"A História de Portugal dava para Hollywood fazer centenas de filmes"

O escritor vai lançar o seu mais recente romance: <em>Adeus Casablanca.</em> Uma história inspirada no desvio do avião da TAP em 1961, um protesto político que agitou ainda mais um ano em que a governação de Salazar foi abalada por acontecimentos impensáveis para o Estado Novo.
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O nome da cidade marroquina de Casablanca está bem presente na memória de todos os que gostam de cinema, afinal o filme protagonizado por Ingrid Bergman e Humphrey Bogart nunca foi esquecido. São muitos os espetadores que sempre desejaram voltar ao cinema para ver a sua continuação, mas apesar de várias tentativas isso nunca aconteceu. Foi a partir dessa premissa que o jornalista e escritor João Céu e Silva decidiu ficcionar uma espécie de sequela, quanto mais não fosse porque a última cena de Casablanca é a da despedida do par romântico, quando Bergman embarca num avião que a leva para Lisboa.

A estrutura do romance, que chega às livrarias amanhã (6 de setembro), tem a ver com a tentativa da argumentista encarregada por um estúdio de Hollywood para escrever o novo argumento e que, ao saber do desvio do avião português, que fazia a carreira Lisboa-Casablanca, considera ser o ponto de partida que necessita. Vem a Lisboa informar-se sobre esse acontecimento que tanto incomodou Salazar, num ano em que já tinha havido o desvio do paquete Santa Maria e começara a guerra em Angola, e da capital portuguesa vai para Casablanca, onde estará uma das passageiras desse voo. A sua intenção é descobrir o que aconteceu e ver até que ponto a vida dessa portuguesa poderá inspirar a continuação do mítico filme.

O autor explica ao DN que o seu objetivo foi utilizar um facto histórico como base ficcional neste livro: "A História de Portugal dava para Hollywood fazer centenas de filmes!" Acrescenta: "Se Clint Eastwood, tivesse tido conhecimento das fugas impossíveis de prisioneiros de Peniche e de Caxias, talvez tivesse trocado Alcatraz por Portugal no filme que fez sobre essa prisão norte-americana."

Não pretendendo ser o argumento de uma possível sequela, o romance Adeus Casablanca é, considera o escritor, uma narrativa que confirma esse seu pressuposto de a história do nosso país ser muito cinematográfica. "Só o ano de 1961 dava para meia dúzia de grandes filmes", garante. Dá exemplos relativos ao seu livro: "Em abril de 1961, reúnem-se em Casablanca os movimentos independentistas das províncias ultramarinas de Portugal com o apoio do rei Maomé V e seis meses depois chegam à cidade os oposicionistas Henrique Galvão e Humberto Delgado. A atividade diplomática e a da polícia política terá de acompanhar muito de perto o que se passa em Casablanca, ou seja, tem os melhores ingredientes para um ótimo thriller."

Sem querer desvendar a trama do romance, João Céu e Silva refere que tudo começa com a detenção da protagonista na praia de Cascais por usar um fato de banho considerado inapropriado pelas autoridades, curiosamente o mesmo sucedeu com a atriz que interpreta o papel de Ilsa Lund no filme de Michael Curtiz, quando em 1963 foi autuada na praia de Montegordo por vestir um biquíni. Teve de ser o diretor desse hotel de luxo a evitar o escândalo provocado pelo cabo do mar." A partir daí, a ação decorre na maior parte em geografia marroquina, com o par romântico a fugir da perseguição que lhe é movida após o desvio do avião, sem esquecer evocações das obras de Paul Bowles e a filmagem de Lawrence da Arábia, entre outras referências da época. É o romance próprio para quem nunca esqueceu o filme Casablanca e daria tudo para voltar ao cinema ver a sua continuação. Que poderia ter como ponto de partida o desvio real do Super-Constellation, que causou a Salazar tantos dissabores como o filme a Hitler.

Adeus Casablanca

João Céu e Silva

Editora Guerra & Paz

319 páginas

Apresentação por Lídia Jorge no sábado, pelas 17.00, no auditório sul da Feira do Livro de Lisboa.

