Lisboetas estão fartos de filas e enchentes nos transportes públicos

Os cortes na circulação nas linhas Amarela e Verde que tiveram início este mês estão a desesperar quem usa o Metro todos os dias, bem como os utentes dos autocarros, e todos eles pedem mais meios alternativos. A Carris e o próprio Metropolitano já reforçaram carreiras e acionaram vaivéns nas zonas mais afetadas, mas estas medidas continuam a ser insuficientes para quem passou a levantar-se mais cedo todos os dias e mesmo assim chega atrasado ao trabalho ou à escola.
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São nove da manhã e a zona em volta do Metro do Campo Grande está mergulhada num mar de gente. Podia ser dia de jogo do Sporting em Alvalade, como o que está marcado para hoje à noite com o Benfica, mas não - é mais um dia de semana, com pessoas a entrar e sair da estação do metropolitano e muitas, muitas filas, com muitas, muitas pessoas à espera de um autocarro, fazendo figas para que quando este chegar não venha cheio e consigam entrar. E apesar de ser muita gente, poderiam falar a uma só voz. As obras de expansão do Metropolitano e as alterações no serviço que estão em vigor desde o início do mês obrigam a levantar mais cedo, a horas de espera e a chegadas tardias ao trabalho ou à escola logo pela manhã e a casa ao final do dia.

"Estamos aqui quase há uma hora, não consegui apanhar o primeiro que passou. Desde que o Metro está em obras que é todos os dias assim. Eu nem venho de Metro, apanho aqui o 738 e vou para o Alto de Santo Amaro, e vamos estar nisto até julho", conta um jovem em passo apressado, pois o tão ansiado autocarro acabou de chegar, recebendo a concordância de quem está à sua volta na fila e passa todos os dias pelo mesmo.

Maria Cândida perdeu o 738 por segundos. Ainda deu uma pequena corrida, mas sem sorte. Vem de Metro até ao Campo Grande e como já está um pouco fora da hora de ponta diz que não tem tido azar. "Agora tive azar com o autocarro. No outro dia estive um bom bocado à espera, hoje não sei como vai ser, mas vem sempre cheio".

Do outro lado da estação do Metro está Ângela Adriano. Costuma apanhar o 701 no Campo Grande, que segue para Campo de Ourique e que partilha agora a paragem com o vaivém especial disponibilizado pela Câmara de Lisboa (liga as estações do Campo Grande e Cidade Universitária). "Agora apanhar aqui o autocarro está mais complicado, mas fazer o quê? A gente precisa!". Antes das obras, conta, esperava pelo autocarro entre 15 a 30 minutos, mas por estes dias o tempo de espera duplicou.

A sorte é que, como a carreira começa ali, consegue entrar à primeira. Uma sorte que, refere, quem entra nas paragens seguintes já não tem. Para chegar ao Campo Grande usa o Metro, o que atualmente "é horrível, ainda mais para mim que uso a Linha Verde, que só tem três carruagens". "É como dizemos no Brasil, isto não é Metro, é meio Metro. Temos de entrar na marra nas carruagens", desabafa.

Carlos Pereira é utente da Linha Amarela, mas as queixas são as mesmas. "O problema não é só as composições virem de Odivelas já cheias e depois não conseguirmos entrar. Se formassem aqui autocarros, um, dois, três, já iriam conseguir levar as pessoas que se juntam no Campo Grande. Eu não noto que haja reforços, noto é que há muitas filas com muitas pessoas à espera de autocarros. Resultado: chego atrasado ao trabalho, mesmo tendo chegado aqui mais cedo do que chegava antes de começarem as obras".

De 2 de maio a 7 de julho vai estar encerrada a estação de Telheiras, na Linha Verde, e o troço entre o Campo Grande e a Cidade Universitária, na Linha Amarela. Neste período, a circulação vai realizar-se entre o Campo Grande e o Cais do Sodré com comboios de três carruagens, enquanto que na Linha Amarela a circulação no troço Campo Grande-Odivelas está a ser feita com três carruagens e no troço Cidade Universitária-Rato com comboios de seis carruagens.

