Um raio de luz tinha sido visto projetando-se de Marte com a duração de 70 minutos (...) o observador é um homem confiável e cuidadoso e não há nenhuma razão para duvidar de que a luz existisse. O que quer que a luz fosse, não há meios de saber. Se tinha inteligência ou não, ninguém pode dizer". A 1 de janeiro de 1901, o jornal The New York Times, dava voz a Edward Charles Pickering, astrónomo, diretor do Harvard College Observatory, nos Estados Unidos. Pickering citava o conteúdo de um telegrama que recebera dias antes do matemático e astrónomo, Percival Lowell. No dealbar do século XX e nas décadas seguintes, a Terra viveu a euforia de Marte e a possibilidade de o planeta albergar formas de vida inteligentes. A partir de 1894 e por 15 anos, Percival Lowell deixou a sua Boston natal para se instalar no deserto do Arizona onde fundou um observatório astronómico. Lowell e a sua equipa apontavam o telescópio a um ponto 216 milhões de quilómetros afastado da Terra, na expectativa de preencherem de vida os supostos canais marcianos. Em 1877, o italiano Giovanni Virginio Schiaparelli, sustentou a teoria de canais no Planeta Vermelho, detalhando-os no primeiro mapa de Marte e em obras como a de 1893, Vida em Marte..A distância a que se encontra o quarto planeta a partir do Sol, a pouca fiabilidade dos telescópios de finais do século XIX, início do século XX, a ausência de fotografia astronómica, à qual se somou uma generosa dose de criatividade em obras de ficção como A Guerra dos Mundos (1898), de H. G. Wells; Uma Princesa de Marte (1912), de Edgar Rice Burroughs ou, mais tarde, as Crónicas Marcianas (1950) de Ray Bradbury, acalentaram a esperança de os terráqueos não serem ato único de inteligência superior no Sistema Solar..A exploração espacial das décadas de 1950 e 1960 mudaria a relação da Terra com Marte. Após os desaires das três primeiras missões norte-americanas Mariner rumo ao Planeta Vermelho, a 28 de novembro de 1964, o quarto momento da missão apontou rumo a Marte a partir da base de lançamento da Estação da Força Aérea do Cabo Canaveral, na Flórida..Findos os 228 dias de viagem interplanetária, a sonda Mariner 4 tornou-se o primeiro objeto construído pela humanidade a sobrevoar com sucesso Marte. A 15 de julho de 1965, o engenho aproximou-se a cerca de 9000 quilómetros da superfície do planeta..Instalados na Secção de Telecomunicações, uma multidão de engenheiros do Jet Propulsion Laboratory aguardava o momento em que a Mariner 4 endereçasse à Terra a primeira fotografia de alta resolução do solo marciano, o que significaria a primeira visão de outro planeta captada a partir de um ponto de vista espacial..A bordo, a Mariner 4 carregava uma câmara de televisão associada a um gravador de fita. A mais de duas centenas de milhões de quilómetros de distância do nosso planeta, a sonda afadigava-se na captura de imagens, 22 no total, a cobrir 1% da superfície do planeta..As fotografias tardavam, contudo, a chegar à Terra, momento em que os computadores as processariam em imagens reais. Tempos de espera que não se compadeciam com a ansiedade da equipa liderada pelo engenheiro Jack Norval James, prestes a ter nas mãos a primeira fotografia da paisagem marciana..À máquina de telétipo instalada no Jet Propulsion Laboratory chegavam a cada segundo centenas de dados numéricos em bruto. Números impressos em papel, a representar a intensidade da luz nos píxeis, que inspiraram o engenheiro Richard Grumm, a avançar com uma ideia: agregar os dados numéricos debitados pelo telétipo em padrões de números, correspondendo-lhe uma chave de cores, progredindo das mais claras para as mais escuras..O resultado seria uma imagem pintada à mão da superfície do planeta. Nas horas seguintes, um grupo de engenheiros coloriu, com recurso a lápis a pastel, tiras de papel alinhadas lado a lado num painel, preenchendo de cor uma imagem povoada com 40 mil números..Nesse 15 de Julho, perante as câmaras da televisão norte-americana, o mundo acolhia a primeira imagem aproximada da superfície marciana, um cenário tingido de laranjas, ocres e castanhos..A obra pintada e assinada por Richard Grumm superou em cor e interesse a evidência que trouxe a primeira coleção de fotos impressas captadas pela Mariner 4. De súbito, o planeta que se cria rico em vestígios de vida, apresentava-se árido, pejado de crateras de impacto, de feição semelhante à da Lua. Esmorecia o interesse público..O planeta que animara romances como Mr. Stranger"s Sealed Packet (1889), do matemático escocês Hugh MacColl, não era um mundo fervilhante de vida, tão pouco lar de marcianos. Nos meses seguintes a Mariner 4 mergulharia na solidão do espaço. A 21 de dezembro de 1967 emitiria o último sinal rumo à terra, a mais de 300 milhões de quilómetros de distância de casa..A pintura por números de Richard Grumm permaneceria por vários anos como o exemplo visual mais entusiasmante do Planeta Vermelho. Eis que em novembro de 1971, a missão Mariner 9 recupera para os olhos da Terra o interesse por Marte..Em órbita ao planeta, a Mariner 9 captou em mais de 7000 fotografias um lugar rico nas paisagens, com calotas polares, vestígios de antigos leitos de rios e acidentes geográficos como o Monte Olimpo, o maior vulcão do sistema solar, com 21,9 Km de altura acima do nível médio da superfície marciana e uma base de 625 Km de diâmetro. A Mariner 9 forneceu, ainda, imagens de detalhe dos dois satélites naturais de Marte, Deimos e Fobos e permitiu elaborar o primeiro mapa global do planeta..Cinco anos volvidos sobre o sucesso da missão Mariner 9, 11 anos sobre a execução da pintura por números de Richard Grumm, a humanidade recebia da sonda Vicking 1 a primeira imagem captada na superfície marciana. A 20 de julho de 1976, a sonda aterrou no solo suave da planície de Chryse, um momento que o astrofísico norte-americano Carl Sagan recordaria no seu livro de 1981, Cosmos: "Aquele mundo não era estranho, pensei. Conhecia lugares assim no Colorado, no Arizona e em Nevada. Havia pedras e dunas e uma elevação distante, tão natural e espontânea como qualquer paisagem na Terra. Marte era um sítio".