Carris: Menos autocarros e mais espera e o motorista é que paga

No dia em que foi assinada a passagem da gestão da Carris para a câmara, motoristas denunciam aumento da violência
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Os autocarros em Lisboa circulam com menos frequência, o que tem levado à insatisfação dos utentes. E estes fazem questão que os motoristas percebam que não estão satisfeitos. De tal forma, que a Associação Sindical do Pessoal de Tráfego da Carris (ASPTC) emitiu um alerta denunciando os elevados números de baixas médicas. Dos 140 trabalhadores de baixa, metade são baixas psicológicas e o sindicalista Orlando Lopes acredita que se devem aos insultos que todos os dias ouvem.

"Ouvimos de tudo. Entendemos a situação, mas não somos os culpados por haver menos autocarros a circular", refere o dirigente. O pior é quando se passa das palavras aos atos, como aconteceu 55 vezes no ano passado, 51 em 2014 e 23 no primeiro semestre deste ano, segundo os dados da Carris.

Vítor Santos é um dos casos de 2015. Motorista, há dez anos na Carris, Vítor foi agredido há um ano e meio quando fazia o seu percurso habitual junto a Alcântara. "Quando ia para me aproximar de uma paragem, passei com o autocarro junto de três indivíduos que estavam parados à frente de uns carros estacionados. Segui viagem e três paragens mais à frente cheguei ao fim do destino. Quando me preparava para deixar entrar novamente os passageiros, três ou quatro homens saem de um carro, começam a bater no autocarro, há um que ainda passa pela frente e tenta mandar uma coisa pelo vidro do motorista, eu fechei o vidro. Mas não houve nada, não houve troca de insultos, nada. Entram de rompante no autocarro a dizer que ia atropelando um primo ou um irmão eu não percebi, só vi mãos e pés, não me deram oportunidade de me defender".

O episódio que Vítor recorda ainda não teve qualquer repercussão judicial. Apresentou queixa, mas desde então nada foi feito. "Há um sentimento de impunidade e nós motoristas sentimo-nos a peça mais barata do autocarro."

O motorista que aos 44 "nunca tinha andado à porrada", ficou com os olhos negros, a cara arranhada que lhe valeram dois meses de baixa médica. Não voltou ao mesmo percurso e quando há pouco tempo se enganaram e o tentaram por lá, Vítor até tremeu. "Pensamos que as coisas já passaram, mas ficam."

Lembra a responsabilidade que tem ao transportar diariamente milhares de pessoas - "levamos ali 60 ou 70 pessoas dentro do autocarro, temos de ter a cabeça limpa" - o que faz com que crie uma barreira que lhe permita manter a sanidade mental.

"Somos os primeiros a dar a cara e ouvimos muitas queixas de que não há autocarros suficientes. Às vezes dizem este motorista é muito simpático nem diz boa tarde, mas nós temos que criar uma barreira pela própria sanidade mental. Todos os dias lidamos com a falta de educação e de civismo."

É precisamente por terem de lidar com ofensas diariamente que muitos profissionais estão de baixa psicológica. "Pretendemos que haja algum cuidado, porque não somos nós os culpados", aponta Orlando Lopes. O dirigente sindical lamenta que não passe "um dia sem ouvir insultos". No entanto, o sindicato está esperançado que as coisas melhorem com a nova gestão (ver texto ao lado) e referem que já houve sinais positivos da nova administração.

Perante o alerta do sindicato do pessoal de tráfego da Carris, a empresa respondeu, numa nota enviada à Lusa, que as agressões são motivo de "grande preocupação" e referiu contar com a colaboração da PSP. "As agressões de que são alvo os nossos tripulantes ou outros profissionais, constituem grande preocupação para a empresa que, embora com as naturais limitações, por se tratar de postos de trabalho isolados, tem procurado, em colaboração com a Polícia de Segurança Pública (PSP), fazer o maior acompanhamento possível a esse profissionais", referia a nota da Carris.

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