As cidades precisam de ser adaptadas para enfrentar os desafios provocados pelas alterações climáticas e as mentalidades de mudar. É com o objetivo de sensibilizar os responsáveis políticos, as instituições e os cidadãos para a necessidade dessa alteração que a Área Metropolitana de Lisboa tem em preparação o Plano Metropolitano de Adaptação às Alterações Climáticas, tema que estará hoje em análise numa conferência internacional em Setúbal..As vulnerabilidades e os desafios a que o combate às mudanças climáticas obriga e as experiências em curso em Barcelona (Espanha), Frankfurt am Main (Alemanha) e na Área Metropolitana do Porto vão ser temas do evento marcado para o Fórum Luísa Todi, com início marcado para as 10.00 e encerramento às 16.30 com a intervenção do ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes..A liderar este projeto está Carlos Humberto de Carvalho, o primeiro-secretário metropolitano da AML, que em entrevista ao DN fala do trabalho que já foi feito e do que ainda está pela frente, como a dificuldade em mudar "a nossa cabeça, que é sempre o mais difícil"..Qual é o objetivo deste Plano Metropolitano de Adaptação às Alterações Climáticas?.Por um lado, capacitar do ponto de vista científico a instituição Área Metropolitana de Lisboa, os municípios, as várias entidades que têm intervenção sobre as questões ambientais, dar-lhes conhecimento técnico e científico. Depois é disseminar essa informação, levar a informação a todas as entidades. E como terceiro objetivo queremos fazer chegar essa informação a todos os cidadãos..E como têm feito essa divulgação?.Temos realizado um conjunto de iniciativas sempre com a ideia que é preciso construir o Plano com as entidades, com as instituições, com os cidadãos. Já realizámos 18 workshops, um por município, fomos a todos os concelhos conversar sobre esta matéria, levar a informação que temos seja técnica ou cientifica. Não fizemos só a caracterização da região como do território municipal. Fizemos também nove workshops setoriais sobre diversas matérias e seis técnicos. E esta é a segunda de três conferências internacionais sobre o tema..Quais são as principais dificuldades que as cidades da Área Metropolitana enfrentam no combate às alterações climáticas?.A questão central é a adaptação, é preciso ver as medidas que cada território, cada instituição deve ter em conta na sua ação de intervenção no terreno. Todos sabemos quais os acontecimentos com impacte na vida a este nível: a subida do nível das águas, ostsunamis, os incêndios que às vezes não se percebe muito bem como começam. O resultado final do Plano é responder a esta necessidade. Quais são as medidas a tomar; os projetos; as respostas concretas..Na prática estamos a falar de.....Por exemplo, a subida do nível da água, sejam as frentes ribeirinhas ou atlânticas. Vamos continuar a construir [nestas zonas]? Vamos subir a contenção marginal dessas frentes de água?.Bem, Almada tem um projeto denominado Cidade da Água, que é um megaprojeto imobiliário na zona onde estiveram os estaleiros da Lisnave....Temos imensos problemas, não quero pronunciar-me sobre casos..Não é só a subida do nível das águas que preocupa....Há as ondas de calor. Não podemos deitar abaixo as cidades, mas temos de ver quais são os passos que precisamos de dar. São necessários espaços amplos e arborizados que permitam responder melhor às ondas de calor. Precisamos de criar corredores que permitam que as ondas mais frescas possam chegar ao interior das cidades..Que desafios a Área Metropolitana enfrenta?.Claramente as temperaturas, claramente a questão dos fogos, os deslizamentos de terras, as florestas. Esta é uma questão absolutamente central, temos três ou quatro zonas importantíssimas, particularmente a Arrábida (Setúbal, Sesimbra, Palmela) e os parques ambientais como a serra de Sintra (Sintra, Mafra, Cascais)..Temos de reorganizar as nossas cidades?.Não diria reorganizar, mas é preciso ver o que é preciso fazer para as adaptar a estes novos fenómenos. Cada vez vai haver mais calor, vão existir mais fenómenos ligados aos fogos, a questão das águas. E é preciso que, paralelamente ao Plano Metropolitano, cada município faça o seu plano. Há quem já o tenha feito, outros estão a fazê-lo e quem ainda não fez vai ter uma parte substancial feita..E há prazo para o Plano Metropolitano ser implementado?.Não. Quanto muito terá um prazo em que precisará de ser revisitado. Estas medidas são estruturais e difíceis de concretizar pois têm que ver com a nossa cabeça, o que é sempre mais difícil. Algumas medidas têm de se ir fazendo. Não é uma adaptação, é uma mitigação..Têm encontrado dificuldades no avanço dos trabalhos do Plano?.Estas coisas têm de ser concretas, não podem ser só conceção, princípios. Ao nível do conceito, da sensibilidade de quem decide diria que estamos a vencer a batalha. O que me parece mais difícil é depois quando passamos às decisões concretas..Como?.Ou porque há decisões que vêm de trás ou compromissos já assumidos ou porque não há meios suficientes. Há uma dificuldade prática. Existem muitas forças de sentido diferente. O mais difícil de mudar, ainda mais difícil do que qualquer obra concreta, é a nossa cabeça. A gestão de uma região ou município só pode ser feita com as pessoas e as entidades locais, portanto temos de exigir que se cumpram [as decisões], mas temos de perceber a dificuldade desta exigência.