Caetano Veloso sobre "Ofertório" e os filhos: "Para mim é tudo só felicidade"
"Uma celebração do amor pela música e pela família", é assim que Caetano Veloso apresenta Ofertório, um espetáculo feito em parceria com filhos Moreno, Zeca e Tom. O projeto nasceu da vontade do Caetano tocar publicamente ao vivo com os filhos, a quem cantava em casa desde crianças. Apesar da resistência inicial destes, como o próprio Caetano lembra nesta entrevista ao DN, o espetáculo acabaria mesmo para avançar, reunindo em palco pai e filhos a interpretarem a música de um e de outros em conjunto. Depois de no ano passado terem esgotado salas um pouco por todo o mundo, incluindo três noites nos coliseus de Lisboa e do Porto, o quarteto está agora de regresso a Portugal, para uma minidigressão com passagem por cinco cidades nacionais.
- Quando percebeu que os seus filhos tinham vocação para a música?
Moreno desde sempre. Zeca tinha, como ele, o amor pelas canções que eu cantava para pô-lo para dormir. Tom, nem isso. Só aos 15 anos ele, unindo-se a uma turma talentosíssima de sua escola, formou a banda Dônica, estudou violão com Cezar Mendes e deixou o futebol, até então a única paixão de sua vida. Hoje toca melhor do que nós. Adoro demais meus filhos. Ficaria feliz se Moreno fosse só físico (coisa que ele também é) e Tom só jogasse futebol. Zeca poderia ser um pastor evangélico, um pensador, um escritor. Na adolescência se aproximou da música eletrónica: queria ser DJ. Depois dos 18, começou a fazer umas canções incríveis, em casa. Só eu o ouvia, no começo. Hoje sua canção Todo Homem é o maior sucesso do Ofertório na internet, com muitos milhões de ouvintes e admiradores.
- Alguma vez os incentivou a serem músicos?
Só com o exemplo natural, dentro de casa.
- Como olha para a trajetória dos seus filhos, enquanto músicos? Alguma vez esperou que atingissem um nível tão profissional?
Nunca imaginei. Eles podiam fazer música ou não. Fico feliz de que façam porque assim tenho mais motivos para tê-los perto.
- Como era a relação deles com a música do pai?
Sempre foi boa, como já disse. Moreno e Zeca adoravam coisas que eu fazia. Moreno escreveu letra para música minha quando ele tinha ainda 9 anos de idade. Tom demorou, mas hoje é o mais músico de todos nós. Moreno e ele gostam mais de músicas de Gil. Tom exigiu que O Seu Amor, de Gil, entrasse no repertório. Na verdade abriríamos o show com ela. Zeca que mudou isso. Pediu Alegria, Alegria. Mas agora mudámos para Baby, porque eu gosto mais.
- Sendo este um espetáculo totalmente em família, Exerce algum tipo de autoridade paternal em palco?
Bem, sou pai deles, minha autoridade fica subentendida. Mas na hora que rola o show, é só deixar rolar.
- Como surgiu a ideia de fazer um espetáculo em família?
Ah, isso fui eu mesmo, eu sozinho, só eu. Sonhei com isso por muito tempo. Quando tentei dizer a Paulinha, Tom estava começando com os Dônica e ficou claro que não era hora nem de se pensar nisso. Depois de Dônica se firmar, consultei Paulinha de novo e ela foi mais recetiva. Aí falei com Zeca. E ele recusou terminantemente, tentando animar-me a fazer o show só com Tom e Moreno: "Os dois são músicos, pai, eu não me decidi por isso". O que me fez calar e nada propor aos outros dois. Passados uns meses, Zeca me disse que tinha-se concentrado, pesando muito, orado, e tinha chegado à conclusão de que, se eu ainda quisesse fazer o show com meus filhos, ele topava. Aí falei com Tom e com Moreno. Estes aceitaram logo, de modo simples, sem que parecesse ser coisa muito grande. Eu já tinha feito um show muito bonito só com Moreno e sentíamos saudade disso. Mas agora seríamos todos.
- Como foi escolhido o repertório, com a participação de todos ou valeu a tal autoridade paternal?
Valeu tudo. Todos opinavam, sugeriam coisas. Tom foi sempre muito definido: queria O Seu Amor, disse que, dele, só cantaria Clarão, ajudou Zeca a me convencer a cantar Trem das Cores. Moreno tem repertório grande e de alto nível: tivemos muitas canções dele, depois tivemos que reduzir a umas essenciais e deixar outras, lindas, de fora. Zeca tinha essa dele, que é genial e outra, Você me deu, feita em parceria comigo. E sola em Alguém Cantando, além de abrir vozes nas corais e de cantar um samba de Xande de Pilares no bis. Eu defini muita coisa na estruturação do roteiro, mas todo mundo palpitava. Estreamos sem estar seguros de que as plateias poderiam aprovar, ou mesmo aguentar.
- Haverá algumas diferenças entre o show que apresentaram aqui em Portugal no ano passado e este de agora?
Há uma ou outra mudança no repertório, mas a estrutura geral é a mesma. O fato de termos estado tocando juntos por tanto tempo (quase dois anos!) nos deixou mais azeitados e descontraídos. Isso faz o show parecer outro. Mas a gente vê o vídeo no YouTube e, no fundo, é a mesmíssima coisa. Tom acha horrível o que está na internet porque estávamos verdes e hoje, ele diz, tocamos muito melhor. Mas para mim é tudo só felicidade.
Concertos:
Coliseu do Porto. 1 de julho, segunda 22h. €25 a €75
Centro de Artes e Espetáculos, Figueira da Foz. 3 de julho, quarta 20h. €50 e €60
Coliseu dos Recreios, Lisboa. 5 de julho, sexta 22h. €20 a €90
Teatro Micaelense, Ponta Delgada. 7 e 8 de julho, domingo e segunda 21h30. €60 e €70
Teatro das Figuras, Faro. 10 de julho, quarta 21h30. €60 a €70