Os novos fones são praticamente impossíveis de distinguir dos antigos, de 1979.
Os novos fones são praticamente impossíveis de distinguir dos antigos, de 1979.Sony

Sony ressuscita auscultadores do Walkman original, agora em versão USB-C

Marca japonesa recupera o 'design' emblemático de 1979 e associa-se à série "Stranger Things", mas existem concessões técnicas e até desaconselha o uso com os seus próprios leitores de áudio dedicado.
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A Sony anunciou esta quinta-feira (5 de novembro) o lançamento dos auscultadores com fios MDR-3R, uma reinterpretação contemporânea dos históricos MDR-3 concebidos em 1979 para acompanhar o primeiro leitor de cassetes Walkman TPS-L2. Quase meio século volvido sobre o nascimento da música portátil, a fabricante nipónica procura capitalizar a tendência de regresso aos auscultadores com fios entre os públicos mais jovens, dispensando baterias, recargas ou processos de emparelhamento através de uma ligação direta ao smartphone por um cabo USB-C.
O novo modelo preserva a arquitetura aberta ("open ear") e a estrutura metálica ultraleve da versão original, recorrendo a diafragmas de 23 mm afinados para garantir um perfil sonoro equilibrado e centrado na naturalidade das vozes.

A variante de série faz-se acompanhar pelas clássicas almofadas de esponja em azul e laranja, permitindo ao utilizador alternar livremente entre ambas as cores. Em simultâneo, a marca desenvolveu a edição especial "Stranger Things Edition" em parceria com a Netflix, evocando a estética dos anos 80 celebrizada pela personagem Max na série de ficção científica através de apontamentos exclusivos na estrutura e de uma embalagem temática dedicada, com chegada ao mercado prevista para o decorrer deste mês de novembro.

Na versão "Stranger Things" mudam as cores.
Na versão "Stranger Things" mudam as cores.Sony

Relativamente à versão "do antigamente", a inovação introduzida passa pela incorporação, no cabo, de um microfone e de um módulo de controlo para a gestão simplificada de chamadas e reprodução multimédia.

"Não se recomenda o uso com um Walkman"

Num detalhe que não deixa de ser irónico, a própria Sony adverte, numa discreta nota de rodapé do documento de apresentação, que para este aparelho "não se recomenda o uso com um Walkman" — o leitor de música portátil dedicado que a marca nipónica continua a produzir, hoje em dia especialmente concebido para os mais puristas.

O aviso constitui um paradoxo para um produto que nasceu precisamente para celebrar a herança da marca no áudio portátil, um segmento que a Sony literalmente inventou, expondo o desfasamento entre um acessório concebido para recolher energia do barramento USB de um telemóvel e a atual linhagem de leitores dedicados Walkman, cujo desenho privilegia a amplificação interna através das saídas analógicas de 3,5 mm e das fichas balanceadas de 4,4 mm.

Por trás do apelo revivalista, a engenharia do conector USB-C revela compromissos evidentes. Ao contrário de uma solução analógica passiva ou de um sistema de conversão de alta fidelidade, o cabo incorpora um conversor digital-analógico (DAC) e respetivo amplificador subordinados ao protocolo USB Audio Class 1.0 (UAC 1.0).

Embora a documentação oficial da Sony omita os valores nominais de profundidade de bits e taxa de amostragem, o padrão UAC 1.0 impõe um teto prático que raramente ultrapassa os 16-bit ou 24-bit a 48 kHz em controladores desta tipologia, ficando o limite teórico máximo fixado nos 24-bit/96 kHz. Deste modo, formatos de alta resolução nativa em 192 kHz ou transmissões em DSD ficam fisicamente fora do alcance do hardware.

Este enquadramento técnico acarreta ainda disparidades operacionais consoante o sistema operativo utilizado. No ecossistema Android, o gestor de áudio nativo (AudioFlinger) tende a forçar a reamostragem de faixas em qualidade de CD (44,1 kHz) para uma frequência fixa a 48 kHz, a menos que o utilizador recorra a aplicações especializadas de reprodução que assumam o controlo direto do barramento USB. Em contrapartida, a arquitetura Core Audio do iOS e iPadOS comuta a taxa de amostragem de forma dinâmica e entrega o sinal em modo "bit-perfect" dentro das capacidades do conversor, aplicando filtros de descida de nível profissional sempre que o ficheiro de origem excede a resolução do chip.

Detalhes que, provavelmente, a grande maioria dos potenciais compradores deste produto não quererá saber. A aposta aqui é captar a atenção de quem procura um acessório de moda rápido para ligar ao smartphone sem adaptador: um conjunto que seja leve, confortável, que toque música sem soar mal e que apanhe a onda revivalista que se sente um pouco por todo o lado.