Uso com demasiada frequência algumas passagens d’O Labirinto da Saudade, de Eduardo Lourenço, por continuarem insuperáveis no modo como captam a essência do “ser português” através dos tempos, mas, muito em especial, nos últimos 200 anos. Escreve ele que “os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo”..Se isto é válido para muitas áreas da vida política, social ou cultural, por maioria de razão e deformação profissional, encontro esta forma de estar em modo de “representação” especialmente presente na Educação, onde a maior preocupação é fazer “boa figura”, mais do que assumir por inteiro qualquer realidade incómoda. Veja-se o caso dos rankings, em que se sucedem apelos à sua não-publicitação porque, alegadamente, levam a escola pública a fazer má figura. Veja-se como quem fez algo, assume o seu contrário sem problemas ou pudor, se isso lhe parece conveniente. O governante que colaborou no fim das provas finais de ciclo, nos 4.º e 6.º anos, em 2015-16, não tem qualquer pudor em surgir, em 2024-25, a afirmar que é na continuidade da sua acção que essas mesmas provas são repostas..Escreve ainda Eduardo Lourenço que aos portugueses, na sua demanda por parecer bem e construir uma imagem que iluda as suas fragilidades, “da verdade o que mais nos fascina é a paixão que ela comunica e não o processo em que consiste a sua busca com a visão nela do que falta e não do que nela resplandece”. Em 2024, como em 1978, é válida a percepção de que “quando o religioso perdeu o seu valor ouro ficou a política e hoje a ideologia”, apenas sendo de rigor acrescentar que por “ideologia” já se entende coisa bem mais relativa e oportunista..E podemos continuar no diagnóstico que nos apresenta a sociedade portuguesa como uma “sociedade em perpétua desfasagem entre o que é e o que quer parecer”, sendo isso especialmente relevante no que quer dar a entender que parece para o exterior. É difícil não encontrar na construção de um sucesso educativo estatístico para exportação, que depois se importa da OCDE como se fosse de superior validação internacional, uma prova eloquente da “promoção eufórica e cara da nossa imagem exterior que em seguida reimportamos como se fosse de facto a dos outros sobre nós”. É mesmo muito difícil não perceber até que ponto o investimento na promoção internacional de políticas e políticos nacionais na área da Educação superou qualquer capacidade de um verdadeiro olhar auto-crítico, indispensável para identificar e combater, em devido tempo, as “fragilidades” que parece ser muito doloroso assumir..Por isso, a nomeação de um ex-governante para um cargo internacional, origina um desfile de elogios públicos, mesmo de quem em privado longamente o criticou, como se esse “sucesso” individual pudesse, de algum modo, ser partilhado por um colectivo frágil, cuja auto-imagem se constrói sobre a validação externa. A tentação por parecer bem, a nível externo ou interno, central ou local, tornou-se obsessiva, assim como a necessidade de confirmar a justeza da representação da realidade. Tudo o que não sirva esse desígnio entra no domínio da não-inscrição e perde-se no nevoeiro de que nos falou José Gil em 2004 num Portugal, hoje, que ainda é o mesmo em 2024. .Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.