Jovens que chegaram ilegais aos EUA contam as histórias em álbum de jazz

Criar uma plataforma "poética e artística" em que jovens que chegaram ilegais aos EUA contem histórias através da música é o objetivo de <em>American Dreamers: Voices of Hope, Music of Freedom</em>, disse à Lusa o músico John Daversa.
Publicado a
Atualizado a

A produção dividida entre Los Angeles, Miami e Nova Iorque tem a participação de 53 "sonhadores", como são denominados, jovens que foram levados ilegalmente para os Estados Unidos em criança e passaram a estar protegidos de deportação com o programa Ação Diferida para Imigração Infantil (DACA, na sigla em inglês) que a Administração de Donald Trump decidiu terminar.

O álbum American Dreamers: Voices of Hope, Music of Freedom é lançado hoje nas plataformas destreaming e canais digitais e terá também uma versão física, à venda na Amazon e nos sites da editora BFMjazz e do músico John Daversa.

Os 53 "sonhadores" são originários de 17 países, incluindo Brasil, e residem em 17 Estados norte-americanos, tendo gravado em várias localizações. A produção esteve a cargo de Doug Davis e Kabir Sehgal, com edição da BFMjazz.

"O motivo para fazer isto é dar notoriedade ao problema e mostrar que não é uma estatística, são pessoas", explicou John Daversa, músico de jazz com diversas nomeações para os prémios Grammy que idealizou e orquestrou o álbum lançado hoje.

A sua intenção foi dar-lhes uma forma de "contar a sua história através da música a pessoas que não os conhecem", para que "possam decidir por si", disse o próprio.

Durante o processo de exploração, Daversa percebeu que "muita gente nem tinha conhecimento do problema", que afeta quase 800 mil jovens. "Cresceram aqui, toda a sua vida é aqui, são membros que contribuem para a sociedade", caracterizou o músico.

A lista de canções é composta maioritariamente por covers, como Living in America e America The Beautiful, mas com arranjos muito diferentes.

"Queríamos pegar em músicas que as pessoas conheciam, desconstruí-las e reimaginá-las", disse Daversa. Uma "experiência incrível" que terá continuidade em concertos ao vivo, com o primeiro espetáculo marcado para Los Angeles a 4 de novembro.

As canções são intercaladas por faixas em que nove "sonhadores", que são músicos profissionais, contam como chegaram aos Estados Unidos, o que fazem e o que sonham: eles são Salvador, que foi levado do México e toca clarinete, Saba, pianista do Paquistão, o rapper do Senegal Caliph, a cantora da Venezuela Daisy, Denzel de Singapura, que toca trombone, a baterista Alicia do Peru, Juan Carlos, organista mexicano, Maria, que toca flauta e veio da Venezuela, e Edson, poeta e trompetista do México.

"Espero mudar mentes", disse Daversa: "Tudo o que quero fazer é continuar a discussão sobre isto. É uma afirmação musical que convida as pessoas a debruçarem-se".

"Sempre pensei que íamos trabalhar muito, poupar dinheiro e conseguir residência e cidadania", diz brasileira

A brasileira e analista financeira Daniella Vieira está entre os 53 "sonhadores" do programa norte-americano Ação Diferida para Imigração Infantil que se podem ouvir a partir de hoje no álbum American Dreamers: Voices of Hope, Music of Freedom.

Daniella Vieira gravou as músicas em Nova Iorque, uma experiência "muito excitante" para alguém que aprendeu a tocar bateria e piano em criança e sente que é possível contar uma história através da música, juntamente com outros "sonhadores" indocumentados cujo futuro nos Estados Unidos é incerto.

"Quando [o fim] foi anunciado fiquei muito zangada e triste, afetou o meu estado mental", contou a analista financeira, que foi levada pela mãe para os Estados Unidos sem documentos legais em 2005, quando tinha 11 anos. "Tive baixa médica, senti-me muito desencorajada", explicou.

A brasileira, natural de Vitória, Estado do Espírito Santo, entrou no projeto através de uma referência da organização bipartidária FWD.us. Tocou piano e percussão e cantou no coro de várias canções, que foram orquestradas pelo músico de jazz John Daversa, mentor do projeto.

O impacto da decisão da Casa Branca levou-a a tornar-se "uma ativista mais envolvida" e a conhecer outras pessoas com DACA, que protege os beneficiários de deportação e garante autorização para trabalhar. Uma providência cautelar permitiu-lhe renovar o estatuto até 2020, altura em que terá de tomar uma decisão.

"Não me vejo a voltar para o Brasil, mas também não me vejo a ter uma educação universitária e não poder trabalhar no que estudei", afirmou. Daniella conseguiu trabalhar e estudar depois de ter recebido o estatuto DACA em 2012, quando tinha 18 anos.

A analista financeira residente em Boston notou que "a comunidade hispânica está muito mais envolvida que a brasileira" e organizada "de forma mais eficiente".

Apesar de cautelosa quanto ao desfecho das eleições presidenciais de 2020, Daniella Vieira é "otimista" e tem esperança que surja uma solução para os quase 800 mil beneficiários do DACA que foram levados para os Estados Unidos em criança, e correm o risco de serem deportados se o programa cair.

A jovem brasileira só se apercebeu do "peso das circunstâncias" quando chegou ao fim do secundário. "Quando era mais nova pensava que era uma questão de ser paciente e as coisas iam resolver-se", indicou. "Sempre pensei que íamos trabalhar muito, poupar dinheiro e conseguir residência e cidadania", sublinhou.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt