Às 16 horas do dia 16 de fevereiro de 1999, em pleno carnaval, Givaldo José Vicente de Deus, 35 anos, foi assassinado com um tiro disparado à luz do dia por Raimundo Alves Gomes, num bar do bairro Asa Branca, em Boa Vista, Roraima, no norte do Brasil. Gislayne Silva de Deus, filha de Givaldo, com apenas 9 anos na época, lembra-se de fragmentos da tragédia..“O meu pai era soldador mas nós também tínhamos um mercadinho em casa, como era carnaval, ele montou uma barraquinha para vender água e cerveja aos foliões na avenida”, recorda Gislayne, ao DN..“Às tantas, ele saiu da barraquinha e passou no bar da Vanusa, onde encontrou um amigo, o Bahia, com quem jogou ‘sinuca’ [snooker] e tomou uma cerveja, estava todo o mundo em clima de carnaval”, continua Gislayne, hoje com 36 anos, um a mais do que o pai na hora da morte..Durante a ‘sinuca’, Raimundo, fornecedor de produtos para o mercado de Givaldo, apareceu no bar para lhe cobrar uma dívida de 150 reais, o equivalente, ao câmbio de hoje, a cerca de 25 euros. Segundo Gislayne, o pai tentou chegar a um acordo com Raimundo: “Meu pai disse ‘olha, eu não tenho o dinheiro agora, mas tenho um freezer [congelador] lá, pode pegar para você ou, então, espera uns dias até eu vendê-lo e te pago’, Raimundo então saiu, o meu pai achou que com essa garantia estava tudo certo, até porque ele era visita de nossa casa, e voltou a jogar sinuca com o Bahia”..No entanto, meia hora depois, Raimundo voltou ao bar com uma arma à cintura, conforme depoimento à polícia de Vanusa, a dona do estabelecimento, no dia do crime. Vanusa ainda mandou Givaldo fugir mas ele não conseguiu, o que precipitou uma luta corporal entre ambos..“O meu pai segurou o braço do Raimundo mas não a mão e ele conseguiu virar a arma e atirar, acertando na região do umbigo do meu pai”, conta a filha..Após o tiro, os clientes conseguiram desarmar Raimundo e obrigaram-no a levar Givaldo para o hospital. Mas a vítima não resistiu. .De acordo com o depoimento dos agentes que atenderam o caso, Raimundo fugiu então do hospital à pé mas foi preso a poucos metros do local, com a arma - ilegal, por não ter documentação - na mão..Raimundo esteve preso por 17 dias mas respondeu ao resto do processo em liberdade e só foi julgado, pelo Tribunal de Justiça de Roraima, 14 anos depois do ocorrido, em 2013. “O promotor de justiça ia até pedir a absolvição, não fosse a intervenção enérgica da família”, diz Gislayne..Condenado a 12 anos de prisão por homicídio, recorreu e ficou em liberdade até em 2016 ser emitido um mandato de prisão. “A partir dessa data desapareceu, ficou foragido e, como Roraima é um lugar com muitas rotas de fuga por fazer fronteira com dois países, Guiana e Venezuela, as buscas foram dificultadas”..“Por outro lado, caso não fosse apanhado até 2031, nos próximos sete anos portanto, a pena prescreveria”, explicou o advogado Bruno Caciano, ao portal G1..Paralelamente ao caso, Gislayne foi crescendo com uma convicção: “eu dizia que não queria ser polícia, advogada, juíza, nada que tivesse relação com a segurança e a justiça, porque estava muito abalada com a forma como eles trataram o caso do meu pai ao longo dos anos”..“Porém, Deus tinha outros planos...”, sorri. “Do nada, comecei a frequentar Direito numa faculdade, em 2007, tornei-me advogada, em 2014, e membro das forças policiais, a partir de 2022”..Primeiro, ingressou na polícia penal e atuou na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, onde, segundo ela, começou a imaginar o assassino do pai a entrar na cadeia. E, a partir de 19 de julho de 2024, a pedido da própria, passou a integrar a Delegacia Geral de Homicídios, onde já havia estagiado, para, através da unidade, encontrar e, finalmente, prender o autor do crime..No departamento, localizou o último mandato de prisão contra Raimundo, emitido em 2019 pela justiça de Roraima, logo depois de um tio ter dito que se cruzara com o criminoso no bairro Raiar do Sol, não muito longe do bar da Vanuza. “O meu tio, que andava sempre com o meu pai, disse-me que o Raimundo o reconheceu, estavam os dois no trânsito, cada um no seu veículo, mas que ele, logo que o viu, desatou a fugir num carro vermelho, Fiat Palio, cuja placa o meu tio não foi a tempo de conferir”, diz Gislayne..No dia 25 de setembro, sabendo que uma equipa ia ao bairro Raiar do Sol, ela passou as informações sobre o mandato de prisão de Raimundo e sobre o carro vermelho - “eu fiz o trabalho de inteligência na base e eles fizeram o trabalho de campo, delimitando a área”. Um drone localizou então o Fiat Palio vermelho por baixo de uma árvore e o assassino de Givaldo foi, finalmente, preso, numa área de chácaras no bairro Nova Cidade, também relativamente perto do local do crime de há 25 anos..“Foi graças não só a mim mas a toda a família pela determinação de não deixar ele ficar impune”, diz Gislayne. “Isto não vai trazer o nosso pai de volta, mas ele vai cumprir a pena que deveria ter cumprido há muitos anos: a sensação é de que a justiça foi feita, com a prisão dele lavei a minha alma e a da minha família, foi o encerramento de um ciclo, hoje temos mais paz”..Na hora da detenção, Gislayne teve até um momento a sós com Raimundo. “’Não era minha intenção’, foi tudo o que ele me disse...”.