Se houve alguém que teve influência na vida de Fernando Santos, foi o pai. O Ti Chico, como lhe chamava António Fidalgo, que recorda um homem que gostava dos pequenos prazeres da vida, de comer uns caracóis e beber umas cervejas, mas que era um homem cheio de regras e que as impunha. "Connosco era um tipo bestial, gostava da brincadeira mas o Fernando sabia que tinha tarefas e regras para cumprir à risca. E cumpria!", diz o comentador de futebol da RTP, afilhado de casamento de Santos e padrinho dele no futebol..Há uns anos, o próprio Fernando Manuel Fernandes da Costa Santos, nascido a 10 de outubro de 1954 na Maternidade Alfredo da Costa, falava-me do pai com um respeito e uma admiração que se sentiam em cada palavra. "Mas era um homem de uma dureza incrível, não admitia faltas, ele próprio era escrupulosíssimo em tudo." O ti Chico, lisboeta de Alfama, vendia acessórios para automóveis, chegou a ter uma pequena indústria e era ele que levava o filho ao Estádio da Luz a ver o Benfica de Eusébio jogar - o ti Chico e a mulher, ambos ferrenhos adeptos de lugar cativo. "O meu pai foi o meu melhor amigo, o homem a quem devo tudo o que sou, a ele e à minha mãe", diz-me agora. A mãe, Maria de Lurdes, é de Sorgassosa, no concelho de Arganil, e segue as proezas do filho com toda a atenção, pois claro..Fernando Manuel estudou primeiro na Escola Afonso Domingos, uma escola técnica, e aos 15 anos já era eletricista. Começou a jogar no Operário, passou para o Graça e um dia, com 17 anos, foi a uma captação do Benfica... e ficou. Ângelo, o antigo jogador, prometeu-lhe que o clube lhe pagava um conto de reis por mês e pagava-lhe os estudos, o que ajudava uma família de classe média como era a sua. O pai, que tinha chegado a jogar como guarda-redes, não achou muito bem que o filho dispersasse as atenções, porque o importante era ter uma enxada para a vida. Mas antes de completar os 23 anos já o promissor Fernando estava licenciado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações pelo Instituto de Engenharia e Lisboa. Sempre foi encaminhado para os estudos e o pai deixou-o jogar no Benfica com a condição de ter aproveitamento nos estudos, o que o filho também queria. Estava dado o grande passo para a estabilidade..O Benfica acabou por durar pouco, porque Jimmy Hagan, o treinador inglês que apreciava muito o potencial daquele defesa-central ou médio-defensivo alto e espadaúdo, também teve que deixar a Luz em setembro de 1973. Hagan acabou por rumar ao Estoril e Fernando Santos foi com ele. "Para ele não havia filhos nem enteados, éramos todos iguais", conta Santos sobre o treinador que, como John Mortimore mais tarde, chegou ao clube depois de um pedido à federação inglesa para indicar um bom técnico . "E os seus resultados foram excelentes, ganhou três campeonatos e um deles só com um empate", relembra o atual selecionador. Foram mesmo dois em 30 jogos, e Eusébio fora o melhor marcador da Europa com 40 golos. A equipa, diga-se, era quase a seleção nacional, com Artur, Jaime Graça, Eusébio, Simões, Nené, Toni, Adolfo, Artur Jorge, uns a acabar grandes carreiras, outros a começá-las, dois anos antes ainda do 25 de Abril que havia de mudar os poderes no futebol. Mas Hagan tornou-se numa referência e o Estoril nunca mais deixou de fazer parte da vida de Fernando Santos, porque foi ali jogador e treinador, porque se tornou funcionário do Hotel Palácio e ainda hoje goza oficialmente de uma licença sem vencimento e porque vive por ali perto, em Cascais..Fernando Santos vai fazer carreira de jogador e depois a de treinador com base na palavra estabilidade. O apelido que os colegas lhe puseram foi o de "Sono" porque, reconhece hoje, era calão, gostava pouco de treinar - "podia ter sido muito melhor". Jogava no Estoril quando casou com Guilhermina, professora primária. Tiveram primeiro uma filha, Cátia - hoje juíza - e o pai foi jogar para o Marítimo, que