O que leva um médico neurologista a querer ser deputado? O que me leva à política é a defesa do Serviço Nacional de Saúde. Lutar pelo SNS, por um novo investimento que permita recuperar de todos os ataques que tem sofrido ao longo das últimas décadas..E isso traduz-se em quê? O principal problema do SNS é que está a ser vítima de uma predação por parte dos grupos privados de saúde. E isso tem sido feito com a conivência dos governantes que temos tido nas últimas décadas. O que está a acontecer é que, à medida que o SNS se degrada, perde serviços e essa perda de serviços está a ser contratualizada com os privados, que beneficiam diretamente da degradação do SNS. É preciso investir no SNS para que recupere a sua autonomia. Porque o que estamos a fazer é criar uma renda fixa, que os contribuintes pagam, de serviços que o SNS não consegue, neste momento, providenciar. Isto é um ciclo vicioso que tem vindo a piorar nos últimos anos..Isso significa que é contra as PPP, tema que ficou adiado para a próxima legislatura... Sou brutalmente contra as PPP, são uma perversão do que é serviço público em termos de saúde. Qualquer cidadão português não entende que uma esquadra da polícia, uma universidade pública, uma escola secundária seja entregue à gestão de privados, não percebo porque é que devemos aceitar que um hospital público deva ser gerido por privados. Não faz sentido, não é aceitável. Por outro lado, aquilo que tem sido dito sobre as PPP é um grande engodo. Um hospital público atende toda a gente, todos os doentes e todas as doenças. Uma PPP não o faz, é por isso que é fácil ter bons resultados financeiros. O Hospital de Braga foi multado quatro vezes por ter desviado doentes para outros hospitais. Não podemos ter esta promiscuidade, tem de haver uma separação clara. E o mesmo nos recursos humanos: temos de promover a exclusividade. Aquilo que aconteceu foi que, aos pedidos de contratação de novos profissionais, de compra de material, Mário Centeno decidiu fazer veto de gaveta..É um problema de cativações? Apesar de estarem proibidas as cativações, apesar de os orçamentos terem verbas destinadas ao investimento no SNS, a verdade é que estes pedidos de contratações, de compras, acabaram por ser bloqueados na secretária de Centeno. E isto é o principal problema que temos na saúde. Temos de acabar com os vetos de gaveta das Finanças e investir verdadeiramente na saúde..Como vê o trabalho da ministra da Saúde? O problema principal da saúde não é a ministra, é a dependência que tem do Ministério das Finanças e da política económica do governo. Ela está presa por restrições que vêm do colega das Finanças. É muito difícil a qualquer pessoa que esteja naquele lugar conseguir gerir um serviço com esta dimensão com eficácia e com bons resultados..O que está a dizer é que quem manda na saúde é Mário Centeno. Sim, na verdade, sim..A bancada do BE já teve um médico, muito marcante, o João Semedo. Será o herdeiro das causas que ele defendeu? Eu cresci politicamente com o João Semedo. Trabalhei de perto com ele, acompanhei o trabalho que fez no Parlamento, muito do que aprendi sobre política e política de saúde devo-o ao João Semedo. Claro que não vou, e não ouso, ter um papel sequer próximo daquele que teve o João Semedo, que é um gigante da medicina, um gigante da política de saúde. Mas quero aportar para o meu mandato muitos dos ensinamentos que me passou..Uma das causas que tem defendido é a despenalização da morte assistida, que foi chumbada na última legislatura. Acredita que na próxima será diferente? Vai ser diferente, vamos ter as condições políticas necessárias à despenalização. Estamos confiantes de que vai haver uma maioria de esquerda....No PS há liberdade de voto. E o PCP é contra. Tenho uma certa incompreensão com a posição do António Costa. O PS apresentou um projeto na última legislatura, votou quase unanimemente a favor, mas António Costa continua a manter esta posição fora do programa do PS. Não percebo porquê. Acho que devemos ser claros em política, não devemos abster-nos de tomar qualquer posição. Mas acredito que a maioria dos deputados do PS vão votar favoravelmente. E, neste momento, temos na liderança do PSD o Dr. Rui Rio, que esteve connosco no movimento pela despenalização da morte assistida..Mas não contará com o PCP. Infelizmente não contamos com o PCP, neste momento. Acreditamos que o PCP vai fazer uma evolução, rápida, no sentido de rever a sua posição..O uso da canábispara efeitos terapêuticos já foi aprovado. O que falta? Em termos legislativos falta despenalizar o consumo recreativo da canábis. Não faz sentido continuarmos a proibir a canábis, que já foi despenalizada em boa parte do mundo europeu e fora dele. Hoje sabemos que a forma que temos de melhor controlar os consumos é regulamentando - aí é que está a chave. Regular o consumo da canábis permite-nos saber o que é que as pessoas estão a consumir, em que quantidades, em que circunstâncias e, a partir daí, começar a desenhar políticas públicas de prevenção de consumos problemáticos. Isso é futuro, já está aqui, Portugal precisa de entrar nesse futuro..No seu perfil do Twitter diz-se "neurologista, esquerdalho, nadador, gay, ateu e portista". O que é ser esquerdalho? É ser de esquerda. Isso é um insulto que algumas pessoas usam em relação aos ativistas de esquerda. E acho que ser um ativista é saber rir-se de si próprio, ser capaz de perceber os insultos e apropriar-se deles. É uma das coisas que, por exemplo, o movimento LGBT e o movimento feminista muitas vezes fazem, a apropriação daquilo que são insultos na tentativa de desconstruir a linguagem..A ser eleito, será o segundo deputado assumidamente gay. É um sinal de que está a ser feito um caminho ou de que há muito caminho a fazer? É um sinal com dois significados. O primeiro é que, de facto, estamos a entrar na normalização: é perfeitamente possível hoje um deputado ser abertamente gay e estar a candidatar-se para defender o SNS. Em segundo lugar, a assunção pública da orientação sexual ainda tem um significado importante de luta, ainda temos um problema social de discriminação, de homofobia, de bullying nas escolas..A recente polémica das casas de banho foi um sinal disso? Essa polémica diz-nos uma coisa muito importante, que existe uma fação da sociedade, fundamentalista e radicalizada, que está disposta a publicar cartoons pornográficos com adolescentes - estou a falar de um deputado do CDS - para justificar e para fomentar as suas ideias discriminatórias. Não nos enganemos: aquilo que aconteceu foi um grupo radicalizado, fundamentalista, que procura alterar a linguagem para manter a discriminação em relação às pessoas LGBT. Falar de ideologia de género é uma forma que encontraram, politicamente correta, de manifestar a sua homofobia e transfobia..Gostaria de participar numa nova geringonça? O que gostaria era de fazer parte de uma força política com força eleitoral suficiente para influenciar políticas. Este é o meu objetivo. Quanto mais força o BE tiver, mais capacidade terá para influenciar as políticas públicas.