Onde sentar aqueles dois que não se falam? Não pense que, lá porque é Natal, as pessoas têm de estar todas em harmonia umas com as outras. Como lidar com essa situação na noite da consoada? "É preciso respeitar que haja pessoas que estejam cada uma para o seu lado. Não se deve forçar um bem-estar que não é real. As pessoas têm direito a não estar bem", diz a terapeuta familiar Catarina Mexia. Para esta psicóloga, não faz sentido pôr lado a lado na mesa pessoas "que nada têm para dizer uma à outra". Embora o Natal seja, tradicionalmente, uma época de amor, solidariedade e alegria, é "um mito" achar que todos têm de estar bem só porque é Natal. Além de que não está nas suas mãos resolver as desavenças. Antes de decidir sentar o seu irmão ao lado do cunhado com quem ele não fala, ouça qual é a vontade deles. Para a psicóloga Filipa Jardim da Silva, da Oficina de Psicologia, o ideal é que a família reflita antes do jantar. "Quando há zangas, é importante que haja planeamento, envolvendo as pessoas que não se falam e responsabilizando-as numa ideia de respeito com a família." É certo que há famílias que "reparam conflitos à boleia do espírito de Natal", mas essa não é a regra. Sandra Belo, psicóloga e coach na Family Coaching, sugere que "se deixe as pessoas escolherem o seu lugar, onde se sentem melhor", ou se faça um jogo no qual cada um tira um cartão, que corresponde a um determinado lugar na mesa. O anfitrião não se deve responsabilizar. "Será que sei o que é melhor para o outro? Ou ele tem capacidade para escolher o melhor para si?" O que fazer para que o novo sobrinho se sinta integrado? A sobrinha casou-se e há um novo membro na família. "Podem existir dificuldades de integração, pelo que é importante ir buscar os recursos, as potencialidades da pessoa", propõe Catarina Mexia. Tente perceber se o João tem aptidão para a cozinha ou se, pelo contrário, é um especialista em cocktails. "Se for para integrar a pessoa, devem aproveitar-se as suas potencialidades para que se sinta útil naquele jantar", afirma a terapeuta. Tenho mesmo de dar prendas à família toda? Até 2013, Raquel Martins e o marido compravam quase 40 presentes para oferecer à família no Natal. "Cada núcleo familiar dava prenda a todos os membros da família. Acabávamos por quase só dar lembranças." Há três anos, esta professora primária propôs outro esquema. Agora só dá prendas ao marido e à filha, aos pais, aos avós, às crianças e ao seu "amigo invisível". "Para essa pessoa, o limite são 30 euros, o que permite dar um presente melhor e personalizado". Todos sabem a quem têm de dar, mas ninguém sabe de quem é que vai receber. "É segredo total. Na troca de prendas, acaba por ser mais divertido." As crianças têm mais sorte: recebem prendas de todos. Destacando que, muitas vezes, "há um exagero" no número de prendas que se compram e se recebem, a psicóloga Filipa Jardim da Silva sugere jogos como o amigo secreto. "São alternativas que mantêm o simbolismo e a magia das prendas, sem um exagero consumista." Cada família deverá optar pelo modelo que considera adequado para si, "que não seja baseado na obrigatoriedade, porque sempre deu ou porque sabe que vai receber". Criar uma história, uma peça de teatro, um desenho ou fazer uma sobremesa podem muito bem ser prendas de Natal. Já a coach Sandra Belo sugere trocas de prendas - livros ou coisas feitas por si - com algumas regras definidas. Mas não se sinta obrigado a dar a toda a gente que está no jantar. "As pessoas têm de se sentir confortáveis com aquilo que vão dar. Se vou dar porque me obriga, é uma seca. É suposto estar tranquilo, relaxado, feliz." Para uns pode fazer sentido dar a todos, para outros não. Não sabe o que fazer para fugir ao tédio na noite de 24?.O jantar é o mesmo de sempre, as pessoas não mudaram, a rotina é exatamente igual. Pior ainda, os miúdos já cresceram. Mas, calma, ainda pode transformar o Natal numa noite memorável. "Em vez de ser chato e monótono, o Natal é uma excelente altura para jogos. É uma boa forma de quebrar o gelo e, quando há miúdos, de os tirar da frente dos computadores", afirma Catarina Mexia, destacando jogos como o Pictonary ou o Trivial, "que permitem formar grupos e que as pessoas se divirtam". Outros jogos de palavras ou de "adivinhar filmes através de mímica" podem envolver todos os elementos da família e tornar a noite mais divertida. Se já não existirem crianças, "porque não recuperar as memórias da família?" Uma boa opção, mas que nem sempre é válida, uma vez que "cada vez há mais famílias recompostas" e ainda com poucas memórias juntos. Nesse caso, se calhar o melhor mesmo é procurar um jogo no qual todos possam participar. "A ideia que se vende do Natal enquanto festa da família tem cada vez menos eco naquilo que é a realidade das famílias atualmente." Quando é o jantar, é em minha casa? Os jantares de Natal da família de Raquel Martins alternam entre a casa dos pais e de outros dois tios. É assim desde sempre. "O sítio onde as famílias se reúnem gera muitas vezes problemas", diz Filipa Jardim da Silva. O melhor, refere a psicóloga, é que haja flexibilidade e que as pessoas estejam "abertas à discussão". Se o jantar for feito "de forma rotativa", acaba por agradar a todos. "Há famílias em que a rotatividade é em torno de três casas, outras em que é sempre na mesma casa, mas mudam os responsáveis pelo jantar."