A língua, a religião e até os peixinhos da horta. Pontes que ficaram até hoje
A língua primeiro que tudo. A mais óbvia de todas as pontes construídas pelos Descobrimentos iniciados pelos portugueses no século XV. Cerca de 270 milhões de falantes do português hoje, 27 vezes mais do que os habitantes de Portugal. Os cálculos são do embaixador Luís Faro Ramos, presidente do Instituto Camões, numa recente entrevista ao DN: "A língua portuguesa é falada por mais de 260 milhões de pessoas, que são as populações da CPLP, e a elas juntaria a nossa diáspora, que tem cinco milhões, mais todos os que estão pelo mundo fora a aprender português. Diria, sem ser muito arriscado, que deve andar por volta dos 270 milhões." Quinta ou sexta mais língua falada no mundo e a dominante no hemisfério sul.
Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste (Guiné Equatorial é um caso discutível apesar de país membro da CPLP). Quatro continentes com marca lusófona, um legado longínquo de D. Manuel I, o primeiro monarca na história a ter exércitos em quatro continentes, sublinhou-me um dia o historiador João Paulo Oliveira e Costa. Sim, um rei português, não o grego Alexandre, nem o romano Augusto, nem o mongol Genghis Khan.
Foi-se o império, como costuma acontecer a todos os impérios (basta ver os nomes acima), mas ficou essa língua que nos une e que sobrevive também, além de nos territórios da diáspora, em Goa e Macau, também sob uma forma crioulizada em locais tão distantes como Curaçau e Malaca, igualmente sob a forma de palavras isoladas na Indonésia (muitas) ou no Japão.
Marcelo Rebelo de Sousa esteve recentemente na Índia, onde Vasco da Gama aportou em 1498, reinava por cá o tal D. Manuel I, o Venturoso. O Presidente da República visitou Nova Deli, a capital, mas também Goa, colónia portuguesa até 1961, onde sobrevivem os nomes Noronha, Mascarenhas, Fernandes, Rodrigues ou Souza. E em Pangim, com o Presidente a ouvir, houve missa em português, ouviu-se português, que as gerações mais velhas ainda falam, a par do konkani e do inglês.
Mas não se veja nas suas palavras saudosismos de uma era passada, de quando Salazar recusava negociar com Nehru a transferência de Goa para a Índia, apesar de os britânicos terem descolonizado já o subcontinente e os franceses terem feito o mesmo. "Goa está integrada na Índia, mas é diferente... um lugar único... único onde encontramos o futuro, mas não nos fixamos no passado. É por isso que eu sinto que a minha vinda a Goa não é nostálgica", acrescentou o Presidente, depois de ver as igrejas brancas que se destacam na paisagem semitropical e esse bairro das Fontainhas, em Pangim, que tantas semelhanças tem com Santa Maria, na ilha do Sal, ou com a brasileira Olinda.
Em crónica aqui no DN, Edgar Valles, antigo presidente da Casa de Goa, escreveu: "Alexandre Moniz Barbosa, diretor do Herald [principal jornal de Goa], referiu no editorial de domingo que 'Goa pode ser considerada a base para um maior fortalecimento das relações entre a Índia e Portugal. Se Lisboa pode ser a porta de entrada para a Índia em relação à União Europeia, Goa pode, do mesmo modo, ser a porta de entrada de Portugal na Índia".
Ainda hoje, há em Goa um significativo número de pessoas que falam português. O Instituto Camões e a Indo Portuguese Friendship Society promovem o ensino da língua portuguesa e a Fundação Oriente tem uma função cultural relevante. A Universidade de Goa tem um Departamento de Português, com licenciatura no nosso idioma.
Os benefícios para Goa de um aumento das relações comerciais, culturais e mesmo políticas com Portugal é imenso. O que atrai os turistas indianos a Goa, o estado mais pequeno da Índia, é a sua especificidade, o sentimento de que estão na Europa sem terem passado pelo controlo da imigração. Tal deve-se, em grande parte, à influência portuguesa, à longa história de partilha com Portugal, que quase sessenta anos de integração na Índia não conseguiram apagar'."
Outra ponte deixada pelos Descobrimentos é a religião. Quem já visitou a Índia terá notado a abundância de nomes portugueses, muitas vezes de gente que não é de Goa nem descende de goeses. É que à medida que o catolicismo se foi espalhando pela Índia, o facto de os primeiros missionários terem sido portugueses, com destaque para os jesuítas, fez que os tais apelidos Fernandes ou Souza, ou ainda Dias e Saldanha, se generalizassem a ponto de hoje uns 30 milhões de habitantes da Ásia do Sul os ostentarem, isto até no Paquistão, onde conheci há 20 anos o arcebispo Pereira, ou no Sri Lanka, cuja guerra civil terminou graças ao general Sarath Fonseka.
