nunca vista". Lo argumenta que os eventos ocorridos ao longo das últimas semanas "expuseram as fragilidades da polícia de Hong Kong e a forma incongruente como esta tem lidado com as situações de protestos mais violentos"..O caso do ataque de domingo dos "camisas brancas" gerou um ambiente de grande tensão social. Crescem os receios de novos confrontos, já neste sábado, após a polícia ter rejeitado o pedido de organização de uma manifestação - algo raro, uma vez que normalmente os protestos são autorizados - para a zona rural de Yuen Long. Esta tornou-se o centro das atenções nestes dias. A polícia já deteve sete alegados atacantes, mas os organizadores insistem em levar a cabo uma marcha..De Pequim vêm palavras duras de condenação dos atos violentos por parte dos manifestantes radicais e uma mensagem que dominou o debate público nos últimos dias: se a situação se agravar, atingindo uma situação de caos generalizado, o Exército Popular de Libertação pode entrar em cena, a pedido das autoridades de Hong Kong..Vários analistas consideram que estamos ainda longe desse cenário. Sonny Lo sublinha que se isso vier a acontecer, "se o Exército for chamado a intervir para ajudar a polícia local a impor um recolher obrigatório ou a repor a ordem pública através da declaração de estado de emergência, o princípio "um país, dois sistemas", que governa o estatuto de Hong Kong, sairia severamente prejudicado".. * Plataforma Macau