Premium As portuguesas são campeãs a estudar ciências

Em Portugal, 57% das estudantes que chegam ao ensino superior escolhem as áreas científicas, o que se traduz num número alto de mulheres com carreiras na ciência. A visibilidade que alcançam, sendo um exemplo para as gerações mais novas, acaba por reforçar a tendência.

Zita Martins lembra-se bem do momento e do sítio. Tinha 15 anos quando, durante uma visita escolar, percorreu os laboratórios de química e física do Instituto Superior Técnico e se surpreendeu encantada. Deu-se conta nesse dia de que era aquilo que queria fazer na vida. Aquilo era a ciência. "Foi muito importante aquela visita escolar. Mesmo sem saber bem ainda que área iria escolher, percebi naquela altura que queria ser cientista."

Hoje, Zita Martins faz investigação em astrobiologia. Estuda meteoritos marcianos encontrados na Antártida, há de analisar as poeiras cósmicas e as amostras de um asteroide que a sonda japonesa Hayabusa2 vai trazer para a Terra em 2020, e participa em missões da NASA e da Agência Espacial Europeia (ESA) a outros planetas, como Marte, enquanto investigadora do Instituto Superior Técnico - uma bela coincidência.

A jovem astrobióloga não está sozinha no gosto pelos mistérios da ciência. Muitas outras jovens portuguesas tiveram, e têm, experiência idêntica. "Sempre tive um gosto especial por desafios e, para mim, a Matemática é pensar com criatividade", diz Inês Leitão, estudante do primeiro ano do curso de Matemática Aplicada na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa . "Eu acredito que a matemática é o futuro." Rita Marques, aluna do primeiro ano de Biologia, acredita que o curso é abrangente. "É tanto ligado à saúde e à medicina como à natureza e aos animais. Desta forma, ficamos a conhecer todas as vertentes da ciência."

O número de mulheres a estudar ciências em Portugal tornou-se uma estatística especial para o país, no primeiro lugar destacado no conjunto dos países da OCDE com mais raparigas e mulheres a estudar ciências e a formar-se nessas áreas: 57%, bem acima da média dos membros da OCDE (39%), ou de países como a Espanha, com 35%, ou mesmo a França e a Alemanha, que se ficam pelos 38%.

O estudo da OCDE divulgado no ano passado avaliou a paridade de género nos diferentes países e nas diversas áreas e mostrou que, neste ponto, só noutros dois países mais de metade dos alunos que escolhem as áreas científicas a partir do secundário são do sexo feminino: a Itália, com 53%, e a Turquia, com 50%. A seguir vem a Polónia, com 48%, a que se seguem o México e a Grécia, com 46% cada.

"É o resultado de um trabalho de décadas, que vejo com otimismo e com uma ponta de orgulho, na parte que me diz respeito", congratula-se Zita Martins, que em 2013, quando era investigadora no Reino Unido, se tornou uma das cientistas regularmente solicitada pelas televisões e pelos jornais do país para falar sobre astrobiologia e ciências do espaço. "Na sequência de um estudo que mostrou que praticamente não havia mulheres cientistas nos meios de comunicação do país, a BBC selecionou um grupo de mulheres cientistas a quem deu formação para isso. Eu candidatei-me e fiquei", conta. Em Portugal, essa realidade é diferente e há "uma percentagem elevadíssima de mulheres com doutoramento, o que torna o país um exemplo a nível mundial", assegura a investigadora.

Mas porque prefere a maioria das raparigas portuguesas enveredar pelas áreas científicas, colocando o país numa liderança que parece inesperada? Ainda mais com uma chegada tardia à democracia, que ditou um atraso generalizado na atividade científica restrita e muito subfinanciada até à década de 1990. As respostas podem variar bastante. Beatriz Miranda, de 18 anos, garante que sempre gostou de ajudar pessoas e por isso Ciências Farmacêuticas era a escolha acertada. Para Ana Marta Tiago, de 19, Medicina Veterinária era a opção que melhor conjugava o gosto pela investigação e o interesse pelos animais e o seu bem-estar.

Outro fator que terá sido decisivo chama-se Ciência Viva, o programa inovador de atividades científicas extracurriculares para os estudantes do ensino básico até ao final do secundário, criado há 23 anos pelo então ministro da ciência José Mariano Gago, falecido em 2015.

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