Há mais de trinta anos, deixou o Teatro Experimental do Porto e criou em Bragança a primeira companhia profissional. Levou a rebeldia da palavra, em palcos improvisados, às aldeias mais remotas. "A princípio, as pessoas olhavam-nos de esguelha, depois era a festa" pela noite dentro..Leandro Vale, o homem que trocou o Porto pelo Portugal profundo, recorda esses tempos, quando o interior sorria e batia palmas. "Nós fazíamos representações diárias, montávamos e desmontávamos o espectáculo no mesmo dia", mas a generosidade do povo retardava a saída do Teatro em Movimento. "Não nos deixavam partir sem a ceia. E a ceia, de presunto e pão, demorava, pelo menos, até às três da manhã: "Todos tinham adega, ficavam ofendidos se não lhe provássemos o vinho...".Muitas das localidades onde o Teatro em Movimento, no início da década de oitenta, do nada fez espaço cénico não escaparam à estranha "peste" chamada despovoamento. Essa plangente realidade, Leandro Vale personifica-a, agora, em Aqui Jaz a Minha Casa - um filme de Rui Pilão, jovem realizador transmontano.."Argumento feito à minha medida", diz o actor. É a história (baseado num conto de Aurora Morais) de um velho e do seu cão, únicos habitantes da aldeia. A dada altura, o homem pensa no que irá acontecer se morrer. Ou seja: quem o poderá sepultar se ninguém mais existe? Essa reflexão dá-lhe a força para fazer um caixote de madeira, que leva para o cemitério, onde se deita à espera do momento final..Rodado em Vinhais, no ano passado, Aqui Jaz a Minha Casa é a dura metáfora da longa solidão de muitas aldeias de Trás-os-Montes despovoado. Os autores da película, em fase de montagem, pretendem apresentá-la nos festivais de Cannes, Berlim, Fantasporto e, ainda, no festival de curtas metragens de Cuba - país que Leandro Vale visita com frequência, para ministrar acções de formação teatral..Actor, encenador, o beirão Leandro Vale, 71 anos, é também um fecundo dramaturgo. "Tenho neste momento 144 peças escritas, das quais estão publicadas apenas 20." Um subsídio da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai possibilitar a edição de mais dez dos seus textos dramáticas (três para crianças, os outros para adultos) num só volume, a publicar em breve pela portuense Seara de Letras. "Sou o único dramaturgo português representado em Cuba e na Suíça", lembra. .O Teatro em Movimento mantém a sua Sala-Estúdio António Pedro na cidade de Bragança, mas, como que a imitar o despovoamento da região, vai perdendo o fulgor de outros tempos. "A companhia chegou a ter uma dúzia de pessoas a trabalhar, hoje é incomportável manter um grupo assim." Neste momento, resistem o fundador e Helena Vidal - "quando há necessidade, recrutamos aqui ou acolá"..Ao longo de 31 anos, a companhia de Bragança fez "146 montagens". Mais de "dez mil pessoas" viram os espectáculos "em todo o País, Espanha, França, Bélgica, Suíça e Alemanha". Como o nome sugere, a luminosa caminhada prossegue. No lançamento do livro com as dez peças de teatro, no próximo mês de Abril, na SPA, estreia uma nova produção da companhia. Depois, a mensagem de certas peças parece eterna: "Há trinta anos que faço Os Malefícios do Tabaco, e cada vez me dá mais gosto."