"Foram vários os acasos que me levaram a conhecer aquela mulher que estava sentada num cadeirão, como que perdida a olhar a paisagem que se via da janela do Rick"s Café em Casablanca. De idade avançada, não demorei muito a imaginar que poderia ser contemporânea das filmagens que deixaram Humphrey Bogart e Ingrid Bergman ligados para sempre àquela cidade através de uma história de amor cheia de situações dramáticas que só os tempos de uma guerra mundial seriam capazes de criar. Na verdade, ela não tinha assistido ao filme quando, no final do ano de 1942, estreou nos cinemas - "Ainda era muito nova", fez questão de dizer -, mas vira -o na sua juventude e também sofrera com as desventuras de um par romântico que tinha tudo para ficar junto, mas a quem isso não fora permitido.

Disse-me que se chamava Laura, um nome que não imaginei logo como sendo português. Disse-lhe o meu, Diana Gellhorn, mas não lhe contei o que realmente fazia em Casablanca. Até porque, quando começou a relatar a sua vida, compreendi que saber algo da minha história de pouco significaria em comparação com tudo o que aquela mulher já vivera. Fiquei, obviamente, curiosa quando confirmei que residira em Casablanca quando tinha a minha idade e que os acontecimentos que lhe mudaram a vida poderiam rivalizar com os desse filme.

- Não estou iludida, foi mesmo assim!

De seguida, ficou em silêncio, como que a recordar o passado e calei-me. Não a queria pressionar, apesar de estar ansiosa por saber o que lhe acontecera durante o tempo em que morara em Casablanca.

Durante esses minutos em que Laura permaneceu em silêncio, voltei a fixar-me nos seus olhos. Adivinhava neles uma história que tinha de ouvir e, provavelmente, seria aquela que me teria feito vir até Marrocos. Felizmente, Laura nunca perguntou a razão da minha viagem e eu mais não fui do que uma ouvinte atenta do que foi contando. Se Laura quisesse saber o porquê da minha presença em Casablanca, teria de ser sincera e dizer que era argumentista de um estúdio de cinema americano contratada para escrever a continuação do filme Casablanca. Poderia confessar-lhe que estava ainda muito longe de saber como iria ser a sequela, e que a única coisa que poderia garantir era que não a queria inferior ao filme original. Como Laura nada me perguntou, eu nada lhe disse, preferi escutar a sua história e logo veria o quanto ela me inspiraria.

Fora o seu olhar completamente perdido no tempo e a observar o exterior que se via desde aquela janela do Rick"s Café que me fizera reparar nela. Estava imóvel quando notei a sua presença e assim ficou durante um longo período, como se tudo nela estivesse desfocado do presente. Contudo, havia no seu olhar um brilho que confirmava estar a acontecer-lhe algo de mágico, como se desaguasse naqueles olhos um rio de imagens em que só ela poderia navegar. Não existiria naquela corrente de memórias, a que a mulher estaria a assistir numa solidão especial, lugar para outros actores e cenas novas.

Enquanto esperava, perguntei a um dos empregados se a conhecia e a resposta soube-me a pouco.

- É uma cliente que tem sido habitual nos últimos dias, mas nada sei sobre ela.

Cabia-me, então, informar-me do que fosse possível sobre a dona daqueles olhos. Aguardei mais um pouco e entretive-me a ver o restaurante, que do Rick"s Café original pouco imitava ao nível da arquitectura, mas estudava o filme por todos os lados. A zona onde tinha almoçado ficava perto de uma moldura com um cartaz de outro filme com Ingrid Bergman e também próximo de outro com Humphrey Bogart. A mesa ficava debaixo de uma enorme clarabóia que encimava o tecto daquela sala, num varandim a meia altura do edifício que dava para um pátio em baixo, e dali era impossível não reparar no balcão semelhante àquele a que Bogart se encostava e pedia uma bebida no início do filme. Era inevitável não recordar que, pouco depois, ele ouvia a música As Time Goes By e se dirigia ao pianista para o admoestar.

- Não quero que toques essa música, quantas vezes já te disse?

A personagem interpretada por Bogart ainda não reparara na razão por que o pianista se pusera a tocar a canção proibida: fora a pedido da personagem representada por Ingrid Bergman, que tinha entrado no Rick"s Café há poucos instantes e, sem ele poder adivinhar, vinha baralhar-lhe novamente a vida. Olhei em redor e logo descobri um piano num lugar de destaque na sala. Não era parecido com o do filme, reparei, mas oferecia um teclado para que outras mãos transportassem os clientes a memórias de outros tempos. Distraída, demorei a voltar a reparar na mulher com um brilho nos olhos, que, entretanto, voltara ao mundo real. Achei que já a poderia incomodar, nada tinha a perder e poderia ganhar tudo. Foi com algum receio que me aproximei dela, após decidir que chegara a minha vez de entrar na sua vida.

