A insuportável igualdade

Em O Homem Duplicado, Saramago retoma uma das mais antigas questões da humanidade: como viver com o outro
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Numa primeira leitura, imediata, O Homem Duplicado, o novo romance de José Saramago, editado pela Caminho, parece uma história de clones: numa noite, um solitário e depressivo professor de História, tentando distrair-se com o visionamento de um filme em vídeo, descobre alguém exactamente igual a si. Um dos actores desse filme é o seu duplo absoluto, o seu duplicado. Essa súbita revelação muda totalmente a vida de Tertuliano Máximo Afonso (assim se chama o tal professor), que vai então visionar os restantes filmes em que aparece o mesmo actor, apenas para confirmar que existe alguém igual a si.

Clones? Essa dedução seria demasiado simples - e José Saramago, aliás, confirmou em entrevista que o seu romance nada tem a ver com essa questão. Na verdade, O Homem Duplicado parece-me ser uma reflexão sobre a identidade, sobre a relação eu-outro, sobre a própria condição humana.

Tertuliano, homem só, paralisado pelo tédio, interroga-se: 'Às vezes tenho a impressão de não saber exactamente o que sou, sei quem sou, mas não o que sou'. E quando finalmente conhece o outro que é como ele, coloca a 'inquietante questão de se saber quem é o duplicado de quem'. Pior: vem a descobrir que o tal outro igual a si nasceu no mesmo dia do mesmo mês e ano, mas meia hora antes, ou seja, o original é o outro e não ele... E o outro ainda lhe lembra que 'de cada vez que se olhar num espelho nunca terá a certeza de que se o que o está vendo é a sua imagem visual, ou se a minha imagem real'.

Mas este 'extraordinário caso do homem duplicado' é, afinal, o retomar de uma interrogação muito antiga, imemorial, desde que 'um rosto humano se apercebeu pela primeira vez de si mesmo na superfície lisa de um charco e pensou, Este sou eu', embora agora a pergunta seja 'Este quem é'. Ontem como hoje, as relações humanas são 'autênticos labirintos cretenses', sobretudo a comunicação entre mim e o outro: ainda que se desenvolvam as tecnologias de comunicação em autêntica progressão geométrica, 'a outra comunicação, a propriamente dita, a real, a de mim a ti', continua, incompreensivelmente, a ser 'esta confusão cruzada de becos sem saída'. E, porque não nos entendemos, eu concluo, como os dois homens iguais deste romance, que 'um de nós está a mais neste mundo'. 'Diz-se que só odeia o outro quem a si mesmo se odiar, mas o pior de todos os ódios deve ser aquele que leva a não suportar a igualdade do outro, e provavelmente será ainda pior se essa igualdade vier a ser alguma vez absoluta'. Talvez seja esta a 'chave' deste romance, se esta leitura estiver certa. O que me leva a pensar num outro caso de homem duplicado, escrito num outro livro: a história de Caim e Abel, contada no Génesis - Caim descobre que existe um outro, que não está só no mundo. Desde então até hoje, como Saramago nos recorda, a questão por resolver é a da construção da fraternidade.

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