Entre Xi Jinping, o presidente que agora celebra os 70 anos da República Popular da China, e Mao Tsé-tung, o líder revolucionário que em 1949 pôs fim a um século de intervenções estrangeiras e guerras civis, há um nome que toda a gente conhece no seu país mas que fora é ainda muito injustamente esquecido: Xi Zhongxun..Sim, o apelido em comum com o poderoso Xi que manda no mais populoso país do mundo não é uma coincidência. É o pai do número um chinês. Mas também foi um dos companheiros de guerrilha de Mao, desde os tempos da Longa Marcha..Ora, Xi pai ( que morreu em 2002, dez anos antes do filho ascender à posição máxima) tem grande mérito no sucesso em que se transformou a República Popular da China. Foi ele quem como governador da província de Guangdong, vizinha de Hong Kong e de Macau, primeiro viu a necessidade de reformas económicas que não pondo em causa o sistema comunista permitissem o progresso tão desejado. E conseguiu convencer Deng Xiaoping, o dirigente pragmático que emergiu após a morte de Mao em 1976, a avançar com as zonas económicas especiais, a primeira delas em Shenzhen, antiga vila piscatória que hoje tem mais habitantes do que Portugal e é sede de empresas gigantes como a Huawei..Não tardou muito que o engenho chinês e a capacidade de trabalho do povo que até ao início do século XIX tinha o país mais o rico de todos criasse taxas de crescimento económico de 10% anuais, qualquer coisa como a duplicação do PIB a cada sete anos, um verdadeiro milagre quando se pensa que se trata de 1400 milhões de pessoas..Na celebração em Portugal deste aniversário, em cerimónia realizada em Lisboa na sexta-feira, o embaixador Cai Run recordou no seu discurso que nos 70 anos desde a criação da República Popular o PIB chinês multiplicou-se 175 vezes. E mais importante ainda, creio, o diplomata sublinhou que isso significou tirar 700 milhões de pessoas da miséria, uma conquista nas últimas quatro décadas não só chinesa mas da humanidade e que obriga muitos a dosear as críticas ao sistema de governação de Pequim..Estes números, que dão já à China o estatuto de segunda economia mundial, têm a sua longínqua origem naquele 1 de Outubro de 1949 em que Mao proclamou a República Popular. E foi por isso, e também por uma questão de legitimação do papel dirigente do Partido Comunista Chinês, que Xi filho, que conhece e respeita a história, prestou ontem homenagem a Mao, cujo legado como governante até à sua morte é polémico, com resultados económicos sofríveis e uma política permanente de purgas aos quadros do PC Chinês que não poupou nem Deng nem Xi pai..Hoje a economia chinesa já não cresce a 10% ao ano, mas o país continua ambicioso. Os seus líderes olham para 2049, o ano do centenário do triunfo da revolução, como aquele em que será atingido o desejado patamar do desenvolvimento ao nível do que existe no Ocidente, em especial no rival Estados Unidos, ainda número um e muito mais prósperos em PIB por habitante..Nesse momento mais do que provavelmente, a China terá voltado a ter o maior PIB de todos, como nos tempos de Qianlong, o último grande imperador, aquele que antecedeu o século final de decadência da dinastia Qing marcado pela semicolonização do país, a começar pela conquista de Hong Kong pelos britânicos. Também a reunificação da mãe-pátria, com Taiwan um dia a seguir de alguma forma o exemplo de Hong Hong e Macau (reintegradas em 1997 e 1999), está no horizonte, como relembrou ontem numa cerimónia o presidente chinês, sabendo que o mundo está de olhos nele nesta data especial..A grande dúvida agora é se o sucesso económico chinês trará neste espaço de 30 anos até essa tão aguardada efeméride as liberdades que (além de seduzirem os taiwaneses para a fórmula um país, dois sistemas que está a ser testada sobretudo em Hong Kong) permitam debater dentro de fronteiras e sem tabus o papel de Mao, sem dúvida uma das figuras incontornáveis do século XX.