Entretanto, o Metropolitano já anunciou que irá retomar "a circulação de comboios com seis carruagens na Linha Verde, no dia 20 de junho, podendo esta data ser, ainda, antecipada, caso existam condições operacionais para o efeito". Para o mesmo dia está marcado "o início da circulação de comboios com quatro carruagens no troço Odivelas-Campo Grande da Linha Amarela", sendo que o troço Cidade Universitária-Rato continua a funcionar com seis carruagens.

Para mitigar os transtornos causados por estas interrupções, o Metropolitano de Lisboa já anunciou outras medidas. A mais recente delas, revelada na sexta-feira, é que a empresa "vai disponibilizar, a partir do próximo dia 22 de maio e até ao dia 7 de julho, um serviço de autocarro em modo "vaivém" entre Telheiras e Cidade Universitária, com paragem no Campo Grande". Este serviço irá funcionar nos dias úteis entre as 07.00 e as 10.30 e entre as 16.30 e as 19.30. Este novo vaivém vem juntar-se ao que já funciona desde quinta-feira entre a Cidade Universitária e o Campo Grande feito por autocarros da CarrisTur. De acordo com a Câmara de Lisboa, estes autocarros funcionam nos dias úteis, entre as 06.00 e as 10.00 e entre as 16.00 e as 20.00.

A Carris já havia reforçado carreiras nos eixos mais afetados, nomeadamente as carreiras 767 (Colégio Militar-Praça de Londres), 738 (Cidade Universitária-Largo do Rato) e 736 (Lumiar-Campo Pequeno e Odivelas-Rossio), tendo também prolongado o percurso da carreira 778 do Campo Grande até à Cidade Universitária.
O presidente do conselho de administração do Metropolitano de Lisboa, Vítor Domingues, já lamentou os transtornos causados e admitiu que estas medidas são insuficientes. "Eu, para conseguir substituir um comboio metropolitano, tinha que arranjar cerca de oito autocarros com frequência de permanência de cinco minutos. Nós não conseguimos isso. O que nós tentámos foi arranjar carreiras alternativas dentro do possível", afirmou no passado dia 10.

Em breve, a administração do Metro será ouvida pela comissão parlamentar de Economia e Obras Públicas para explicar as perturbações de circulação na cidade, na sequência de requerimentos do PSD e do PCP aprovados quarta-feira. O PSD tinha pedido uma audição urgente da administração do Metropolitano argumentando que as obras estão a "provocar perturbações no serviço prestado na zona norte da Área Metropolitana de Lisboa", enquanto que PCP defendeu que os utentes têm visto agravadas as dificuldades nas suas deslocações na capital.

O descontentamento dos utentes também se reflete no número de queixas que têm sido feitas sobre o serviço prestado pelo Metro desde o início de maio, sendo um dos meios usados precisamente os canais de reclamações da própria empresa. Dados avançados pelo Metropolitano de Lisboa ao DN mostram que, desde o início do ano, foram apresentadas 1701 reclamações relacionadas com o serviço de exploração, 477 das quais referentes aos dias entre 1 e 15 de maio.

"Verifica-se no período de maio em análise um aumento no número de reclamações, situação explicada pela execução de trabalhos relacionados com o prolongamento das linhas Amarela e Verde, Rato/Cais do Sodré, que estão a causar constrangimentos junto de quem vive, estuda e trabalha na zona de influência das intervenções", explica a mesma fonte, acrescentando que "das 477 reclamações rececionadas até 15 de maio, cerca de 360 relacionam-se com reclamações relativas ao impacto na exploração".

Também o Portal da Queixa viu os números subirem, apesar de os valores serem mais residuais, quando comparados com as reclamações recebidas pelo Metro. Segundo os dados apresentados ao DN, este site recebeu na primeira quinzena de maio 42 queixas relativas ao Metro, um "crescimento de 147,1% em comparação com o mesmo período de 2022".

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