Ibn Battuta, o marroquino que foi até ao fim do mundo e contou o que viu

No século XIV um sábio de Tânger aventurou-se durante décadas pelo mundo islâmico e mais além. Diz-se que foi o maior viajante da história, quase sempre de camelo ou de cavalo, também de barco, por vezes a pé. Mais de cem mil quilómetros percorridos.

Não faltam admiradores a Ibn Battuta (1304-1369), desde o canal de TV History, que num documentário classifica o marroquino como "o maior viajante da história", aos arabistas alemães do século XVIII que o deram a conhecer na Europa, passando por Jawaharlal Nehru, o pai da independência indiana, que elogiou a curiosidade do letrado muçulmano nascido em Tânger.

A opinião de Nehru ganha peso especial porque foi no sultanado de Deli que mais tempo Ibn Battuta passou dos vinte e muitos anos da sua primeira ausência de Marrocos. E ali tendo sido sete anos juiz, observou a vida da Índia, deixando descrições do sistema de castas e até do queimar das viúvas, mas também da convivência entre religiões.

Índia, depois China, as atuais Indonésia e Filipinas. Calcula-se que mais de 40 países tenham sido visitados em três décadas. Foi muito longe Ibn Battuta, mas a sua partida de Tânger em 1325 com destino a oriente tinha um objetivo básico, ainda que sagrado para os muçulmanos: fazer a peregrinação a Meca. E, apesar da distância, os tempos eram promissores de uma viagem rápida, pois no século XIV vivia-se uma época de estabilidade no Dar al-Islam, findas as Cruzadas e as invasões mongóis.

"Mohamed bin Abdullah bin Mohammed Al-Lawati Al-Tangi, conhecido por Ibn Battuta, nasceu em Tânger, oriundo de uma família antiga de juristas. Foi um historiador, um jurista e um cientista que durante três décadas se fez à descoberta da história da humanidade, a começar pelo Magrebe, Médio Oriente, Península Arábica, depois Golfo Pérsico, Levante, Oriente, África e mais tarde o Ocidente. Sempre em busca do conhecimento, com a descoberta das pessoas e suas diferenças, nas tradições, culturas e condições de vidas. Este viajante, cujas memórias conseguiram elaborar uma descrição clara dos países que visitou, teve um contributo importante no conhecimento do mundo islâmico", tenta sintetizar, cheio de orgulho, o presidente da comunidade marroquina, Mohamed Chichah, tangerino tal como Ibn Battuta.

Foi por iniciativa de um sultão da dinastia merínida, que governava Marrocos, que das aventuras de Ibn Battuta nasceu uma rihla, género árabe de relato de viagens. Logo se tornou um sucesso no mundo islâmico. Além de terras islâmicas, ou governadas por muçulmanos, o marroquino fez incursões no Império Bizantino, na Rússia, na Indochina e até mesmo na China (onde apreciou a segurança mas maldisse os pagãos). Depois de regressar a Tânger, voltou a partir: visitando em Espanha o que restava do Al Andaluz e indo para Sul em busca dos mistérios do Império do Mali. Morreu em 1368 ou 1369, talvez em Fez, mais provavelmente em Marraquexe. Na sua Tânger natal é homenageado com um túmulo que perpetua a memória deste sábio que só tardiamente começou a ser lido fora do mundo islâmico, graças a arabistas alemães e aos franceses instalados no norte de África, que traziam para a Europa vários manuscritos das suas viagens.

"Concretizei realmente - louvado seja Deus - o meu desejo neste mundo, que era viajar através das terras, e alcancei um conhecimento que nunca outra pessoa conseguiu. Resta o mundo por vir, mas a minha esperança é forte na misericórdia e clemência de Deus para que possa também entrar no Jardim do Paraíso", escreveu Ibn Battuta, mostrando como era um muçulmano piedoso, o que, a par do conhecimento do Alcorão e da língua árabe, lhe foi sempre abrindo portas numa época em que o islão já se estendia do Magrebe ao Sudeste Asiático. Fora do mundo islâmico, foram os argumentos intelectuais do tangerino e os seus modos refinados que lhe serviram de passaporte. Uma figura extraordinária, mesmo que aqui e além os peritos realcem algum episódio mal explicado ou locais difíceis de identificar. Da vida pessoal também pouco se sabe, tirando que se terá casado com dez mulheres por esse mundo fora.

"Ibn Battuta é, acima de tudo, para todos os marroquinos uma fonte de orgulho. É um reflexo do que somos; ou seja, um povo plural, aberto aos outros e pertencente a uma encruzilhada de culturas e civilizações. Ibn Battuta, como Marco Polo, Magalhães e tantos outros homens e mulheres, contribuiu com as suas viagens ao fim do mundo e com as suas explorações para o desenvolvimento do saber, do conhecimento e da humanidade", diz o embaixador de Marrocos em Portugal. Othmane Bahnini acrescenta: "Além das suas histórias e descobertas, que foram estudadas por etnólogos, geógrafos, sociólogos e historiadores, Ibn Battuta representou no seu tempo, a par com a sua origem berbere, a sua religião muçulmana e a sua pertença a um país do norte da África considerada à época forte e próspera, uma fonte de inspiração e interesse. As várias interações que teve com os povos que conheceu durante as suas viagens originaram intercâmbios e enriquecimentos mútuos, tal como aparecem relatados nos seus escritos." Conclui o diplomata que "este período fascinante da sua vida em busca do conhecimento e da descoberta do outro deu origem certamente às sementes de um fenómeno geralmente chamado hoje de globalização ou mundialização".

Já de regresso a Tânger, Ibn Battuta deixou um resumo do que foi a sua vida: "Viajar a princípio deixa-te sem palavras, depois torna-te num contador de histórias."

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