Em resposta à pandemia, todos os decisores, em todas as áreas e jurisdições, foram céleres, inovadores e coordenados. A crise surgiu com uma natureza temporária e simétrica, afetou todos os setores de forma dramática, mas evoluiu de acordo com as regras do confinamento e tornou-se muito assimétrica. Assim, as medidas adotadas devem, em 2021, ser adaptadas à evolução da crise e devem servir para preparar a recuperação..Esta foi a estratégia adotada em dezembro na recalibração dos mais eficazes instrumentos de política monetária. Embora as perspetivas de vacinação sejam animadoras, a profundidade da segunda vaga, a sua duração e as medidas de contenção associadas não foram previstas e requeriam uma resposta. A preservação de condições de financiamento favoráveis recomendava recalibrar os dois instrumentos principais, o programa de aquisição de ativos soberanos (PEPP) e alargar a concessão de liquidez ao setor bancário (TLTRO). O objetivo é garantir condições favoráveis em todos os setores da economia, num contexto de forte assimetria do impacto da crise..A manutenção de condições de financiamento favoráveis pode ser conseguida com fluxos de compra de ativos que não esgotem o novo envelope financeiro ao longo do horizonte de compras líquidas do PEPP. Da mesma forma, este envelope pode ser recalibrado, se necessário. O PEPP tem a flexibilidade suficiente para evitar o risco de fragmentação. Os resultados falam por si: Portugal conseguiu colocar dívida a um ano com a taxa de retorno mais baixa entre os países da área do euro e os diferenciais de juro entre Portugal e a Alemanha estão em mínimos desde 2010..A crise hoje é desigual. Um desafio para as políticas. As condições de acesso ao crédito devem ser favoráveis, embora não se deva incentivar empréstimos sem sustentabilidade económica..Ao contrário das crises anteriores, a política monetária e orçamental adotadas pelos Estados membros e na Europa estão a funcionar em conjunto e evitaram uma queda catastrófica prolongada..Nos próximos meses, a política monetária continuará a apoiar todos os setores da economia e garantir que o crédito flui pela economia. Pelo seu lado, as autoridades orçamentais devem evitar os impactos negativos associados ao término abrupto de algumas medidas..O grau de implementação das medidas em Portugal foi muito elevado. Os apoios ao rendimento, como o lay-off simplificado, e os apoios à liquidez, como as moratórias, pelo seu impacto e eficácia, devem ser mantidos ao longo do ano, mas devem ser adaptados à evolução da crise económica..As moratórias não são um perdão de crédito. As famílias e as empresas devem retomar o reembolso dos créditos, mas de forma gradual e efetiva, permitindo um retorno à normalidade sem sobressaltos. Até setembro de 2021, estima-se que até 11 mil milhões de euros de reembolsos previstos nos planos de créditos venham a ser adiados devido às moratórias. Não se trata de um acumular de dívida, mas sim de um adiamento do pagamento, acomodando esse momento ao retorno da atividade a níveis mais próximos do período anterior à crise. Na verdade, o mesmo se espera que venha a acontecer com as Regras Orçamentais na Europa e com a política monetária do Eurossistema..Cabe ao sistema bancário, às empresas, às famílias e ao Estado preparar esse momento, à medida das necessidades de cada um, mas garantindo que a vacinação e a obtenção da imunidade de grupo sejam concomitantes com o retomar das responsabilidades anteriores. Acendeu-se uma luz, que marca o primeiro dia do resto da pandemia, essa luz é certamente de esperança mas também ilumina a nossa responsabilidade coletiva..Governador do Banco de Portugal