Todos os forcados têm medo

Esta é a história de quatro forcados de Alcochete. Dispostos a morrer pelo companheiro que está ao seu lado e pela festa. Com medo. Sem sentimentos de culpa.

A mãe de João fecha os olhos. Não consegue ver. A mãe de Manuel toma dois calmantes antes de cada corrida. Para conseguir ver. Eles riem-se. Andam nisto desde miúdos, desde que se lembram. Ou até antes. "Sei que a primeira vez que fui a uma corrida de touros tinha um ano", conta Manuel Pinto, de 19 anos. "Desde pequenino que ouço histórias e vejo touradas. O meu pai e os meus tios foram fundadores do grupo dos Forcados Amadores de Alcochete. Antes disso, um tio-avô já tinha sido forcado. Está-me um bocadinho no sangue. A primeira vaca que peguei foi na minha festa dos sete anos. Por isso, quando me perguntam desde quando é que sou forcado eu tenho dificuldade em responder. A primeira vez que me fardei e peguei um touro foi aos 16 anos."

Juntamos quatro forcados a uma mesa e as histórias repetem-se. Nuno devia ter uns nove ou dez anos quando enfrentou uma vaca pela primeira vez, "a muito custo, aquilo não correu muito bem", mas não desistiu. João conta que numa das primeiras corridas a que assistiu aconteceu uma tragédia: "Perdemos um de nós, o Helder António. Era miúdo e lembro-me que aquilo teve um grande impacto em mim." Em Alcochete "existem muitos forcados, é uma cultura, uma tradição que está impregnada, faz parte das brincadeiras e do sonho de criança ser forcado", conta Nuno Santana, 31 anos, que é atualmente o cabo do grupo de forcados. "É uma coisa natural, quase todos os meus amigos eram forcados", acrescenta João Rei, 36 anos. "Começamos com as vacadas nas festas, as garraiadas escolares, a gente brinca, arrisca e vai-se tornando uma coisa cada vez mais séria."

Na família de Diogo Van den Toorn, 30 anos, não havia qualquer tradição. O pai é holandês e ele vivia no norte de Portugal. Mas quando se mudou para Alcochete, aos 10 anos, não tardou a ser tocado pelo "bichinho". "Dizia ao meu pai que ia jogar à bola e depois chegava a casa todo sujo. Ele achava estranho mas como era inverno e o campo ainda era pelado, a coisa passava", recorda.

A legislação só permite que se seja forcado aos 16 anos mas, antes disso, os rapazes de Alcochete já pegaram vacas e novilhos e já treinaram bastante com as "tourinhas". Ainda assim, enfrentar um touro bravo numa praça é uma sensação completamente diferente. "Toda a gente tem medo. É impossível não ter medo", afirma Diogo sem hesitar. Não existe isso de não se ter medo. "O que temos de fazer é superar o medo. Uns têm mais, outros têm menos, cada um consegue controlar o medo de maneira diferente. Já aconteceu rapazes que querem ser forcados e vão treinar uma vez ou duas e percebem que não conseguem e desistem."

Em frente ao touro, a adrenalina é mais forte do que o medo. "A adrenalina é um vício", explica João. "É preciso controlar o medo e a ansiedade." Até porque, por mais que se preparem, os forcados nunca sabem o que vai acontecer quando se abre a porta dos curros. O touro é uma carta fechada, dizem. Mesmo tendo observado o comportamento do animal ao longo da corrida, é impossível prever como é que o bicho se vai comportar. "Nós aprendemos as técnicas e preparamo-nos mas, no momento, aquilo é metade técnica, metade instinto. Fecha os olhos, abre os olhos e já passou", diz Diogo. "Naquele momento não pensamos em nada. Depois logo vêm as palmas e o resto." "Quando o forcado salta há um apagão no cérebro", acrescenta Nuno. São segundos que a eles lhes parecem horas. "Quando estamos debaixo do touro parece que aquilo nunca mais acaba, depois quando vemos o vídeo percebemos que foi tudo muito rápido."

Nem sempre as coisas correm bem. "Na tauromaquia todos fogem ao embate. Nós somos os únicos que nos expomos ao embate", diz Nuno. O grupo de Alcochete já perdeu dois elementos em praça. E outros três ficaram cegos, devido a ferimentos com as bandarilhas. Também há umas costelas partidas de vez em quando e outras maleitas mais pequenas. As tragédias abalam-nos mas, na semana seguinte, eles estão lá todos outra vez, dispostos a sujarem-se com o sangue do touro.

"É preciso perceber que um grupo de forcados é essencialmente um grupo de amigos, a nossa força vem daí", explica João. Fora da arena, estes amigos encontram-se frequentemente, mesmo agora, no inverno, quando não há treinos nem corridas, eles juntam-se para jantar e para conversar, encontram-se na sede sem precisar de marcar. "Crescemos juntos e somos amigos, isto envolve a família, a nossa vida. Somos como irmãos. Isso é essencial." Quando se veste a farda, assume-se uma responsabilidade perante o grupo: "O outro está disposto a dar a vida por mim, eu darei a vida pelos outros." Por isso é que aquela imagem, icónica, do homem em frente do animal, pode ser muito bonita mas não corresponde à realidade, dizem: "Nunca é só um homem." São os que estão na arena, mais os outros que ficaram lá atrás.

Um que dá a cara, os seus ajudantes, o rabejador. Em cada pega há oito homens na arena porque esse é, mais ou menos, o peso de um touro. Convém que este seja bravio, destemido, que invista com determinação. É o que todos querem, para que a pega seja bonita. "O touro é que manda na pega. A tourada é a festa do touro, ele é a estrela", explica Diogo. Para eles, não há dúvidas de que cada corrida é uma celebração do touro e não um sofrimento para o animal. "As pessoas deviam informar-se um bocadinho melhor antes de falarem das touradas", queixa-se. E há uma certa irritação, não conseguem evitá-lo, quando contam os insultos que ouvem de cada vez que chegam ao Campo Pequeno. "Põem-se aí à porta, atiram-nos coisas, não têm respeito nenhum. Chamam-se animalistas mas na verdades eles não fazem nada pelo animal nem querem saber. Por exemplo, será que sabem que se não houver tauromaquia não existem touros bravos? Será extinto."

Diogo responde aos que querem o fim da tourada falando não só da tradição e da festa, mas dando ênfase ao animal: "É verdade que o touro morre depois da festa, mas o objetivo não é matar o touro, o objetivo é que ele sobreviva. E ele sobrevive se der uma boa luta. Se fizer o seu trabalho, o touro não morre, volta para o campo. Esse é o prémio. E esse é o objetivo do ganadeiro, ter um touro que faça uma faena espetacular e que sobreviva. Esses touros são os mais valiosos."

"Mas não queremos falar mais dessas pessoas. Não lhes devemos dar atenção", intervém Nuno. "Eles não percebem." É Manuel, o mais novo do grupo, estudante de Direito e jogado de râguebi, que encerra o debate: "É difícil explicar a mística e as emoções de ser forcado mas estou disposto a dar a vida a tentar". Na arena.

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