Bélgica fecha cafés e restaurantes e decreta recolher obrigatório

Quase duas mil pessoas estão internadas com covid-19 na Bélgica, onde já morreram mais de 10 mil pessoas. Depois de duas semanas com os números de infeções a aumentarem, o país anuncia novas medidas de combate ao vírus.
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A Bélgica vai fechar todos os cafés e restaurantes durante um mês e decretou recolher obrigatório entre a meia-noite e as cinco da manhã. A medida aplica-se a todo o país e foi decidida esta sexta-feira, após acesa discussão, pelo Comité Consultivo Belga para o novo coronavírus, um órgão que integra representantes do Governo Federal e das várias regiões e províncias do país.

"Este é o momento de agir, não para improvisar", tinha afirmado esta semana o ministro da Saúde belga Frank Vandenbroucke, perante o continuado aumento no número de casos confirmados de covid-19 ao longo das últimas semanas. "São necessárias mais medidas. Espero que nesta altura já não seja necessário convencer ninguém da gravidade da situação", corroborou o primeiro-ministro, Alexander De Croo.

O número total de casos confirmados na Bélgica desde o início da pandemia é de 191 959.

Entre 6 e 12 de outubro, uma média de 5 976,3 novas pessoas testaram positivo por dia, o que representa um aumento de 96% em relação à semana anterior. Na segunda-feira, mais de 8 500 pessoas testaram positivo para covid-19 no mesmo dia. Tudo indica que, quando se souberem os números oficiais desta semana, na próxima terça-feira, eles revelarão um novo recorde de mais de 10 mil casos por dia.

O número de internamentos também duplicou nestas duas semanas, atingindo uma média de 193 novos internamentos por dia. Neste momento, são quase dois mil os doentes com coronavírus internados em hospitais na Bélgica. Desses, 327 estão nos cuidados intensivos, dos quais 167 precisam de usar ventilador para respirar.

De 9 a 15 de outubro, ocorreram em média 23 óbitos por dia, o que está acima da média de 17,4 na semana anterior. O número total de mortes no país desde o início da pandemia é atualmente de 10 327.

Nas últimas duas semanas, foram confirmadas 549,6 infeções por 100 mil habitantes, um aumento de 182% em relação às duas semanas anteriores.

Desde o início da pandemia, um total de mais de 3,9 milhões de testes foram realizados. Desses testes, cerca de 46 500 foram feitos na semana passada, com uma taxa de positividade de 12,7%.

Estes números fazem da Bélgica - que tem 11 milhões de habitantes - o segundo país com a maior incidência de casos de covid-19 na União Europeia (468 por cada 100 mil habitantes), superada apenas pela República Checa (521,5), e à frente da Holanda (387), Espanha (299,8) e França (299,7), de acordo com a última atualização do Centro Europeu para Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, sigla em inglês).

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A Noruega e a Finlândia são os únicos países a mostrar regiões predominantemente verdes no mapa de coronavírus da União Europeia, publicado pelo ECDC. As regiões estão vermelhas quando mais de 150 pessoas em 100 mil tiveram teste positivo para covid-19 nos últimos 14 dias. As regiões verdes registaram menos de 25 infeções por 100 mil habitantes no mesmo período.

A Bélgica está completamente a vermelho, assim como outros países, como a Holanda, o Reino Unido, o Luxemburgo e a França.

"Precisamos ter a situação nos hospitais sob controlo e mantê-la viável para os médicos e enfermeiras, que estão sob pressão desde março", disse De Croo na quinta-feira para justificar a necessidade de tomar novas medidas.

Sendo um estado federal, dividido em regiões - Bruxelas (capital), Flandres e Valónia - e dentro destas em províncias, a Bélgica tem mais dificuldade em adotar uma estratégia nacional de combate à covid-19. Para tal, esta semana foi criada uma task force, denominada Comité Consultivo Belga para o coronavírus.

Os vários representantes do Governo Federal, das comunidades e das regiões, que compõem o Comité reuniram-se esta sexta-feira. A meio da tarde, a discussão chegou a um impasse, segundo o jornal belga La Libre, por desacordo quanto à hipótese de apenas reduzir o horário de funcionamento de hotéis, bares e restaurantes (o chamado setor Horeca) ou de fechá-los por completo. Até que finalmente, pelas 17:30 (hora de Lisboa), chegou a notícia: os cafés e restaurantes vão fechar em todo o país durante um mês.

As medidas serão acompanhadas de um recolher obrigatório noturno, com a "venda de álcool proibida a partir das 20.00 e uma medida de "corta-fogo", entre a meia-noite e as cinco da manhã".

"Vamos limitar o número de contactos sociais próximos ao máximo de uma pessoa. O teletrabalho será regra, para as funções que o permitirem. Onde não for possível o teletrabalho, pedimos a adoção de todas as medidas necessárias para que aqueles que precisem de ir aos locais de trabalho o possam fazer da forma mais segura possível", anunciou o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo.

O primeiro-ministro não exclui a possibilidade de intensificar as medidas, perante o avanço do vírus, embora se diga "consciente que estas são muito severas, e que vão parecer injustas a muitas pessoas".

"Os casos de infeções e hospitalizações continuam a aumentar de forma alarmante (...), o número de novas infeções duplica todas as semanas" e "nas províncias do sul, mais afetadas, a cada três dias", declarou em conferência de imprensa o porta-voz do Comité Consultivo belga, Yves Van Laethem. O especialista sublinhou que o aumento das infeções é visível "em todas as faixas etárias, mas um quarto delas são claramente entre pessoas na casa dos vinte anos".

Bruxelas - sede de instituições da União Europeia e da aliança militar ocidental, OTAN - continua a ser o epicentro da epidemia na Bélgica, com uma média de 1005 novos casos por dia, embora o aumento do número de casos na capital não seja tão intenso quanto no país como um todo. Aliás, esta média foi na última semana superada pela província de Liège que registou uma média de 1028 novas infeções por dia, um aumento impressionante de 116% em relação à semana anterior. Em Bruxelas e em Liège, a percentagem de testes positivos já chega a 20%.

Esta desaceleração nas infeções registadas "pode dever-se às medidas restritivas aplicadas [em Bruxelas] há duas semanas, é muito cedo para saber, ou à saturação dos centros de diagnóstico", disse Van Laethem.

"Não devemos entrar em pânico. Não estamos na mesma situação de março ou abril. Conhecemos melhor o vírus e sabemos o que deve ser feito para controlá-lo. Mas devemos fazê-lo. Ditar medidas não basta. Devemos aplicá-las", afirmou o porta-voz do Comité.

Neste sentido, os especialistas belgas pediram à população que "limitasse os contactos ao mínimo absoluto" e respeitasse estritamente as regras básicas de distanciamento físico, incluindo o uso de máscara, higiene das mãos, ventilação de espaços fechados ou a utilização da aplicação de rastreamento para telemóveis.

atualizada às 23.30

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