A mulher não se assustou com a minha aproximação, apenas ficou surpreendida.

- Estava tão distraída! - disse para justificar a sua primeira reacção, acrescentando em seguida: - Sabe, eu vivi nesta cidade, mas naquela altura não existia um Rick"s Café como agora. Nenhum estrangeiro percebia a razão dessa ausência, afinal era a primeira coisa pela qual todos procurávamos mal chegávamos à cidade, além de que a maioria destes marroquinos desconhecia que havia um filme tão bonito que se passava na sua cidade, o que era ainda mais estranho.

- Foi uma boa ideia este casal ter aberto um Rick"s Café... Acho que foi inaugurado há uns meses.

Os olhos dela continuavam brilhantes como quando os descobrira, talvez um pouco menos porque eu a distraíra. Não resisti a utilizar esse pretexto para saber algo mais sobre ela.

- Desculpe o que lhe vou dizer, mas reparei que parecia estar noutro mundo ainda há pouco. É verdade?

Não respondeu de imediato. Em seguida, olhou para mim com um olhar misterioso, quase de detective, talvez a perguntar-se se deveria dar-me atenção ou se seria melhor continuar sozinha e obrigar-me a ir embora pela ausência de respostas. Tive sorte.

- Tem toda a razão no que disse. Desde que cheguei à cidade que me é impossível não viver quase sempre no tempo em que Casablanca existiu na minha vida. E não foi durante um período assim tão grande, mas eu era muito impulsiva e fiz o que bem me apeteceu.

Antevi que não seria necessário forçar o fio das memórias de Laura, bastava mostrar interesse e, seguramente, ouviria a sua história. Não demorou muito para que me contasse que regressara a Casablanca porque soubera da inauguração do Rick"s Café.

- Está muito diferente de como era quando cá viveu? - Comecei por esta pergunta para a qual sabia a resposta, mas esperava, deste modo, captar a sua atenção e poder ouvir a história que imaginava existir na memória daquela mulher.

Às vezes, penso que ser argumentista troca-me as voltas à vida, pois acho que posso escrever as falas que desejo ouvir em vez daquilo que as pessoas têm para me dizer. No entanto, estava certa de que Laura não me iria desiludir - aquele olhar que lhe descobrira era uma boa promessa - e bastava ser cautelosa para que ela desabafasse. Não devia pressioná-la, apenas demonstrar suficiente interesse.

- Não tem pressa em rever Casablanca, é isso?

- Pressa... essa palavra já não existe na minha vida, é mais querer evitar desilusões. Pelo que vi através da janela do táxi, a cidade mudou muito, está mais moderna e incaracterística em relação ao que era. Sabe que os americanos, quando visitam Marrocos, querem sempre começar por Casablanca, o problema é que esta cidade não tem interesse algum para os turistas. A imagem que trazem é a daquele filme antigo que em nada corresponde à realidade. Casablanca foi filmado em estúdio, bem longe daqui, e os cenários nada tinham que ver com a cidade de então. Não vai encontrar um recanto sequer que se assemelhe ao que se vê no filme, apenas o que os decoradores de Hollywood achavam que seria uma cidade do norte de África. Acho que nem nunca cá vieram filmar um exterior, foi tudo inventado. Tinha um amigo que explicava este engano assim: "O visitante chega e não encontra nenhuma das vielas escuras em que os habitantes locais, com os seus turbantes, estão envolvidos em intrigas e espionagem, apenas avenidas que se estendem por quilómetros. Só mesmo por acaso encontrará alguma rua daquelas ou alguém de turbante. Casablanca não é Marrocos, é um prego alheio cravado no flanco de Marrocos." Era pior ainda na altura em que vivi cá, e nisso o meu amigo tinha razão, a cidade continuava assombrada por uma tenebrosa présence française, que era um fantasma que recusava ser exorcizado apesar de o protectorado já ter acabado há alguns anos. É o que acontece a uma cidade que quer ser europeia, mas é povoada por muçulmanos!

Tentei desviar a conversa para o que mais me interessava, perguntando-lhe em que época ali vivera. Foi assim que fiquei a saber que tinha uma idade muito próxima da da actriz Ingrid Bergman quando estivera em Casablanca.

- Não gostaria de ter ficado a viver em Casablanca? - perguntei a seguir."

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