Era grande a expectativa pelo discurso do presidente da Rússia, Vladimir Putin, à nação, o primeiro desde o início da guerra na Ucrânia, em curso desde 24 de fevereiro. Estava marcado para as 18:00 desta terça-feira, mas as horas foram passando até que foi anunciado que o chefe de Estado russo só iria falar na quarta-feira..Passavam das 20:00 quando se soube que o discurso de Putin tinha sido adiado, uma informação dada por Sergei Markov, ex-assessor do presidente russo, noticiou a Sky News. "Vão para a cama", escreveu nas redes sociais Margarita Simonyan, a editora-chefe da estação de televisão Russia Today (RT), considerada propagandista do Kremlin. Uma declaração que pareceu confirmar o que tinha sido anunciado..O discurso de Putin, que já estará gravado, deverá ser transmitido na manhã desta quarta-feira. Segundo o The Guardian, a Forbes Russia, que cita duas fontes do Kremlin, apurou que a comunicação do chefe de Estado russo será transmitida quando "o extremo Oriente acordar"..A confirmarem-se estas informações, Vladimir Putin irá dirigir-se ao país no mesmo dia em que o presidente dos EUA, Joe Biden, irá discursar na 77ª Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque..Aliás, está igualmente prevista para quarta-feira uma intervenção, por videoconferência do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, nas Nações Unidas, como indica a programação da ONU..O anúncio de que o presidente russo irá falar à nação acontece numa altura em que os líderes separatistas fizeram saber que vão avançar para a realização de referendos na região do Donbass, nos territórios ocupadas pelas forças pró-russas para decidirem sobre a sua anexação pela Rússia. E os referendos vão começar já esta sexta-feira, estando previsto terminarem a 27 de setembro. Isto numa altura em que está a decorrer uma contraofensiva ucraniana, com Kiev a anunciar que recuperou várias localidades, anteriormente ocupadas pelas forças de Moscovo..A comunidade internacional já condenou esta vontade expressa dos separatistas pró-russos de Donbass, considerando que os referendos são ilegítimos, com os EUA, por exemplo, a avisar que não vão reconhecer alegadas anexações de território ucraniano pela Federação Russa..As câmaras públicas das autoproclamadas Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk apelaram aos líderes das duas províncias separatistas para que realizassem imediatamente referendos sobre a adesão à Rússia, após o qual hoje a região de Kherson e depois Zaporijia se lhe juntaram..Os supostos escrutínios terão lugar nas regiões de Donetsk e Lugansk, cuja independência o presidente russo, Vladimir Putin, reconheceu pouco antes de lançar a sua ofensiva militar contra a Ucrânia, a 24 de fevereiro..Respondendo aos apelos das autoridades pró-russas no Donbass, também representantes de um órgão consultivo pró-russo na região de Zaporijia, apenas parcialmente controlada pelas tropas russas, juntaram-se hoje aos seus colegas de Lugansk, Donetsk e Kherson, pedindo a realização imediata de um referendo sobre a sua adesão à Rússia..Os referendos levados a cabo pelos separatistas pró-Moscovo em regiões ocupadas pela Rússia poderão ser um dos temas do discurso de Putin, mas analistas consideram ainda a hipótese da mobilização militar ou a implementação da lei marcial na Rússia, o que poderá indicar uma guerra em larga escala..O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, alertou que estas ações representam mais uma escalada na guerra provocada pelo Kremlin.."Os falsos referendos não têm legitimidade e não mudam a natureza da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. Esta é mais uma escalada na guerra de Putin", escreveu o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte no Twitter.."A comunidade internacional deve condenar esta flagrante violação do direito internacional e intensificar o apoio à Ucrânia", acrescentou..Para os EUA, "estes referendos são uma afronta aos princípios de soberania e integridade territorial que sustentam o sistema internacional", disse o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan..Caso os referendos avancem, "os EUA nunca reconhecerão as reivindicações da Rússia" referentes à anexação de qualquer região da Ucrânia por parte da Rússia, afirmou Sullivan..Já o presidente francês, Emmanuel Macron, considerou o que foi anunciado pelas forças pró-Moscovo é uma farsa, considerando que os referendos representam uma "nova provocação" que "não terá consequências".."A própria ideia de organizar referendos em regiões que testemunham a guerra, que estão a sofrer bombardeamentos, é o cúmulo do cinismo", disse Emmanuel Macron na Assembleia Geral das Nações Unidas..Também esta terça-feira, o chanceler alemão, Olaf Scholz, afirmou que "os referendos fictícios" que a Rússia pretende organizar em várias regiões ucranianas ocupadas são inaceitáveis.."Claramente que esses referendos simulados [na região de Donbass e outras sob ocupação russa na Ucrânia] não são aceitáveis e não são cobertos pela lei internacional", disse Scholz à imprensa à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque.."Tudo isto é apenas uma tentativa de agressão imperialista", acrescentou o chanceler, pedindo à Rússia que retire as suas tropas das regiões ocupadas..O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, juntou a sua voz à condenação internacional ao afirmar: "Nunca iremos reconhecer estes 'referendos'. Justificou a declaração ao afirmar que se trata de "uma flagrante violação do direito internacional" e de "mais uma escalada da guerra". "É inaceitável", reforçou na mensagem publicada nas redes sociais..Na sua habitual mensagem em vídeo, o presidente ucraniano destacou o apoio do Ocidente contra os "referendos" dos separatistas pró-Moscovo sobre a anexação de territórios no Donbass. "Agradeço a todos os amigos e parceiros da Ucrânia pela condenação massiva e firme das intenções da Rússia em querer organizar ainda mais alegados referendos", afirmou Zelensky.."A situação na linha de frente indica claramente que a iniciativa pertence à Ucrânia. Os nosso defensores cumprem com cuidado e bravura as tarefas estabelecidas pelos seus comandantes", sublinhou ainda o chefe de Estado que voltou a pedir mais apoio para as Forças Armadas ucranianas. "Estamos a libertar a nossa terra e não estamos a mostrar sinais de fraqueza", declarou Zelensky..(Notícia atualizada às 23:27).Com agências