E quando o Papa Francisco foi ao Sri Lanka fazer santo José Vaz, estava a homenagear um filho de Goa, educado por padres portugueses. Também em Timor o catolicismo faz ainda hoje ponte com Portugal, até porque talvez seja o principal elemento diferenciador do país em relação ao vizinho, a gigantesca Indonésia de maioria islâmica. E a Igreja Católica esteve sempre na primeira linha de defesa da população durante as duas décadas e meia de ocupação indonésia, como prova o Nobel da Paz atribuído tanto ao bispo Ximenes Belo como ao dirigente da resistência e futuro primeiro-ministro e presidente José Ramos-Horta. Mesmo em África, essa matriz católica deixada pelos portugueses ainda hoje ajuda a fazer pontes com Portugal, mesmo em países como a Guiné-Bissau, de maioria animista e islâmica, ou Moçambique, onde na parte norte o islão é influente.
E que dizer do Brasil, o mais populoso dos países católicos? Mas basta visitar Fátima e perceber que o santuário mariano atrai católicos do mundo inteiro, muitos dessas terras distantes a que os portugueses chegaram por mar e por terra (lembremo-nos de Pêro da Covilhã e da sua missão à Etiópia).
Surpreendente é outra das formas como os Descobrimentos fizeram pontes: através do estômago. Sim, do estômago, ou se quisermos ser elegantes, pelos sabores. São as mais globais das pontes que criámos. E não falo só da batata, do tomate ou do milho que vieram do Novo Mundo transformar por completo a forma como os povos ibéricos, e depois os restantes europeus, se alimentavam.
Falo de algo muito mais complexo, um dia contado brilhantemente por Ferreira Fernandes nestas páginas e que recupero agora, longamente e com a devida vénia: "O daqui para ali da cana-de-açúcar e do abacateiro, a história do viajante amendoim, o milho turista, o cacaueiro que partiu e a pimenteira que chegou. Um dia, o sargento luso-brasileiro Francisco Palheta seduziu a mulher do governador francês da Guiana, roubou-lhe uma muda de café arábica e levou-a para o Brasil. Quando, numa esplanada de Ipanema, o leitor hesitar entre uma água de coco e um cafezinho, saiba que não pode fugir ao de cá para lá dos portugueses. Do café já temos as precisões de quem levou aquilo que se tornou uma das imagens de marca do Brasil; do coco ainda está para saber qual o veleiro que sulcou o Índico e aportou num porto brasileiro.
"E se o leitor for brasileiro, descanse que os portugueses não lhe podem cobrar por isso: o que eles deram, tiraram. Enfim, trocaram. Levaram para Angola a mandioca brasileira e fizeram com ela o mais popular prato luandense, fubá amaciada com azeite de dendém (ou óleo de palma): este, entretanto, partiu da costa atlântica africana para dar ainda mais gosto à comida da baiana de Salvador."
E continua o meu diretor nesse debate interatlântico: "Além da mandioca, o Brasil exportou para África o milho. Dividindo os países por gostos de que se ignoram as causas. Se no norte de Angola se come mais a mandioca, no sul é o milho, divisão que ocorre também no continente: na Nigéria, a fubá é de mandioca, no Zimbabwe, a farinha é de milho.
"Troca. E nem sabem quanto! O milho americano que partiu pelo mundo fora no Brasil, um dos pontos da sua difusão histórica mundial, é comido como mingau. Lá, se ao milho se põe leite de vaca ou de coco, no nordeste brasileiro chamam-lhe munguzá. Já no sul do Brasil chamam-lhe canjica. Agora reparem, munguzá, canjica... Ambas vêm do quimbundo angolano: mukunza e kanjica. Quer dizer, o milho foi do Brasil para Angola e as palavras sobre o milho foram de Angola para o Brasil. Não sem razão, o palato e a palavra coabitam no mesmo órgão do corpo humano, a língua. Resumindo, comer é eminentemente cultural e contar a maravilhosa viagem do comer pela história é, nesta, um seu importante capítulo.
"Um mestre da nossa língua, o angolano José Eduardo Agualusa (já não sei se angolano, português ou carioca), tem um livro chamado Um Estranho em Goa. É um livro para ler comendo uma manga e, por falar nisso, as mangueiras são originárias da Índia e do Índico. Houve tempos em que não havia mangas por aqueles lugares de referência do Agualusa e se hoje as há é talvez uma das razões que levaram aquele escritor a escrever aquele livro."
Não falou Ferreira Fernandes do tempura, mas falo eu. Os portugueses chegaram ao Japão em 1543 e durante um século foi grande a influência mútua: ficaram por lá palavras como koppu e pan, trouxemos deles catana e sacana (peixe). Nos tempos mais recentes, rendemo-nos ao sushi, mas com este veio a tempura, que no fundo são os nossos peixinhos da horta refinados pela gastronomia do Extremo Oriente. Tempura vem da expressão latina para designar a Quaresma, quando os jesuítas se abstinham de comer carne vermelha. Daí a fritura dos vegetais, que os japoneses de Nagasáqui copiaram, tal como o castela, bolo ainda hoje muito popular na cidade e com afinidades ao nosso pão-de-ló.
Para terminar, já imaginou mais pontes do que num lanche em que se sirva castela e um chá? Um bolo japonês inspirado pelos portugueses e uma bebida chinesa trazida da Ásia para a Europa pelos portugueses e que se popularizou no mundo depois de Catarina de Bragança ter levado o hábito de a beber para a corte inglesa no século XVII? Consigo imaginar duas freiras brasileiras no Japão a fazê-lo.