40% de desempregados de longa duração ficam com pensão inferior a 400 euros

Sistema de penalizações associado muitas vezes a um histórico de salários baixos explica valores reduzidos das pensões. Cortes para quem esteja nos 50 anos são relevantes
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Cerca de 40% dos desempregados de longa duração que pedem a reforma antecipada (antes da idade legal para o fazer) ficam a receber uma pensão de valor inferior a 400 euros mensais. No primeiro trimestre deste ano acederam à reforma, através deste regime, 2244 pessoas.

O número de desempregados de longa duração (classificação que inclui as pessoas que ficam sem trabalho por mais de 12 meses) que optam por passar à reforma registou um máximo em 2015 e parece estar agora a abrandar. Ao longo do ano passado acederam a este regime uma média de 3399 pessoas por trimestre - número que supera as 2244 pensões atribuídas nos primeiros três meses deste ano. Mas o peso das pensões de valor mais baixo mantém-se sem grandes alterações: um em cada cinco destes novos reformados recebe menos de 300 euros por mês e outros tantos recebem entre 300 a 400 euros mensais. Ou seja, cerca de 40% têm de viver com um valor mensal (considerando as 14 pensões pagas durante um ano) pouco acima do indexante de apoios sociais (atualmente em 419,22 euros) ou dos 422 euros que servem de referência ao limiar de pobreza.

Para Eugénio Rosa, especialista em sistemas de pensões e representante da Frente Comum no conselho consultivo da Caixa Geral de Aposentações, o abrandamento destes pedidos de reforma antecipada pode ser explicado por dois fatores. Por um lado, por estar a diminuir o número de desempregados a receber subsídio de desemprego e, por outro, porque as pessoas nesta situação, e que reúnem condições para aceder à reforma antecipada, são agora informadas do valor que vão receber e têm de confirmar expressamente que pretendem mesmo avançar com o pedido.

"Haverá pessoas que depois de verem o valor que vão ficar a receber acabam por recuar no pedido", diz Eugénio Rosa, que chama a atenção para a "cascata" de penalizações que são atribuídas a quem se reforma antecipadamente. Ainda que no caso dos desempregados de longa duração a idade legal de reforma que serve de referência para a contagem das penalizações seja os 62 anos, acabam ainda assim por resultar num corte relevante para quem está na casa dos 50.

Segundo os dados do Ministério da Segurança Social, em resposta a uma questão colocada pelas deputadas do PCP Rita Rato e Diana Ferreira, a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, das 2244 pessoas que acederam à reforma antecipada por desemprego, contam-se 1404 (61%) com uma pensão acima dos 400 euros. A estas, somam-se 456 que ficaram a receber entre 300 e 400 euros; 290 balizados entre os 200 e os 300 euros e cerca de uma centena entre os 100 e os 200 euros. A informação revela que uma pessoa ficou abaixo dos 100 euros. Nos três anos anteriores, foram atribuídas 21 pensões abaixo dos 100 euros.

Estes valores resultam, como acentuam as deputadas, muitas vezes de um histórico de salários muito baixos a que se soma o sistema de penalizações. No regime de reforma antecipada por desemprego de longa duração é aplicada uma penalização de 0,5% por cada mês que à data da reforma lhe falte para completar 62 anos. A isto há que somar o fator de sustentabilidade (que supera atualmente os 13,3%). Quem fez uma rescisão por mútuo acordo sofre ainda uma tripla penalização, que apenas desaparece quando atingir a idade legal da reforma (que atualmente está nos 66 anos e dois meses).

com Filipe Paiva Cardoso

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