China está disponível para dar a mão a Portugal

Bagão Félix, Mira Amaral e Rudolfo Lavrador coincidem na análise de que a nacionalidade dos credores de Portugal é irrelevante e os capitais da China são bem-vindos
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A visita do Presidente chinês, Hu Jintao, a Portugal, que hoje se inicia, surge numa altura em que a segunda economia mundial, em produção interna, aparece aos olhos da Europa como um dos "salvadores" da crise financeira.
 Especialmente dos países periféricos europeus, a braços com uma grave crise de liquidez, que precisam urgentemente de quem os financie, comprando as suas emissões de dívida pública.

É aqui que se cruzam as necessidades de financiamento portuguesas, com a disponibilidade já publicamente demonstrada pelos chineses de investirem em títulos de dívida europeia, concretamente portuguesa. Neste momento, é bem provável que os chineses estejam já a investir em força em obrigações nacionais, com os analistas a diagnosticarem a fuga de muitos bancos estrangeiros dos títulos portugueses, a braços com a aplicação especulativa de fundos de investimento, fundos de pensões e outros veículos de investimento, que fizeram disparar os juros da dívida para os 6,655% (ver texto ao lado).

É neste enquadramento de crise e no contexto de disponibilidade demonstrado pelos chineses, que a compra de dívida pública por parte de bancos chineses, controlados pelo seu Governo, surge como uma realidade dos últimos dias, aplaudida por economistas e analistas portugueses, ouvidos pelo DN.

"Os chineses estão com uma enorme disponibilidade de fundos, com uma grande capacidade para comprar dívida, e é natural que procurem esses títulos onde eles existem", disse ao DN Bagão Félix. Para o economista e antigo ministro, este investimento financeiro em títulos portugueses "é uma gota de água" nos muitos milhões de milhões que a China investe actualmente em todo o mundo. "Para nós, é indiferente que sejam chineses ou de qualquer outra nacionalidade", afirma, acrescentando que "o capital não tem cor".

E Portugal tem de facto grande necessidade destes investimentos financeiros, refere o economista, lembrando que só no próximo ano as nossas necessidades brutas de financiamento são de 45 mil milhões de euros. "Haver mais investidores disponíveis é sempre positivo, porque alivia a pressão sobre a taxa de juro", salienta ainda Bagão Félix, que não vê qualquer inconveniente na aposta deste país na nossa dívida pública.

Também para Mira Amaral, esta preferência já manifestada pelos chineses "é útil e simpática". O ex-ministro da Indústria lembra o facto de a China estar neste momento num forte movimento de diversificação da sua carteira de títulos de dívida pública, fortemente concentrada em obrigações do Tesouro norte-americano, virando-se também para aplicações em euros.

"Trata-se de uma boa notícia. Se nós temos boas e fortes relações comerciais com a China, não vejo porque não havemos de contar com as suas aplicações na nossa dívida pública", considera.

No mesmo sentido alinha Rudolfo Lavrador, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa e igualmente administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Também para este responsável, a nacionalidade dos credores das obrigações portuguesas é irrelevante. "Todos os credores são bons para a nossa dívida, pelo simples facto que acreditam no nosso risco e estão dispostos a comprar", refere, lembrando que estamos em mercados abertos, onde todos compram títulos em todo o mundo.

"Se houver procura e poupança líquida para investir, haverá tendência para corrigir os juros", recorda Rudolfo Lavrador. E acrescenta que este investimento é desejável, para que possa haver desenvolvimento.

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