Vivemos um tempo de muitas nostalgias. E também de futurismos mais ou menos especulativos. Mas apesar da nossa ânsia de perscrutar o futuro - ou talvez por isso mesmo -, a nostalgia ajuda-nos a não deixar morrer as memórias, a reter as lições do tempo que passa..Acontece agora com um filme tecido a partir de memórias de outro filme. Ou seja: o francês Claude Lelouch, 84 anos, faz Os Melhores Anos da Nossa Vida como um revisitação de Um Homem e uma Mulher, por certo o seu título mais emblemático, e também mais lendário, vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 1966..Em Um Homem e uma Mulher, Lelouch encenava a relação romântica das personagens interpretadas por Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée - ele um piloto de automóveis, ela uma assistente do mundo do cinema, ambos viúvos. Conhecem-se porque a filha dela e o filho dele frequentam a mesma escola, acabando por protagonizar uma convulsiva história de amor..Em Os Melhores Anos da Nossa Vida, o par regressa, de novo interpretado por Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée - ela visita-o num lar para a terceira idade e o seu reencontro envolve um misto de desencanto e burlesco. Isto porque a passagem dos anos marcou de forma indelével os olhares e os corpos, ainda que a sua relação surja temperada por um desconcertante humor, habitado por um ancestral desejo de viver e partilhar afetos e ideias com o outro..Apesar da sua imensa filmografia (este é o seu 49º filme), Lelouch fica quase sempre esquecido, para não dizer maltratado, quando se aborda a produção francesa dos anos 60/70. A sua obra, convenhamos, está longe de ter a importância histórica e simbólica dos seus contemporâneos da Nova Vaga (Godard, Truffaut, Rivette, etc.). O certo é que alguns dos seus filmes, a começar por Um Homem e uma Mulher, precisamente, são ilustrações ágeis de um contexto de muitas transformações nos modos de fazer cinema, a começar pela utilização de câmaras mais ligeiras, suscetíveis de gerar ficções marcadas por derivações de caráter documental..Há, sobretudo, em Lelouch um gosto pelas singularidades dos atores que, a meu ver, neste nosso presente de muitas futilidades digitais, corresponde a um fundamental valor humano. Dito de outro modo: Os Melhores Anos da Nossa Vida devolve-nos o prazer de contemplarmos a vulnerabilidade dos intérpretes face a uma câmara. É uma dádiva que Trintignant e Aimée assumem como uma celebração do amor pelo cinema..* * * Bom