Economia. A nova arma na luta contra os cartéis da droga

É um negócio de milhões de euros. Após estudar as redes, jornalista diz que forma de as combater é usar as teorias económicas
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Responsabilidade social, marketing, problemas de recursos humanos, aposta no franchise para expandir o negócio, retalhistas a dominar o mercado.

Este podia ser o retrato de uma qualquer empresa em qualquer lugar do mundo e num qualquer ramo de negócio legal. Mas não. É sim o desfiar dos desafios que enfrentam os cartéis de droga mexicanos que, segundo o jornalista da The Economist Tom Wainwright, são autênticas multinacionais que lidam diariamente com os mesmos problemas de outras grandes empresas.

Por isso, defende, a luta das autoridades contra estas organizações devia passar não pelo uso das armas, mas sim pela utilização de táticas de economia. Uma visão mais centrada no consumidor - despenalização do consumo, por exemplo - e o seu acompanhamento médico, incluindo o fornecimento de droga, poderia ter melhores resultados do que os milhões gastos em ataques aos campos de cultivo, que depois de destruídos surgem ao lado. E continuam a alimentar um negócio que valerá 287 mil milhões de euros, segundo as Nações Unidas.

No livro Narconomics: How to Run a Drug Cartel (Narcoeconomia: Como gerir um cartel de droga), o jornalista, que viveu no México durante três anos (de 2010 a 2013 e onde, diz, escrevia numa semana sobre crimes e na outra sobre negócios), aponta ainda o futuro do tráfico que atinge fortemente os Estados Unidos: a venda online. E, mais uma vez, surge a dicotomia legal/ilegal: enquanto as empresas fazem essa sua expansão em sites legais, os cartéis fazem-no em sítios com sistemas de encriptação desenvolvidos de forma que seja possível manter o anonimato seja do comprador seja do vendedor. Além desta forma de segurança também não há contacto entre o vendedor (o dealer da rua) e o comprador. Tudo pago com bitcoins - um sistema de transferência de valores que usa criptografia e não depende de um banco.

Este sistema tem ainda a vantagem de não expor os traficantes às polícias que controlam a fronteira entre os EUA e o México que estão muito mais vigiadas desde os atentados às Torres Gémeas de Nova Iorque, em setembro de 2011.

Monopólio e franchise

Tal como num qualquer negócio, conta Tom Wainwright, o tráfico de droga tem grupos que dominam o circuito comercial. Neste caso são os cartéis que no México têm o país dividido (ver infografia) e que mandam no território à custa de muita violência, o que transforma o país da América Central um dos mais perigosos do mundo. Aliás, Juarez junto à fronteira com os EUA já foi considerada a mais perigosa cidade do mundo: em 2011 morriam ali 300 pessoas por mês e 70% da droga que entrava nos EUA era levada por esta região, onde sobressai o deserto de Chihuahua, como descreve.

Nesta sua análise sobre os moldes do tráfico, Wainwright frisa que as redes criminosas supervisionam todo o circuito comercial. Ou seja, dominam os agricultores, as rotas da produção e influenciam os preços. Sempre com o objetivo de maximizar o lucro. Sendo que os cartéis ganham sempre pois dominam a produção, a recolha, a embalagem e a venda para o mercado.

E mesmo que o preço do produtor suba nunca vão perder dinheiro pois têm margem de lucro suficiente. Além de que o consumo não irá reduzir porque, lembra outra regra de economia, o mercado não é elástico. Ou seja, os consumidores - que a ONU estima poderem ser na ordem dos 246 milhões a nível mundial - precisam sempre de comprar independentemente do preço.

Mantendo o ângulo económico, o autor encontrou uma explicação simples para a forma como o negócio do tráfico se desenvolveu rapidamente no México: o franchise. Dá como exemplo a expansão que teve um dos mais perigosos cartéis do país - Los Zetas. Segundo conta, este grupo expandiu-se para a América Central recorrendo a grupos criminosos a quem cedia a sua fama. Ou seja, autoriza esses gangues a utilizar bonés de basebol e t"shirts com o logo dos Zetas e estes traficam droga, fazem extorsões, cometem assassinatos e dividem o dinheiro que conseguem com a principal organização. Ou seja uma versão do franchise adaptado para o crime.

Recursos humanos e apoio social

Como qualquer empresa, os cartéis também precisam de pessoas para trabalhar. Até porque, lembra Tom Wainwright, este é um negócio com uma grande rotatividade de pessoal pois muitos são detidos, mortos pela polícia ou nas lutas entre gangues. Para essa contratação recorrem às prisões. Aí, um espaço em que são reis, como conta o autor na sua experiência em El Salvador, onde foi entrevistar o líder do gangue Barrio 18, Carlos Mojica Lechuga, que dominava a prisão onde está. Podem recrutar, treinar esses "funcionários" e, até, "explicar-lhes" que quando se entra para um gangue nunca mais se sai. "Ele estava tatuado da cabeça aos pés. Não era um entrevistado normal", recorda nas respostas que enviou ao DN.

Apoio social e os economistas

Há um outro ponto em que os cartéis se inspiram nos negócios legais: a responsabilidade social.

Nas zonas que dominam ajudam a construir igrejas, sistemas de saúde e têm outros atos de filantropia. Porém, nada disto surge por vontade de ajudar as populações. É, sim, uma forma de intimidação e de domínio dos povos que ficam sob a alçada dos gangues que lhes dão quase tudo, incluindo emprego.

Todos estes ângulos de economia relacionados com o tráfico permitem ao jornalista defender no livro a teoria de que em vez de ações militares/policiais os responsáveis políticos deviam pensar em contar com economistas nas decisões. Porque é provável que o ataque ao poderio dos cartéis terá de ser efetuado com mais recurso a ações viradas para os consumidores em vez da atual guerra ao tráfico com a utilização de armas e perseguições, que já se percebeu está difícil de ganhar ou pelo menos colocar dificuldades às redes criminosas.

Defende a despenalização do consumo, pois se as pessoas não deixam de comprar independentemente do preço da droga, pelo menos o mercado poderia ser controlado. E com campanhas de sensibilização poder-se-ia desencorajar o consumo e assim a procura poderia baixar e as margens de lucro dos traficantes começarem a cair. A escolha, defende, será entre um mundo com médicos e farmacêuticos a controlarem a prescrição de droga e um em que reinam as máfias.

A verdade, todavia, é que a indústria da droga está cada vez melhor. Os consumidores de cocaína e canábis têm vindo a subir a nível mundial e a forma como este combate pode ser efetuado será o tema da UNGASS 2016, uma sessão especial da Assembleia Geral das Nações Unidas sobre o tema e em que estará em discussão as diretrizes, incluindo a análise da possível descriminalização, para enfrentar este problema de saúde mundial.

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