Le Pen, ao estilo de Trump, recupera terreno para Macron

Le Monde desmascara "factos alternativos" defendidos pela candidata da Frente Nacional. Sondagens mostram que, em cinco dias, subiu de 35% para 40% nas intenções de voto
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Marine Le Pen está ao ataque. Ontem, enquanto Emmanuel Macron se reunia em Amiens com uma delegação de trabalhadores da fabricante Whirlpool, a candidata da Frente Nacional apareceu de surpresa no parque de estacionamento da empresa, a alguns quilómetros de distância, para se encontrar com os restantes funcionários. "Estou aqui onde tenho de estar, no meio dos trabalhadores que resistem à globalização selvagem", afirmou. Em causa está a decisão da Whirlpool de deslocalizar a produção para a Polónia e de fechar a fábrica de Amiens em 2018. Horas mais tarde foi Macron visitar as instalações, mas foi recebido com assobios.

Segundo as sondagens diárias da OpinionWay, Le Pen tem vindo a reduzir o terreno que a separa de Macron nas intenções de voto para a segunda volta das presidenciais (7 de maio). A 20 de abril, Macron recebia o voto de 65% dos inquiridos. Ontem essa percentagem tinha baixado para 60%.

Na terça-feira, a candidata da Frente Nacional esteve na TF1 para uma entrevista televisiva. O veredicto que o Le Monde publicava ontem era assertivo: "A candidata da Frente Nacional multiplicou-se em falsas afirmações e em alusões duvidosas." O diário francês acrescenta ainda que Le Pen "fez lembrar a campanha de Donald Trump", ao criar vários "factos alternativos".

Algumas das inverdades descodificadas pelos jornalistas prendem-se com a Europa. Para a candidata de extrema-direita, a União Europeia significa nove mil milhões de euros que a França perde todos os anos. Os números oficiais mostram, no entanto, uma outra realidade. De acordo com o Parlamento Europeu, a contribuição líquida francesa para o orçamento da UE é de 4,5 mil milhões.

Le Pen enveredou também por outro dos seus tópicos favoritos, a imigração. "Todos os anos aceitamos 200 mil estrangeiros. Para que empregos? Para os alojarmos onde? Se não pusermos travão a isto, o nosso sistema de segurança social vai desmoronar-se", afirmou a candidata. Olhando para os números de forma cega, parece ser verdade, afinal, em 2016, entraram em França 227 mil estrangeiros. Os jornalista do Le Monde, porém, fazem a desconstrução deste valor: cerca de 70 mil eram estudantes, 85 mil familiares de residentes e 25 mil já tinham recebido uma proposta de trabalho. A isto junta-se o facto de a saída de franceses do país ter ascendido a 60 mil pessoas.

O Le Monde mostra ainda que a intenção de Le Pen de expulsar todos os estrangeiros que têm uma "ficha S" - indivíduos sinalizados como sendo eventualmente perigosos para a segurança nacional - não é aplicável. Isto porque a "ficha S" é apenas um método de sinalização e não uma apreciação do nível de perigo que o sujeito em causa representa. Todos os casos necessitam de uma avaliação individual.

Sarkozy vota Macron

Alexis Corbière, porta-voz de Jean--Luc Mélenchon, o candidato apoiado pelos comunistas que ficou em quarto lugar com 19,6%, disse que nenhum voto deve ir para Le Pen na segunda volta, mas não quis apelar ao voto em Macron. Ainda assim, o candidato centrista vai somando declarações de apoio. Ontem foi a vez de receber a do ex-presidente Nicolas Sarkozy. "Considero que a eleição de Marine Le Pen e a implementação do seu projeto político teriam graves consequências para o nosso país e para os franceses. Votarei por isso em Emmanuel Macron na segunda volta das presidenciais. É uma escolha de responsabilidade que não significa, em caso algum, um apoio ao seu projeto", escreveu Sarkozy nas redes sociais.

François Baroin, que foi ministro do Orçamento (2010-11) e da Economia e Finanças (2011-12) durante a presidência de Sarkozy mostrou-se ontem disponível para ser primeiro-ministro de Emmanuel Macron. Tendo em conta que o movimento En Marche! poderá não conseguir uma maioria nas legislativas de junho (dias 11 e 18), é possível que Macron se veja obrigado a estabelecer alianças à esquerda com o Partido Socialista e à direita com Os Republicanos. Nesse caso, a França voltaria a ter uma experiência de coabitação - presidente e governo de cores diferentes.

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