pagava bem mais que o clube da Linha. Mas os pais tinham sido assaltados numa viagem a Espanha e a mãe tinha ficado tão abalada que foi para a Madeira, descansar, viver com o filho, a nora e a neta. Por isso, quando Benito Garcia, dono do grupo turístico que incluía os hotéis Palácio, lhe propôs regressar ao Estoril, aceitou com a condição de lhe arranjar um emprego além do futebol, para compor o ordenado. Foi assim que se tornou diretor de instalações do belo Hotel Palácio..Viria então o filho - hoje economista e que já viveu em várias partes do mundo - e Fernando iria manter o emprego no hotel em nome dessa estabilidade. E é em nome dela que, quando o Estoril quer que ele seja o treinador ele diz que não e fala com António Fidalgo. O antigo guarda--redes de Benfica e Sporting disse que sim se ele fosse adjunto. As coisas correram bem e Fidalgo foi para o Salgueiros e o adjunto passou a principal por seis meses. Acabaram por ser seis anos e meio até ser despedido, que é o momento de um abanão. Tinha sido batizado, mas depois afastara-se da igreja na juventude, o pai também não ligava muito, mas nessa altura em que se confrontava com o insucesso uns amigos levam-no a um curso de cristandade. Foi o big bang da fé - redescobre o Amor, "o altruísmo total", Deus que é Pai. Liga-se à igreja e mesmo junto à cama tem uma espécie de altar, que usa para rezar ao deitar e acordar. Ainda hoje faz retiros espirituais, quando foi para a Grécia foi procurar a igreja mais próxima, tornou-se um militante antiaborto. Sobretudo, ninguém diz de Fernando Santos que é má pessoa ou que teve uma atitude menos séria. Falaram-me de superstições, de mau feitio que o próprio reconhece, há quem ache que lhe faltem títulos, mas não conheço jogadores que lhe apontem defeitos de caráter, nem dirigentes. O que num mundo como o da bola é algo quase inédito. E quando lhe dizem que se pode mudar de mulher, de religião mas não de clube, responde bem: "Eu cá sei que não mudo de mulher, nem de religião"..A estabilidade na vida de um treinador é difícil, mas ele consegue: quase dez anos no Estoril, quatro no Estrela, três no FC Porto, três no AEK, três no PAOK, três anos na seleção da Grécia, vai em quase dois na portuguesa, ou seja, o signo da estabilidade é evidente. Pelo meio um ano no Sporting e outro no Benfica (sai na primeira jornada do ano seguinte ao empatar com o Leixões), uns jogos só no Panathinaikos, antes..O engenheiro do penta - que ainda em nome da estabilidade dos filhos vai para o Porto mas deixa a família em Lisboa - só ganha um campeonato (perde outro tendo ainda Jardel, ano marcado pela famosa arbitragem de Bruno Paixão em Campo Maior) e uma taça a acabar (ao todo cinco troféus) e indica o caminho que vão fazer depois dele muitos treinadores que saem de clubes grandes e deixam de ter mercado compatível: procura o estrangeiro..Do Porto leva outra coisa: aprendeu a treinar com o prof. Vítor Frade, teorizador da Periodização Tática, uma metodologia de treino integrada que altera as convicções do engenheiro, que no fundo sabia do treino o que tinha aprendido com outros treinadores. Frade dá-lhe uma nova visão que lhe permite ser um inovador na Grécia, onde se vai tornar um ídolo pela competência..O normal nesta altura era que o presidente da Federação já tivesse anunciado que o primeiro português a levar a seleção nacional à final de uma grande competição tivesse o contrato renovado e com melhoria substancial das condições. Era a estabilidade da FPF e do treinador. Mas estranhamente hoje há uma final em que o treinador tem um contrato precário, porque só não acabou a 30 de Junho por prever a sua extensão até ao final da competição se ainda a estiver a jogar. Mas quando regressar a Portugal amanhã e for recebido em festa, Fernando Santos nem se lembrará disso. Assim como assim, vai ter muito mercado na cidade do futebol. Pode é não ser entre Lisboa e Cascais...