Lobos versão 2023. Mais profissionais e com mais hipóteses de fazer história

Portugal estreia-se hoje diante do País de Gales. José Madeira é baixa, mas Samuel Marques será titular. Rui Cordeiro elogia seleção e recorda ensaio aos All Blacks no Mundial 2007.
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O jogo de hoje com o País de Gales (16.45, RTP2) marca o regresso dos Lobos ao palco mundial. E, 16 anos depois da estreia, Portugal continua a ser a única seleção com atletas amadores entre as 20 presentes. Entre os 33 orientados por Patrice Lagisquet no Campeonato do Mundo - que começou dia 8 em França e prolonga-se até 28 de outubro -, há 17 jogadores profissionais e 16 que ainda conciliam os estudos ou a vida profissional com a prática do râguebi.

Nada que tire ambição à equipa capitaneada por Tomás Appleton, uma a seleção de valores emergentes, fruto da geração pós-2007 e dos filhos da emigração portuguesa em França. "Esta seleção é muito diferente, com bastantes profissionais, que já jogam num nível bastante superior para aquilo que nós jogávamos. Da equipa habitualmente titular, uns dez atuam na liga de França - a segunda mais importante do mundo, depois do britânico. Eles estão mais bem preparados do que nós, quer pelo tipo de jogo e em muitas posições, se formos ver jogador a jogador, são melhores do que nós éramos ao nível técnico, mas é sempre difícil fazer a comparação com uma distância temporal tão grande. São 16 anos entre um mundial e outro", disse ao DN Rui Cordeiro.

Mas para o herói do ensaio aos All Blacks no Mundial de 2007, que estará hoje em Nice para ver o jogo com os galeses, há coisas que se mantêm: "A nível de espírito de luta, motivação e dar o corpo ao manifesto estamos equiparados. Até o apuramento foi semelhante, por um ponto - nós frente ao Uruguai e eles frente aos EUA - na última oportunidade."

O grau de dificuldade do grupo é que não mudou muito... mesmo que Portugal já tenha ganho à Geórgia e possa surpreender as Ilhas Fiji, a missão será hercúlea para a nova geração dos Lobos: "É complicado. Em 2007 tínhamos uma hipótese de ganhar à Roménia e perdemos por quatro pontos. Eles têm mais hipóteses. Além de estarem mais bem preparados, as equipas do grupo estão mais niveladas."

Para Rui Cordeiro, "o País de Gales tem vários pontos fracos a explorar". "Têm jogadores muito bons e muito experientes, mas também malta nova e como equipa ainda não funciona bem", analisou.

Esse será um ponto a explorar por Patrice Lagisquet. Como vencer o País de Gales? É nisso que o selecionador pensa "há vários meses", mas, "mesmo que tivesse a chave, nunca a revelaria". Certo é que o 2.ª linha José Madeira é baixa de última hora, enquanto Samuel Marques (autor do pontapé que colocou Portugal no Mundial) recuperou e vai ser titular frente aos galeses.

O selecionador português está mais preocupado com o tempo, que prevê chuva em Nice hoje, o que tornará "difícil jogar bom râguebi" e manter a identidade do jogo português (veloz e criativo das suas linhas atrasadas), do que com as 13 alterações que os galeses vão fazer em relação ao 15 titular que venceu Fiji na 1.ª jornada do Grupo C.

Francisco Fernandes herdou a camisola 1 que Rui Cordeiro vestiu no Mundial 2007 e entrou na história, naquele jogo com a Nova Zelândia em que fez um ensaio. Os All Blacks construíram um triunfo esmagador (108-13 , ainda a maior derrota de sempre da equipa nacional), mas o grande momento da tarde foi o único ensaio dos Lobos (alcunha da seleção portuguesa).

Honra do então jogador da Académica, na altura com 30 anos e 140 quilos, o mais pesado jogador desse Mundial. "Tudo começou numa boa perfuração do António Aguilar... vi a bola à minha frente, captei-a e mergulhei para a área, empurrado lá para dentro por vários companheiros. Sem eles não tinha conseguido. Seguiram-se 40 segundos de ansiedade, foi preciso ir ao videoárbitro para confirmar o ensaio e depois foi a explosão total. Lembro-me de pegar na bola enquanto esperava pela confirmação e da intensidade da troca de olhares entre mim e o número 5 da Nova Zelândia. Foram segundos de grande tensão visual até que ele tirou a mão de baixo da bola", recordou ao DN o agora veterinário.

Esse duelo foi memorável, assim como o que se passou a seguir. Os suplentes acabaram a fazer um jogo de futebol... que Portugal ganhou por 3-2. No final, os All Blacks convidaram os portugueses para beber umas cervejas no balneário e não esconderam a surpresa por terem defrontado amadores, que eram veterinários, médicos e advogados...

Foram 30 jogadores que entraram na história do râguebi e do desporto português com a primeira presença num Campeonato do Mundo da modalidade, em 2007. Eram liderados por Tomaz Morais, atual diretor do futebol de formação do Sporting, e grande parte deles foi a Nice ver o jogo.

Luís Piçarra Treinador-adjunto do selecionador Patrice Lagisquet.

Rui Cordeiro Veterinário responsável pelas explorações suínas do Grupo Montalvo.

João Correia Médico ortopedista no Hospital da Luz.

Paulo Murinello Vive em Maputo e trabalha em produção de conteúdos para televisão e cinema.

Daniel Penalva Foi selecionador-adjunto e é treinador em França.

Duarte Figueiredo Faz parte da direção do CDUL.

José Pinto Médico ortopedista na Clínica do Ombro, Lambert, CUF Almada e Fidelidade.

Gonçalo Uva Trabalha na empresa de investimentos APEX (ligada a atletas de alta competição)

Salvador Palha Trabalha na Atena Equity Partners.

Diogo Coutinho Trabalha numa empresa de investimentos e treina os sub-18 do Direito.

João Uva Treina os sub-18 de Portugal e é treinador do Técnico.

Vasco Uva Pertence à direção do Direito e trabalha para uma empresa de embalagem de esterilização.

António Aguilar Selecionador da Alemanha de sevens.

Frederico Sousa Treinador do Cascais e selecionador nacional de sevens.

Pedro Leal Adjunto de Frederico Sousa nos sevens, treina também a equipa dos challengers.

Gonçalo Foro Treinador do CDUL.

Diogo Gama Diretor das seleções de El Salvador, foi preparador físico na Academia do Real Madrid.

Tiago Girão Trabalha com fundos de investimento na Incus Capital.

Marcelo D"Orey Advogado no Porto, fez parte do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Rugby.

Miguel Portela Advogado, faz parte da direção do Direito.

Cardoso Pinto Diretor-geral do Palácio Chiado.

Pedro Cabral Trabalha na restauração e hotelaria.

Gonçalo Malheiro Trabalha para uma construtora de hotéis.

Pedro Carvalho Está ligado ao ramo imobiliário, divide-se entre Lisboa e Angola.

Diogo Mateus Vive em Inglaterra e desconhece-se a ocupação profissional.

David Mateus Trabalha na Groundforce - empresa de logística ligada à TAP.

André Silva Vive em França e desconhece-se a ocupação profissional.

Joaquim Ferreira Administrador de uma empresa liga ao registo eletrónico de bilhetes do Porto.

Juan Murré Vive e trabalha em Espanha, mas desconhece-se a ocupação profissional.

Cristian Spachuk Vive e treina em França.

Juan Severino Casou-se na argentina e trabalha na empresa do sogro em Buenos Aires.

isaura.almeida@dn.pt

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